Em Defesa do Design Inteligente

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Comunicado a Maria Teodósio.

A Maria fez comentários em meu blog em diversos artigos.

Em um dos seus comentários ela disse que eu só não vou aprovar os comentários dela por que os comentários dela  contradizem meus argumentos e minha capacidade argumentativa é muito limitada.

Não Maria, argumentos contrários aos meus, quando trazem consigo razoabilidade me motivam a aprender mais.

No caso minha decisão se baseia nisso:

Bem, descobri um blog criacionista (pouco movimentado e talvez um tanto obscuro). É o blog do criacionista Jephsimple, PEJADO DE LIXO CRIACIONISTA, incluindo as PARVOÍCES do costume, a quem nenhum CIENTISTA SÉRIO DÁ CRÉDITO, saídas do discovery institute.

Eu não estou ofendido com isso, uma vez que esse tipo de argumento não é NENHUM POUCO novo para mim, e nem a Maria é a primeira a me dizer isso e isso acontece na academia também, é um tipo de tática evolucionista.

Então esse tipo de tática eu simplesmente ignoro. Não acrescenta em nada em meu aprendizado sobre o design inteligente, sobre biologia, sobre evolução.

Portanto, não; isso não é seletividade de comentários, tanto que cheguei a aprovar vários, até me deparar com esta citação adolescente, ideológica, falaciosa, infantil, irrelevante. Que alias, eu entrei em seu blog tempos atrás e percebi o mesmo tipo de argumentação rasa, aliás o Mats é muito bem falado em seu blog.

Não fosse esse seu comentário arrogante, infantil, ideológico, adolescente, irracional, teus comentários seriam todos aprovados. como aprovei alguns.

Afinal, não tenho problemas com argumentos contrários ao meu.

Mas eu passei da idade da adolescência, e passei dos vinte um tempinho. E também não entrei no debate ontem.

Então esses argumentos pra mim valem tanto quanto alguém defender o Goku (Dragon Ball ).

Na idade que estou é impossível levar esse tipo de argumento a sério, intelectualmente,  são minúsculos. Seria conveniente pra mim abrir este blog para pessoas que gostam de insultar os outros.Mas eu não tenho nenhum interesse do meu blog ser popular, além de prezar pela honestidade intelectual, pela verdade acima de tudo, e isso é fruto do meu teísmo cristão.

Este blog está aberto apenas a pessoas que sabem focar seus argumentos apenas em argumentos, no caso você estava fazendo isso. Mas essa sua afirmação foi decepcionante, e desanimadora.

Então considere-se excluída deste blog.

Assim, não perca seu tempo comentando neste mesmo.

E também, fique tranquila, não vou dirigir qualquer comentário a você no blog do Mats.

 

Como meu interesse em debater com a Maria reduziu-se a zero, então todos seus comentários serão apagados.

 

 

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Design Inteligente: Um pressuposto Fundamental e Primordial da Ciência

Excelente palestra de Johannes Gérson Janzen autor do blog Sociedade Origem e Destino.

 

 

 

O Absurdo do materialismo filosófico

“Se o materialismo filosófico é verdadeiro; o cérebro nunca poderia ser consciente dele mesmo, por que ele não poderia interagir com ele mesmo fisicamente”

Mono_pensador

Jesus Apologista: Muitas Lições

Gostaria de publicar este excelente artigo do blog cristão Ler pra Crer .

 

Jesus foi um apologista?

Nos Evangelhos vemos Jesus utilizar uma variedade de métodos para comunicar as verdades espirituais. Sua vida exemplificou o próprio princípio que lemos na primeira carta de Pedro 3:15-16: “…estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós.”
Embora Jesus não tenha dito textualmente “Eu fui chamado para ser um apologista e preciso realizar minha tarefa de maneira fiel”, Ele ofereceu razões, em várias ocasiões, a respeito de por que Ele é o Messias e Deus encarnado.
Vamos ver alguns de seus métodos e tentar aprender com eles:
1. Jesus fazia perguntas
Para começar, se você ler os Evangelhos, vai ver que Jesus fez 153 perguntas. Isso é algo que precisa ser praticado por todos os cristãos. Como cristãos, tendemos a ser grandes oradores, mas ouvintes pobres. Se  lermos a literatura rabínica, veremos que fazer perguntas é uma ocorrência comum. Em todas as minhas discussões com meus amigos que são céticos, tendo a fazer esta e outras perguntas: “Se o cristianismo for verdadeiro, você se tornaria um cristão?”

Em alguns casos, fazer perguntas ajuda a focar no problema real. Depois de algumas perguntas, fica evidente que muitas pessoas realmente não têm nenhuma intenção de se entregar a Deus. No final, nenhuma evidência realmente irá convencê-las. Em um caso pelo menos, eu mesmo ouvi um cético dizer que não queria que o cristianismo fosse verdade. É verdade que a fé bíblica envolve a pessoa inteira – o intelecto, as emoções e a vontade. Então, siga os métodos de Jesus e sempre tente chegar ao “coração” da questão.

2. Jesus recorria às evidências

Jesus sabia que não poderia aparecer em cena e não oferecer qualquer evidência de Seu caráter messiânico. Em seu livro sobre Jesus, Douglas Groothuis observa que Jesus recorreu a provas para confirmar as suas afirmações. João Batista, que foi morto na prisão depois de desafiar Herodes, enviou mensageiros a Jesus com a pergunta: “És tu aquele que estava para vir, ou devemos esperar outro?” (Mt 11:3). Isto pode parecer uma pergunta estranha de um homem que os evangelhos apresentam como o precursor profético de Jesus e como aquele que havia proclamado que Jesus era o Messias. Jesus, porém, não fez questão de repreender a João. Ele não disse “Você deve ter fé; suprimir suas dúvidas”. Em vez disso, Jesus apresentou as características distintivas do seu ministério:

“Respondeu-lhes Jesus: Ide contar a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são purificados, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar de mim.” (Mateus 11:4-6; ver também Lucas 7:22)

Os ensinos e os atos de cura de Jesus se destinavam a servir como evidência positiva da sua identidade messiânica, porque cumpriam as predições messiânicas das Escrituras Hebraicas. O que Jesus disse é o seguinte:

1. Se alguém faz certos tipos de ações (os atos citados acima), então é o Messias.
2. Eu estou fazendo esses tipos de ações.
3. Portanto, eu sou o Messias.

3. Jesus apelou para Testemunho e Testemunhas

Porque Jesus era judeu, ele estava bem ciente dos princípios da Torá. O Dicionário Evangélico de Teologia de Baker (The Baker’s Evangelical Dictionary of Theology) observa  que o conceito bíblico de testemunho ou testemunha está intimamente ligado com o sentido legal convencional do Antigo Testamento de testemunho dado em um tribunal de justiça. Em ambos os Testamentos, ele aparece como o padrão primário para estabelecer e testar as alegações de verdade. Reivindicações subjetivas não certificáveis, opiniões e crenças, ao contrário, aparecem nas Escrituras como testemunho inadmissível.

Mesmo o depoimento de uma testemunha não é suficiente, já que para o testemunho ser aceitável, deve ser estabelecido por duas ou três testemunhas (Deut. 19:15). Em João 5:31-39 Jesus diz: “Se eu der testemunho de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro. Outro é quem dá testemunho de mim; e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro.”

Jesus declara que um auto-atestado pessoal, longe de prover verificação,  não confirma,  mas, ao contrário, gera falsificação. Vemos nesta passagem que Jesus diz que o testemunho de João Batista, o testemunho do Pai, o testemunho da Palavra (a Bíblia Hebraica) e o testemunho de suas obras testemunham da Sua messianidade. (1)

4. Ontologia: Ser e Fazer – As ações de Jesus

A ontologia é definida como o ramo da filosofia que analisa o estudo do ser ou da existência. Por exemplo, quando Jesus diz: “Quem me vê a mim, vê o Pai” (João 14:9), a ontologia faz perguntas como: “Está Jesus dizendo que Ele tem a mesma substância ou essência do Pai?” A ontologia é especialmente relevante em relação à Trindade, uma vez que cristãos ortodoxos são demandados a articular como o Pai, o Filho e o Espírito Santo são todos da mesma substância ou essência. Em relação à ontologia, o falecido estudioso judeu Abraham Heschel J. disse: “a ontologia bíblica não separa o ser do fazer.” Heshel continuou: “Aquele que é, age. O Deus de Israel é um Deus que age, um Deus de feitos poderosos.”(2) Jesus sempre recorre às Suas “obras”, que atestam a sua messianidade. Vemos isso nas seguintes Escrituras:

“Mas o testemunho que eu tenho é maior do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que faço dão testemunho de mim que o Pai me enviou.” João 5:36

“Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis. Mas se as faço, embora não me creiais a mim, crede nas obras; para que entendais e saibais que o Pai está em mim e eu no Pai.” João 10:37-38

“Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu digo a você, eu não falo por minha própria iniciativa, mas o Pai, que reside em mim, realiza as suas obras miraculosas.” João 14:10

Os autores do Novo Testamento mostram que Jesus realiza as mesmas “obras” ou “atos”, como o Deus de Israel. Por exemplo, Jesus dá a vida eterna (Atos 4:12; Rom. 10:12-14), ressuscita os mortos (Lucas 7:11-17, João 5:21; 6:40), mostra a capacidade de julgar (Mateus 25:31-46, João 5:19-29, Atos 10:42, 1 Coríntios 4:4-5). Jesus também tem autoridade para perdoar pecados (Marcos 2:1-12, Lucas 24:47, Atos 5:31; Col. 3:13). Assim como o Deus de Israel, Jesus é identificado como eternamente existente (João 1:1; 8:58; 12:41; 17:5; 1 Coríntios 10:4;.. Fil. 2:6; Heb. 11:26.; 13:8; Judas 5), o objeto da fé salvadora (João 14:1, Atos 10:43; 16:31, Rom. 10:8-13) e o objeto de culto (Mt 14:33; 28.: 9,17; João 5:23; 20:28; Fil. 2:10-11, Heb. 1:6;. Apoc. 5:8-12).

5. Os Milagres de Jesus

Na Bíblia, os milagres têm um propósito diferente. Eles são usados por três razões:

1. Para glorificar a natureza de Deus (João 2:11; 11:40)
2. Para credenciar pessoas certas como os porta-vozes de Deus (Atos 2:22;. Heb. 2:3-4)
3. Para fornecer evidência para a crença em Deus (João 6:2, 14; 20:30-31). (3)

Nicodemos, membro do conselho de sentença judaica, o Sinédrio, disse a Jesus: “Rabi, sabemos que és Mestre, vindo de Deus; pois ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.” (João 3:1-2). Em Atos, Pedro disse à multidão que Jesus tinha sido “aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis.” (Atos 2:22).

Em Mateus 12:38-39, Jesus diz:  “Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal se lhe dará, senão o do profeta Jonas; pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra.”

Nesta Escritura, Deus confirmou a alegação messiânica, quando Jesus disse que o sinal que iria confirmar sua messianidade seria a ressurreição.

É importante notar que nem todas as testemunhas de um milagre creem. Jesus não fez Seus milagres para entretenimento. Eles foram realizados para evocar uma resposta. Talvez Paul Moser tenha acertado naquilo que ele chama de “cardioteologia”- uma teologia que visa o coração motivacional de alguém (incluindo a própria vontade) ao invés de apenas sua mente ou suas emoções. Em outras palavras, Deus está muito interessado na transformação moral.

Vemos a frustração de Jesus quando Seus milagres não trouxeram a resposta correta de sua audiência. “E embora tivesse operado tantos sinais diante deles, não criam nele” (João 12:37). O próprio Jesus disse de alguns, “tampouco acreditarão, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lucas 16:31). Um resultado, embora não o efeito, de milagres é a condenação do incrédulo (cf. João 12:31, 37). (4)

6. Jesus apelava à imaginação

Não é preciso ser cientista para ver que em muitas ocasiões Jesus também apelou para a imaginação. Basta ler as parábolas. Jesus sempre soube que poderia comunicar verdades espirituais dessa maneira.

7. Jesus recorreu à sua própria autoridade

Outra maneira usada por Jesus para apelar àqueles a sua volta era a sua própria autoridade. Os rabinos poderia falar em tomar sobre si o jugo da Torá ou o jugo do reino; Jesus disse: “Tomai o meu jugo, e aprendei de mim.” (Mt 11:29). Além disso, os rabinos poderiam dizer que se dois ou três homens se sentassem juntos, com as palavras da Torá entre eles, o Shekhiná (a própria presença de Deus) iria se debruçar sobre eles. Mas Jesus disse: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles” (Mt 18:20). Os rabinos poderiam falar sobre serem perseguidos por amor de Deus, ou por amor do seu nome, ou por causa da Torá; Jesus falou sobre ser perseguido e até mesmo perder a vida por causa dEle. Lembre-se: os profetas poderiam pedir às pessoas para se voltarem para Deus, para virem a Deus a fim de descansar e receber ajuda. Jesus falou com uma nova autoridade profética, afirmando: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11:28). (5)

8. Jesus apelou para a autoridade da Bíblia hebraica

Jesus foi educado na Bíblia hebraica. Não pode ser mais evidente que Ele tinha uma visão muito elevada das Escrituras. Vemos o seguinte:

1. Jesus via-se como sendo revelado na Torá, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24:44) (João 5:39).
2. Jesus ensinou que as Escrituras eram autoritárias: Jesus cita passagens da Torá na tentação no deserto (Mat. 4:1-11).
3. Jesus falou sobre como a Escritura (a Bíblia hebraica) é imperecível no Sermão da Montanha (Mateus 5:2-48).
4. Jesus também discutiu como a Escritura é infalível: (João 10:35)

Assim, podemos perguntar: Qual é a sua visão da Bíblia? Você a lê?

A conclusão, portanto, é a de que ao vermos alguns dos métodos apologéticos de Jesus, talvez possamos concordar com Douglas Groothuis quando afirma:

Nossa amostragem do raciocínio de Jesus, no entanto, questiona seriamente a acusação de que Jesus elogiava a fé acrítica em detrimento de argumentos racionais e de que não se importava com consistência lógica. Pelo contrário, Jesus nunca desconsiderou o funcionamento próprio e rigoroso de nossas mentes dadas por Deus. O seu ensino recorreu à pessoa inteira: à imaginação (parábolas), à vontade e à capacidade de raciocínio. Com toda sua honestidade em informar as excentricidades dos discípulos, os escritores dos Evangelhos nunca narraram uma situação em que Jesus foi intelectualmente contido ou superado em um argumento, nem Jesus jamais encorajou uma fé irracional ou mal informada por parte dos seus discípulos.

Referências:

1. Sproul, R.C, Gerstner, J. and A. Lindsey. Classical Apologetics: A Rational Defense of the Christian Faith and a Critique of Presuppositional Apologetics. Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing. 1984, 19.
2. Heschel., A.J. The Prophets. New York, N.Y: 1962 Reprint. Peabody MA: Hendrickson Publishers. 2003, 44.
3. Geisler, N. L., BECA, Grand Rapids, MI: Baker Book. 1999, 481.
4. Ibid.
5. Skarsaune, O., In The Shadow Of The Temple: Jewish Influences On Early Christianity. Downers Grove, ILL: Intervarsity Press. 2002, 331.

Fonte: Traduzido e adaptado de Ratio Christi – Eric Chabot (chab123.wordpress.com)

As leis da Lógica são apenas convenções humanas?

By LER PRA CRER

Todas as discussões racionais (mesmo aquelas relacionadas com a existência ou não de Deus) são dirigidas e restringidas pelas leis da Lógica. Apenas o teísmo, no entanto, pode justificar adequadamente a existência dessas leis transcendentes. Se Deus existe, Ele é o padrão absoluto, objetivo, transcendente da verdade; as leis da Lógica são simplesmente um reflexo da Sua natureza. Elas existem como uma extensão do Seu pensamento racional e, por esta razão , elas são tão eternas quanto o próprio Deus. “É Deus real?” Sem Deus como a fonte para as leis transcendentes da Lógica, abordar essa questão (e empreender qualquer jornada lógica em busca de uma resposta a ela) seria impossível.

Como ateu, eu rejeitava a existência de Deus e oferecia uma série de objeções e explicações alternativas em um esforço para explicar as leis da Lógica. Já examinamos a explicação teísta para essas leis e também várias objeções naturalistas para ver se o ateísmo poderia oferecer uma alternativa viável. Se as leis da lógica não são simplesmente uma “realidade bruta” do nosso universo, poderiam ser elas apenas uma questão de consenso humano?

Objeção: Não são as leis da lógica simplesmente convenções humanas?

Resposta: Não. Por “convenção”, a maioria das pessoas normalmente quer dizer “um princípio com o qual todos concordam”. Se as leis da lógica são simplesmente idéias sobre a verdade, que as pessoas acordaram, duas coisas seriam necessárias antes que pudéssemos ter qualquer lei da Lógica: as pessoas e o acordo. Mas a Lei da Identidade (por exemplo) já existia antes que as pessoas estivessem aqui para pensar sobre ela. Antes da existência das pessoas, “A” ainda era “A” e não poderia ser “não-A”. Além disso, as pessoas discordam sobre o que é verdadeiro (ou falso) o tempo todo, e as nossas posições muitas vezes se contradizem. Como, então, podem as leis da Lógica ser transcendentes a menos que elas existam para todos nós, quer concordemos com elas ou não? Se as leis da lógica fossem apenas convenções humanas aceitas, elas em essência seriam sujeitas a “votação”; as leis da lógica poderiam ser alteradas, se houvesse gente o bastante para concordar sobre o assunto [no entanto, elas são imutáveis].

Objeção: Se Deus criou as leis da lógica, elas são dependentes de Deus. Elas, então, não são verdades necessárias, mas verdades contingentes, e isso significa que elas não são fundamentais para o universo. Sendo assim, se Deus criou as leis da lógica, não significa também que Ele poderia mudá-las sempre que Ele quisesse? Deus não poderia organizar as coisas de forma que “A” também fosse “não- A”? Afinal, se Ele criou as leis, Ele deve ser capaz de mudá-las. Mas a proposição “A” também é “não- A” é irracional. Logo, se Deus não é capaz de alterar mesmo essa lei, as leis da lógica não parecem nada dependentes de Deus.

Resposta: Deus não criou as leis da lógica. Essas leis são simplesmente um reflexo dos pensamentos e do caráter lógico de Deus, e como tal, elas revelam a Sua lógica e Sua natureza perfeita. Deus, em Sua perfeição, não fará (e não pode fazer) nada para violar Sua própria natureza; Ele não é autocontraditório. Assim como não existe tal coisa como um “círculo quadrado” (porque isso viola a natureza da circularidade), Deus não pode existir fora de Sua natureza, incluindo a natureza dos seus pensamentos lógicos. A lógica é fundamental simplesmente porque Deus é fundamental. As leis da lógica são objetivas, imutáveis, internamente consistentes e transcendentes porque refletem a natureza de Deus.

Objeção: Mas não há diferentes tipos de lógica? Se há uma variedade de pontos de vista diferentes e de leis, a idéia de transcendência é incorreta. Não há necessidade, portanto, de uma fonte transcendente dessas leis.

Resposta: Embora seja verdade que existem diferentes categorias de lógica aplicadas aos diferentes aspectos da verdade proposicional, da matemática e do raciocínio, os princípios básicos subjacentes da Lógica permanecem intactos e fundacionais. Além disso, embora muitas “leis do pensamento” tenham sido propostas ao longo do tempo por grandes pensadores (Platão, Aristóteles, Locke, Leibniz, Schopenhauer, Boole, Welton e mesmo Russell), essas leis refletem apenas, de uma forma ou de outra, os mesmos axiomas lógicos objetivos, pré-existentes e universais. Em essência, continuamos a reafirmar e reformular mais e mais as mesmas leis da Lógica de sempre. Quando alguém diz que “há diferentes tipos de lógica”, está falhando ao deixar de reconhecer os axiomas subjacentes objetivos e imutáveis. Essas leis fundamentais da Lógica permanecem constantes dentro de cada sistema.

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A fim de viver de forma consistente dentro de nossa visão de mundo, cada um de nós deve examinar a base para nossas alegações racionais. Se eu não acredito em alguma coisa, mas ajo como se acreditasse nela, minha vida é contraditória. Se eu rejeito a astrologia, por exemplo, mas compro um bilhete de loteria hoje com base nos números fornecidos pelo horóscopo de hoje, estou agindo de forma inconsistente. Assim, quando era ateu e argumentava contra a existência de Deus, eu empregava leis da lógica que a minha visão de mundo ateísta não podia me fornecer. Eu tinha que tomar emprestado esses conceitos exatamente da própria visão de mundo que eu estava tentando derrotar. Hoje, não mais um ateu e sim um teísta, eu tenho um fundamento adequado para esses axiomas lógicos. Eu posso responder a objeções de uma forma que seja consistente com a minha visão de mundo.

Fonte: J. Warner Wallace, detetive de homicídios (especialista em casos encerrados), autor de “The Cold Case Christianity” e “ALIVE”

Os Frutos da Queda (Gn. 4:1-26)

Study By: Bob Deffinbaugh

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Introdução

Quando pecamos, muitas vezes o fazemos com a fútil esperança de que conseguiremos o máximo de prazer com o mínimo de castigo. No entanto, raramente acontece desse jeito.

Certa vez ouvi a história de um homem e sua esposa que resolveram ir a um drive-in movie. Eles acharam que o preço estava muito alto e então combinaram de enganar a administração do cinema. Quando estavam a pequena distância do drive-in, o marido enfiou-se no porta-malas do carro. O acordo era que sua esposa o deixaria sair depois que estivessem dentro do cinema.

Tudo corria como planejado, pelo menos até ao que dizia respeito ao vendedor de entradas. Mas, quando a esposa foi à traseira do carro para deixar seu marido sair, descobriu que ele estava com a chave do porta-malas em seu bolso. Em desespero, ela teve que chamar o gerente, a polícia, e o esquadrão de resgate. Não viram o filme e o porta-malas teve que ser arrombado. Tal é o caminho do pecado. O trajeto é curto, mas o preço é alto.

À primeira vista, pegar o fruto proibido e comê-lo parecia um assunto banal, um simples delito. Mas Gênesis capítulo três deixa claro que foi um assunto da maior gravidade. O homem preferiu acreditar em Satanás a crer em Deus. Adão e Eva concluíram que Deus era demasiadamente duro e severo. Decidiram buscar o caminho da auto-satisfação ao invés da subserviência.

A serpente sugeriu, na verdade afirmou audaciosamente, que nenhum efeito maléfico seria experimentado em desobediência a Deus, apenas um nível superior de vida. Mas, neste capítulo quatro de Gênesis rapidamente vemos que as promessas de Satanás foram mentiras grosseiras. Aqui o verdadeiro salário do pecado começa a aparecer.

O Fruto da Queda na Vida de Caim
(4:1-15)

A união sexual de Adão e Eva produziu uma primeira criança, um filho a quem Eva chamou Caim. Esse nome provavelmente deva ser entendido como um jogo de palavras. Soa semelhante à palavra hebraica Qanah, que significa “conseguir” ou “adquirir”. Em palavras atuais, este filho provavelmente teria sido chamado “consegui”.60

A importância do nome é que ele reflete a fé de Eva, pois ela disse: “Adquiri (qaniti, de qanah) um varão com o auxílio do Senhor.” (Gn. 4:1)

Apesar de haver alguma discussão entre os estudiosos da Bíblia quanto ao exato significado desta afirmação,61 Eva reconheceu a ação de Deus na dádiva de seu filho. Creio que Eva entendeu que da profecia de Gênesis 3:15 alguém de sua descendência traria sua redenção. Talvez ela visse Caim como seu redentor. Se foi assim ela estava fadada ao desapontamento.

Ainda que ela pudesse estar enganada em suas esperanças por uma rápida vitória sobre a serpente pelo nascimento de seu primogênito, ela estava certa em esperar a libertação de Deus através de sua descendência. Ela estava, então, correta no geral, mas errada no particular.

O otimismo de Eva parece ter-se desvanecido na época do nascimento de seu segundo filho, Abel. Seu nome significava “vaidade”, “sopro” ou “vapor”. Talvez, nessa época, ela já tivesse aprendido que as conseqüências do pecado não iam ser rapidamente afastadas. A vida envolveria luta e uma boa dose de esforço aparentemente inútil. Caim foi o símbolo da esperança de Eva; Abel, de seu desespero.

Abel foi pastor de ovelhas, enquanto que Caim foi lavrador da terra. Em parte alguma Moisés dá a entender que uma dessas ocupações seja inferior à outra. Nem este relato é alguma espécie de precursor dos shows de televisão que esgotam o assunto da luta entre pecuaristas e agricultores enlameados.

O problema de Caim não é encontrado nos seus meios de subsistência, mas no homem em si mesmo:

“Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho, e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou.” (Gn. 4:3-5a)

Os Israelitas que primeiramente leram estas palavras de Moisés tiveram pouca dificuldade em compreender o problema com o sacrifício de Caim. Eles receberam isto como uma parte do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia. Como tal eles entendiam que o homem não podia se aproximar de Deus sem o derramamento do sangue sacrificial. Ainda que houvesse sacrifícios sem sangue62 o homem só poderia ter acesso a Deus através do sangue derramado. A oferta de Caim foi insuficiente para os requisitos da lei de Deus.

Alguém pode objetar: “mas Caim não tinha tal revelação!” Absolutamente certo. Mas, então, todos devemos admitir que nenhum de nós sabe qual revelação ele possuía. Qualquer especulação sobre esse assunto é apenas isso – mera conjectura.

Tendo dito isto, devo ressaltar que não era necessário a Moisés tê-lo nos contado. Seus contemporâneos tinham base mais que suficiente para compreender a importância do sangue derramado, por causa das prescrições meticulosas da Lei a respeito de sacrifícios e adoração. Os cristãos de nossa época têm a vantagem de ver o assunto mais claramente à luz da cruz, e da percepção de que Jesus foi “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.” (Jo. 1:29)

Ainda que não saibamos o que Deus revelou a Adão ou a seus filhos, temos certeza que eles sabiam o que era preciso fazer. Isto fica claro nas palavras de Deus a Caim:

“Então lhe disse o Senhor: Por que andas tão irado? e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn.4:6-7)

A pergunta de Deus claramente dá a entender que a raiva de Caim era infundada. Ainda que não saibamos os pormenores do que o “proceder bem” envolvia, Caim sabia. O problema de Caim não era falta de instrução, mas insurreição e rebelião contra Deus.

Caim, como muitas pessoas hoje, queria vir a Deus, mas queria fazê-lo do seu jeito. Isto pode funcionar numa lanchonete. Eles podem deixá-lo fazer do “seu jeito”, como diz o comercial, mas Deus não. Como um amigo meu diz “você pode ir para o céu do jeito de Deus, ou poder ir para o inferno de qualquer jeito que lhe agrade”.

Repare que Caim não era uma pessoa não religiosa. Ele cria em Deus, e queria a aprovação de Deus. Mas ele queria vir a Deus nos seus termos, não nos termos de Deus. O inferno, como já disse antes, estará repleto de pessoas religiosas.

Caim não queria se aproximar de Deus através do sangue derramado. Caim preferiu oferecer a Deus o fruto do seu trabalho. Ele tinha um “polegar verde” e mãos manchadas de sangue não o atraíam. Os homens atuais pouco diferem dele. Muitos são aqueles que, como os demônios (Tg. 2:19), crêem em Deus, e reconhecem Jesus como o Filho de Deus. Mas se recusam a se submeter a Ele como Senhor. Recusam Sua morte sacrificial e substitutiva na cruz como pagamento por seus pecados. Desejam chegar a Deus nos seus próprios termos. A mensagem do Evangelho é muito clara: não há aproximação de Deus exceto por meio daquilo que Jesus conquistou através da morte na cruz.

Jesus lhe disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo. 14:6)

“… E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (At. 4:12)

“… Com efeito, quase todas as cousas, segundo a lei, se purificam com sangue, e sem derramamento de sangue, não há remissão.” (Hb. 9:22)

“… mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo.” (I Pe. 1:19). (cf. também Lc. 22:30; At. 20:28; Rm. 3:25; 5:9; Ef. 1:7).

Como Deus foi gracioso ao buscar Caim e gentilmente confrontá-lo com sua raiva pecaminosa! Como foi clara a mensagem de restauração e o aviso sobre o perigo que ele enfrentava! Mas o conselho de Deus foi rejeitado.

Esta semana um amigo meu me chamou a atenção para a sabedoria da repreensão de Deus. Como teria sido fácil para Deus corrigir Caim comparando-o com Abel. Essa é a maneira que nós pais muitas vezes usamos na disciplina de nossos filhos. Mas Deus não disse: “Por que você não me adora como seu irmão Abel?” Deus chamou a atenção de Caim para o padrão que Ele tinha estabelecido, não para o exemplo de seu irmão. Mesmo assim, Caim fez a ligação. A oferta de Caim não foi aceita, a de Abel foi. Deus gentilmente admoestou Caim e o instruiu que o jeito de receber a aprovação de Deus era se submeter ao padrão divino de aproximação de Deus. Caim concluiu que a solução era eliminar a competição – assassinar seu irmão.

Uma coisa deve ficar clara. Não foi só o sacrifício que foi o problema. Muito mais, foi a pessoa que procurou apresentar a oferta. Moisés nos diz:

“Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou.” (Gn. 4:4b-5a)

A fonte do problema era Caim, e o sintoma foi o sacrifício.

O verso 7 está impregnado de implicações:

“Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn. 4:7)

O jeito de se restabelecer de sua depressão era mudar sua atitude. Ele se sentiria melhor à medida em que fizesse melhor. Em certo sentido Caim estava certo ao ficar zangado consigo mesmo. Ele estava errado em sua animosidade diante de seu irmão e diante de Deus.

Se Caim preferia ignorar a suave cutucada de Deus, que fique então completamente ciente dos perigos à sua frente. O pecado jazia esperando por ele como um animal à espreita. Queria controlá-lo, mas ele devia dominá-lo.63 Caim tinha que tomar uma decisão e ficaria responsável por sua escolha. Ele não precisava sucumbir ao pecado, da mesma forma que não precisamos, porque Deus sempre nos dá graça suficiente para resistir à tentação (I Co. 10:13).

Quando os dois homens foram para campo aberto (aparentemente onde não haveria testemunhas, cf. Dt. 22:25-27), Caim matou seu irmão. Agora Deus veio a Caim para julgá-lo:

“Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso sou eu tutor de meu irmão?” (Gn. 4:9)

A insolência de Caim é incrível. Não só ele mente ao negar qualquer conhecimento sobre o paradeiro de seu irmão, mas parece censurar a Deus pela pergunta. Pode até mesmo haver um jogo sarcástico nas palavras para dar a impressão de: “Não sei. Deverei eu pastorear o pastor?”64

O solo foi amaldiçoado por causa de Adão e Eva (Gn. 3:17). Agora a terra é manchada com o sangue de um homem, e que foi espalhado por seu irmão. Esse sangue agora clama a Deus por justiça (4:10). Deus, então, confronta Caim com seu pecado. O tempo para arrependimento já passou e agora a sentença é dada a Caim pelo Juiz da terra.

Não é o solo que é amaldiçoado novamente, mas Caim:

“És agora, pois, maldito por sobre a terra, cuja boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue de teu irmão. Quando lavrares o solo, não te dará ele a sua força; serás fugitivo e errante pela terra.” (Gn. 4:11-12)

Caim tinha sido abençoado com um “polegar verde”. Ele tentou se aproximar de Deus através do fruto de seu trabalho. Agora Deus o amaldiçoou bem onde residia sua força e seu pecado. Nunca mais Caim seria capaz de se sustentar pelo cultivo do solo. Enquanto que Adão teve que obter seu sustento pelo suor de seu rosto (3:19), Caim não poderia nem sobreviver pela agricultura. Para ele a maldição do capítulo três foi intensificada. Para Adão a agricultura foi difícil; para Caim foi desastrosa.

A resposta de Caim à primeira repreensão de Deus tinha sido sombria e silenciosa, seguida pelo pecado. Caim não está mais silencioso uma vez que sua sentença foi pronunciada, mas não há indicação de arrependimento, só pesar.

“Então, disse Caim ao Senhor: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me matará.” (Gn. 4:13-14)

As palavras de Caim soam familiares a qualquer pai. Às vezes uma criança está sinceramente triste por sua desobediência. Em outras está apenas triste por ter sido pega, e lamenta amargamente a severidade do castigo que vai receber. Tudo o que Caim faz é repetir amargamente sua sentença, e expressar seu medo de que os homens o tratem da mesma maneira que ele tratou seu irmão.

Deus afirmou a Caim que, ainda que a vida humana significasse pouco para ele, Ele a valorizava muito. Ele sequer permitiria que o sangue de Caim fosse então derramado.65 Não podemos ter certeza da exata natureza do sinal que foi colocado em Caim. Pode ter sido uma marca visível, mas o mais provável é que tenha sido algum tipo de acontecimento que confirmasse a Caim que Deus não permitiria que ele fosse morto.66

O verso 15 tem duplo propósito. O primeiro é assegurar a Caim que ele não morreria de uma morte violenta pelas mãos de um homem. O segundo é uma clara advertência a qualquer um que considerasse tirar sua vida. Note que as palavras: “Assim, qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes.” (Gn. 4:15), não são ditas para Caim, mas de Caim. Deus não disse: “qualquer que te matar”, mas “qualquer que matar a Caim”.

Uma genealogia parcial é dada da linhagem de Caim. Creio que Moisés a empregou para evidenciar a maldade de Caim (e a pecaminosidade do homem iniciada na Queda) em seus descendentes, e para servir como contraste à genealogia de Adão através de Sete no capítulo cinco.

Caim habitou na terra de Node. Depois do nascimento de seu filho, Enoque, Caim edificou uma cidade que chamou pelo nome de seu filho. Parece que a fundação desta cidade foi um ato de rebelião contra Deus, que tinha dito que ele seria fugitivo e errante (4:12).

Lameque manifesta a raça humana em seu nível mais baixo:

“Lameque tomou para si duas esposas: o nome de uma era Ada, a outra se chamava Zilá. Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado. O nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Zilá, por sua vez, deu à luz a Tubalcaim, artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro; a irmã de Tubalcaim foi Naamá. E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete.” (Gn. 4:19-24).

Lameque aparece para ser o primeiro a se afastar do ideal divino para o casamento como descrito no capítulo dois. Uma esposa não era suficiente para ele, assim ele teve duas, Ada e Zilá.

Esperamos que Moisés só tenha palavras de condenação para Lameque. Certamente nada de bom poderia vir de tal homem. E mesmo assim, é da sua descendência que vêm as grandes contribuições culturais e científicas. Um filho tornou-se o pai dos pastores nômades, outro foi o primeiro de uma linhagem de músicos, e outro foi o primeiro dos grandes trabalhadores em metal.

Precisamos fazer uma pausa para observar que mesmo o homem em seu pior estado não está desabilitado a produzir aquilo que é considerado benéfico à raça humana. Também devemos nos apressar a dizer que as contribuições do homem podem rápida e facilmente ser adaptadas para a ruína dos homens. A música pode atrair e seduzir os homens ao pecado. A habilidade do trabalhador em metal pode ser usada para produzir utensílios de pecado (por exemplo ídolos, cf. Ex. 32:1 e ss).

Para um ímpio, a linhagem de Caim foi a origem de muitas coisas elogiáveis. Mas os verdadeiros frutos do pecado são revelados nas palavras de Lameque às suas esposas. Adão e Eva haviam pecado, mas arrependimento e fé estão implícitos depois que sua sentença foi pronunciada. Caim assassinou seu irmão Abel, e, apesar de não ter se arrependido totalmente, não podia defender seus atos.

Lameque nos leva ao ponto da história do homem onde o pecado não é apenas cometido descaradamente, mas com prepotência. Ele se vangloriou de seu assassinato para as suas mulheres. Mais que isso, ele se gabou de que seu pecado foi cometido contra um rapaz que simplesmente o ferira. Este assassinato foi brutal, ousado e vão. Pior de tudo, Lameque mostra desdém e desrespeito para com a Palavra de Deus: “Se Sete vezes se tomará vingança de Caim; de Lameque, porém, setenta vezes sete.” (Gn. 4:24).

Deus tinha pronunciado estas palavras para garantir a Caim que ele não seria morto pelas mãos de um homem. Ele também preveniu aos homens sobre a gravidade de tal ato. Estas palavras foram pronunciadas para mostrar o fato de que Deus valorizava a vida humana. Lameque as torceu e distorceu como ostentação de sua violenta e agressiva hostilidade para com os homens e para com Deus. Aqui o homem rapidamente mergulha no fundo do barril!

Um Vislumbre de Graça
(4:25-26)

Em Romanos capítulo cinco o apóstolo Paulo tem muito a dizer sobre a queda do homem no livro de Gênesis. Mas, neste mesmo capítulo, encontramos estas palavras de esperança: “mas onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm. 5:20).

O pecado certamente abundou na linhagem de Caim, mas o capítulo não termina sem um vislumbre da graça de Deus.

“Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou. A sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do Senhor.” (Gn. 45-26)

Eva esperou pela salvação através de seu primeiro filho, Caim. Certamente não viria dele ou de seus des-cendentes. Nem poderia vir de Abel. Mas um outro filho foi dado, cujo nome, Sete, significa “apontado” (ou nomeado). Ele não foi apenas um substituto para Abel (verso 25), ele foi o descendente através do qual nasceria o Salvador.

Sete também teve um filho, Enos. Começava a ficar claro que a libertação que Adão e Eva esperavam não seria breve, mas, no entanto, era certa. E assim foi que naqueles dias os homens começaram “a invocar o nome do Senhor” (verso 26). Entendo que este foi o começo da adoração coletiva.67 Em meio a uma geração perversa e deformada havia um remanescente de fé que confiava em Deus e esperava por Sua salvação.

Conclusão

O Novo Testamento vai muito além de nosso melhor comentário sobre este capítulo e nos informa sobre seus princípios e aplicações práticas.

Este relato não é simplesmente um registro da história de dois homens que viveram há muito tempo atrás e num lugar muito distante. Minha Bíblia me informa que ele é uma descrição de dois caminhos, o caminho de Abel e o caminho de Caim.

“Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Coré.” (Jd. 11)

Judas adverte seus leitores a respeito daqueles que são falsos crentes (verso 4). Eles não são salvos, mas se esforçam para se passar por crentes e perverter a verdadeira fé e desviar os homens de vivenciar a graça de Deus. No verso 11 estes homens são descritos como sendo iguais a Caim. São rebeldes que se escondem sob a bandeira da religião, como ele.

Deixe-me apenas dizer que o mundo hoje está cheio de religião, e o inferno estará cheio de religiosos. No entanto, há uma diferença substancial entre aqueles que são justos e aqueles que são religiosos. Aqueles que são verdadeiramente salvos são os que, como Abel, se aproximam de Deus como pecadores, e que compreendem o fato de que só através do sangue derramado do Cordeiro perfeito de Deus, o Senhor Jesus Cristo, serão salvos. Todos os outros tentam ganhar a aprovação de Deus oferecendo o trabalho de suas mãos. O “caminho de Caim” é uma fila interminável daqueles que querem alcançar o céu “do seu jeito” e não do Seu jeito.

A ironia do caminho de Caim é que ele é marcante. Ainda que pareçam oferecer a Deus boas obras, seus corações estão corrompidos.

“Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão, e por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas.” (I Jo. 3:11-12)

Aqueles que são maus não podem permanecer com aqueles que são verdadeiramente justos. Eles proclamam amor fraternal mas falham ao praticá-lo. Não é de se estranhar, então, que os líderes religiosos da época de Jesus O rejeitaram e O entregaram à morte com a ajuda dos gentios. Isto é o que João explicou em seu evangelho.

“A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela… a saber, a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam.” (Jo. 1:4-5; 9-11)

Para aqueles que andam no caminho de Caim há pouca razão para esperança. Podem existir vantagens ilusórias de cultura ou tecnologia, mas, no final das contas, devem ter a mesma a sorte de Caim. Devem passar seus dias longe da presença de Deus e perceberão, afinal, que seus dias na terra são cheios de tristeza e pesar.

Nós podemos nos regozijar, pois há um caminho melhor, o caminho de Abel.

“Pela fé, Abel ofereceu a Deus, mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala.” (Hb. 11:4)

“Para que dessa geração se peçam contas do sangue dos profetas, derramado desde a fundação do mundo; desde o sangue de Abel até ao de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e a Casa de Deus. Sim, eu vos afirmo, contas serão pedidas a esta geração.” (Lc. 11:50-51)

“E a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala cousas superiores ao que fala o próprio Abel.” (Hb. 12:24)

O que fez diferença entre Caim e Abel foi a fé. Abel não confiou em si mesmo, mas em Deus. Seu sacri-fício foi um sacrifício melhor porque evidenciava sua fé e refletia que o objeto de sua fé era Deus. Sem dúvida ele também tinha alguma compreensão do valor do sangue derramado de uma vítima inocente.

Mas Abel foi mais do que um exemplo de um crente primitivo, ele foi, de acordo com nosso Senhor, um profeta. Talvez por sua coragem no falar, mas certamente por suas obras, ele proclamou a seu irmão o caminho de acesso a Deus. Ele também foi profeta ao predizer em sua morte o destino de muitos que viriam tempos depois pregar a palavra de Deus aos não crentes.

Embora Deus valorizasse o sangue de Abel que foi derramado por sua fé, ele não deve ser comparado àquele sangue mais excelente que foi derramado por Jesus Cristo. O sangue de Abel foi um testemunho de sua fé. O sangue de Cristo é o agente purificador pelo qual os homens são purgados de seus pecados e libertos do castigo da eterna separação de Deus. Você já veio a confiar no sangue de Jesus como agente de Deus, Seu único agente pelo seu pecado? Por que não fazê-lo hoje?


60 Cf. H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker-Book House, 1942), I, p. 189.

61 Literalmente, Eva replicou: “Consegui um filho, o Senhor”. Ela acreditava ter gerado o Salvador? Claro, isto é possível. Talvez o mais provável seja que ela tenha reconhecido que Deus a capacitou a dar à luz a uma criança, uma criança através da qual sua libertação logo pudesse vir.

62 “A oferta aqui é minha, a qual no caso humano era um presente de admiração ou lealdade e, como termo ritual, poderia descrever um animal ou, com mais freqüência, uma oferta de cereais (p. e. I Sm. 2:17; Lv. 2:1)” Derek Kidner, Genesis: An Introduction and Commentary (Chicago: Inter-Varsity Press, 1967), p. 75.

63 Estas palavras são quase idênticas àquelas do verso 16 do capítulo três: “Teu desejo será para o teu marido, e ele te governará”. Deus está sugerindo aqui que a mesma tentação (ou, pelo menos o mesmo tentador) que Adão e Eva falharam em resistir é agora enfrentada por Caim?

64 Gerhard VonRad, Genesis (Philadephia: The Westminster Press, 1972), p. 106.

65 A pena capital não foi instituída por Deus até o capítulo nove. Parecia que “uma sentença de vida” como errante e vagabundo, fosse maior punição para Caim do que condená-lo à morte.

66 VonRad sugere uma tatuagem ou algo semelhante (página 107). A mesma palavra para sinal é encontrada em 9:13 e 17:11.

67 “Desde que este chamado pelo uso do nome implique em adoração pública, temos aqui o primeiro registro de adoração pública regular. A adoração particular é pressuposta como precedente. A grande importância da adoração pública, tanto no caso de necessidade pessoal, como também no caso de confissão pública, é belamente exposta por este breve registro.” Leupold, p. 228.

A Queda do Homem (Gênesis 3:1-24)

Se a queda do homem ocorresse em nossos dias, mal se poderia imaginar as conseqüências. Acho que a União Americana dos Direitos Civis imediatamente abriria um processo – contra Deus, e em defesa de Eva e seu marido, Adão (a ordem dos dois não é acidental). O processo provavelmente se fundamentaria com base em um despejo ilegal. “Afinal”, seria dito, “este alegado ato pecaminoso foi consumado na privacidade do jardim, e com o consentimento de dois adultos.” Mas, acima de tudo, seria dito que o castigo foi totalmente desproporcional ao crime (se é que de fato houve algum). Deus poderia realmente estar falando sério na denúncia feita neste relato? Por causa de uma simples mordida em algum “fruto proibido” o homem e a mulher são despejados e sofrerão as conseqüências por toda a vida? E mais que isso, por causa desse único ato, o mundo inteiro e toda a raça humana continuarão a sofrer seus males, até nós?

Aqueles que não levam a Bíblia a sério, ou literalmente, têm um pouco de dificuldade neste ponto. Simplesmente anulam o terceiro capítulo de Gênesis, como se fosse uma lenda. Para eles é simplesmente uma história simbólica que se esforça para explicar as coisas como elas são. Os detalhes da queda não apresentam nenhum problema pois não são fatos, mas ficção.

Os evangélicos provavelmente tendem a se consolar com a lembrança de que isto aconteceu há muito tempo atrás e num lugar muito distante. Uma vez que a queda ocorreu há tantos anos atrás, não nos sentimos inclinados a encarar as conseqüências que nos fulminam desta passagem.

Mas, muitas questões sérias se levantam em relação ao relato da queda do homem. Por que, por exemplo, Adão deve assumir a responsabilidade principal quando Eva é que é o personagem principal da narrativa? Para colocar a questão em termos mais contemporâneos, por que Adão leva a culpa quando foi Eva quem manteve o diálogo?

Além do mais devemos refletir sobre a gravidade das conseqüências do homem partilhar o fruto proibido à luz do que parece ser um assunto um tanto trivial. O que foi tão ruim nesse pecado que propiciou uma resposta tão dura de Deus?

A estrutura dos primeiros capítulos de Gênesis requer esta descrição da queda do homem. Em Gênesis capítulos um e dois lemos sobre a criação perfeita que recebeu a aprovação de Deus como sendo “boa” (cf. 1:10/12/18/21). No capítulo quatro encontramos ciúme e assassinato. Nos capítulos seguintes a raça humana vai de mal a pior. O que aconteceu? Gênesis três responde esta questão.

Assim, este capítulo é essencial porque explica o mundo e a sociedade como os vemos hoje. Ele nos informa sobre as estratégias de Satanás para tentar aos homens. Explica as razões para passagens do Novo Testamento que restringem as mulheres de assumirem cargos de liderança na igreja. Ele nos desafia a considerar se continuamos ou não a “cair” como o fizeram Adão e sua esposa.

No entanto, este não é um capítulo que nos arrependeremos de ter estudado. Ele descreve a entrada do pecado na raça humana e a gravidade das conseqüências da desobediência do homem. Mas, além da pecaminosidade do homem e das penalidades que ela exige, há a revelação da graça de Deus. Ele busca o pecador e lhe providencia uma vestimenta por causa do pecado. Ele promete um Salvador através do qual todo este trágico evento será tornado em triunfo e salvação.

O Pecado do Homem
(3:1-7)

De repente, abruptamente e sem nenhuma introdução, aparece no verso um a serpente. Estamos preparados para encontrar Adão, Eva e o jardim, pois já os vimos antes. Diz-se que a serpente é uma das criaturas de Deus, então, devemos pensar nessa criatura literalmente. Apesar de ter sido uma cobra real, a revelação posterior nos informa que o animal estava sendo usado por Satanás, que é descrito como dragão e serpente (cf. II Coríntios 11:3 e Apocalipse 12:9, 20:2).

Ainda que possamos desejar conhecer as respostas para as questões ligadas à origem do mal, Moisés não tinha a intenção de nos fornecê-las aqui. O objetivo de Deus é nos mostrar que somos pecadores. Ir mais adiante só nos leva a tirar o foco de nossa atenção da nossa responsabilidade pelo pecado.

Repare especialmente na abordagem de Satanás. Ele não se aproxima como um ateu, ou como alguém que desafiaria logo de cara a fé que Eva tinha em Deus.54 Satanás pode se manifestar como uma Madalyn Murray O’Hair, mas, com mais freqüência, como um “anjo de luz” (II Coríntios 11:14). Satanás muita vezes fica atrás do púlpito, segurando uma Bíblia em suas mãos.

A formulação das perguntas de Satanás é significativa. A palavra “de fato” (verso um) está exalando insinuação. O efeito é este: “Certamente Deus não poderia ter dito isto, poderia?” Também o termo Deus (“Deus disse” – verso um) é interessante. Moisés vinha usando a expressão “O Senhor Deus”, Yahweh Elohim:

“Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito” (Gênesis 3:1). Mas quando Satanás se referiu ao Senhor Deus ele simplesmente o fez como Deus. Esta omissão é indicativa da atitude rebelde de Satanás diante do Deus Todo-Poderoso.

A abordagem inicial de Satanás não é para negar, mas para enganar; não para levar à desobediência, mas para causar dúvidas. Satanás chegou até Eva como um questionador. Ele distorceu deliberadamente o mandamento de Deus, mas de maneira a sugerir “Posso estar errado, assim, corrija-me se estiver enganado.”

Ora, Eva nunca teria começado esta conversa. Era uma completa subversão da ordem de autoridade de Deus. Essa ordem era Adão, Eva, criatura. Adão e Eva expressavam o governo de Deus sobre Sua criação (1:26). Eva não hesitaria em censurar tal conversa se não fosse pela maneira como ela foi iniciada por Satanás.

Se Satanás tivesse começado por desafiar o mandamento de Deus ou a fé que Eva tinha nEle, sua escolha teria sido bem fácil. Mas Satanás expressou o mandamento de Deus de forma enganosa. Ele colocou a questão como para parecer que estivesse mal informado e precisasse ser corrigido. Poucos de nós podem evitar a tentação de falar aos outros que estão errados. Assim, por curiosidade, Eva começou a trilhar o caminho da desobediência enquanto supunha que estava defendendo a Deus da serpente.

Você percebeu que Satanás sequer mencionou a árvore da vida ou a árvore do conhecimento do bem e do mal? Que ataque sutil! Sua pergunta trouxe a árvore proibida ao centro do pensamento de Eva, mas sem mencioná-la. Ela o fez. Com sua pergunta Satanás não somente envolveu Eva no diálogo, mas também levou seus olhos à generosa provisão de Deus e fez com que ela pensasse somente na Sua proibição. Satanás não deseja que conside-remos a graça de Deus, mas que meditemos rancorosamente nas Suas proibições.

E é exatamente isto o que, imperceptivelmente, toma conta dos pensamentos de Eva. Ela revela sua mudança de atitude através de muitas “escorregadelas freudianas”. Enquanto Deus disse: “De qualquer árvore do jardim comerás livremente” (2:16), Eva disse: “Do fruto das árvores do jardim podemos comer” (3:2). Eva omitiu o “qualquer” e o “livremente”, as duas palavras que enfatizavam a generosidade de Deus.

Da mesma forma, Eva teve uma impressão distorcida da severidade de Deus na proibição do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ela expressou a instrução de Deus nestas palavras: “Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais.” (3:3) Mas Deus tinha dito: “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (2:17)

Apesar de exagerar a proibição ao ponto de até mesmo tocar a árvore ser ruim, Eva inconscientemente subestimou o julgamento de Deus ao omitir a palavra “certamente”, e ao falhar em informar que a morte viria no dia da transgressão. Em outras palavras, Eva enfatizou a severidade de Deus, mas subestimou o fato de que o julgamento era certo e seria rapidamente executado.

O primeiro ataque de Satanás à mulher foi como um questionador religioso, num esforço para criar dúvidas acerca da bondade de Deus e para fixar a atenção dela no que era proibido contra tudo o que era dado livremente. O segundo ataque é ousado e audacioso. Agora, em lugar de dúvida e decepção há negação, seguida de calúnia ao caráter de Deus: “Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis.” (3:4)

As palavras de advertência de Deus não eram para ser entendidas como promessa de castigo, mas como simples ameaça de uma divindade egocêntrica.

Podemos estranhar a negação categórica de Satanás, mas, em minha opinião, foi exatamente isto que enfraqueceu a oposição de Eva. Como alguém poderia estar errado se tinha tanta certeza? Hoje, meu amigo, muitos são convencidos mais pelo tom categórico de um professor do que pela honestidade doutrinária de seu ensinamento. Dogmatismo não é garantia de acuidade doutrinária.

O golpe fatal de Satanás está registrado no verso cinco: “Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal.” (3:5)

Muitos tentam determinar exatamente o que Satanás está oferecendo no verso cinco. “Se vos abrirão os olhos”, Satanás lhes assegura. Em outras palavras, eles estão vivendo num estado incompleto, inadequado. Mas, uma vez que o fruto fosse comido, entrariam num novo e mais alto nível de existência: se tornariam “como Deus”.55

Da forma como entendo a assertiva de Satanás, a afirmação é deliberadamente vaga e evasiva. Isto estimularia a curiosidade de Eva. Conhecer “o bem e o mal” pode ser conhecer tudo.56 Mas, como Eva poderia compreender os detalhes da oferta quando ela ainda não sabia o que era o “mal”.

Um de meus amigos me diz que as mulheres são, por natureza, mais curiosas que os homens. Não sei se é mesmo assim, mas sei que tenho uma curiosidade bem aguçada também. O mistério desta possibilidade de conhecer mais e viver nalgum plano superior certamente convida à especulação e consideração.

Encontrei no livro de Provérbios uma ilustração desta cena sobre a curiosidade humana:

“A loucura é mulher apaixonada, é ignorante, e não sabe cousa alguma. Assenta-se à porta de sua casa, nas alturas da cidade, toma uma cadeira, para dizer aos que passam e seguem direito o seu caminho: Quem é simples, volte-se para aqui. E aos faltos de senso diz: As águas roubadas são doces, e o pão comido às ocultas é agradável.” (Pv. 9:13-17)

A mulher tola é por si mesma ingênua e ignorante, embora atraia suas vítimas ao lhes oferecer uma nova experiência, e o fato de isso ser ilícito simplesmente aumenta o apelo (versos 16 e 17). Essa é a espécie de oferta que Satanás fez a Eva.

Satanás, creio eu, deixa Eva e seus pensamentos neste ponto. Sua semente destrutiva foi plantada. Embora ela ainda não tenha comido do fruto, já começou a cair. Ela entrou em diálogo com Satanás e agora está acalentando pensamentos blasfemos acerca do caráter de Deus. Ela está contemplando seriamente a desobediência. O pecado não é instantâneo, mas seqüencial (Tiago 1:13-15), e Eva está bem no seu caminho.

Repare que a árvore da vida não é nem mesmo mencionada ou considerada. As duas árvores estavam diante de Eva, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Aparentemente não foi uma escolha entre uma ou outra. Ela só viu o fruto proibido. Somente ele mostrou ser “bom para comer e agradável aos olhos” (verso 6), e, no entanto, em 2:9 é dito que todas as árvores tinham tais características em comum. Mas Eva só tinha olhos para o que era proibido. E esta árvore oferecia alguma qualidade misteriosa de vida que atraía a mulher.

Satanás mentiu descaradamente ao assegurar a Eva que ela não morreria, mas simplesmente falhou ao lhe dar uma boa impressão em sua promessa daquilo que o fruto proibido ofereceria. Tendo estudado a tal árvore por algum tempo (imagino), ela finalmente decidiu que os benefícios eram muito grandes e as conseqüências muito absurdas e, por isso, improváveis. Naquele momento ela pegou o fruto e o comeu.

Alguém pode balançar a cabeça diante da atitude de Eva, mas o estranho mesmo é que Adão, aparentemente sem hesitação, sucumbiu ao convite de Eva para compartilhar de sua desobediência. Moisés empregou 6 versos e 3/4 para descrever o engano e a desobediência de Eva, mas apenas uma parte de uma sentença para registrar a queda de Adão. Por que? Embora não seja tão categórico nesta possibilidade quanto já fui, duas palavras de Moisés poderiam nos dar a resposta: “com ela” (verso 6).

“Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido (que estava com ela), e ele comeu.” (Gênesis 3:6).

Seria possível que Eva não estivesse sozinha com a serpente?57 Poderia ser que Moisés, por estas duas palavras “com ela”, estivesse nos informando que Adão esteve presente durante todo o acontecimento, mas não abriu a boca? Se ele esteve lá, ouvindo cada palavra e assentindo com seu silêncio, então não é de se estranhar que ele simplesmente pegou o fruto e o comeu quando lhe foi oferecido por Eva.

É algo análogo a quando eu e minha esposa estamos sentados na sala de casa. Quando a campainha toca, minha esposa se levanta para atender, enquanto continuo assistindo ao meu programa de TV favorito. Posso ouvir ao longe minha esposa atendendo ao vendedor de aspiradores e escutar com crescente interesse seu plano de vendas. Não quero parar de assistir ao meu programa, assim deixo que a conversa continue, mesmo que minha esposa esteja fazendo um carnê. Se ela viesse à sala e me dissesse “Você tem que assinar aqui também”, não seria nenhum choque se eu assinasse sem protestar. Por falha minha permiti que minha esposa tomasse uma decisão e eu resolvi segui-la.

Se Adão não esteve presente durante todo o diálogo entre a serpente e sua esposa, alguém ainda poderia conceber como isso pôde ter acontecido. Eva, independentemente, poderia ter comido o fruto e então se apressado a contar a seu marido sobre sua experiência. Posso bem imaginar que Adão gostaria de saber duas coisas. Primeiro, ele gostaria de saber ela se sentia melhor – isto é, se o fruto tinha produzido algum efeito benéfico sobre ela. Segundo, ele gostaria de saber se teve algum efeito prejudicial. Afinal de contas, Deus tinha dito que morreriam naquele dia. Tivesse ela achado o fruto agradável e até agora não sentisse nenhum efeito maléfico, Adão certamente estaria inclinado a seguir o exemplo de sua esposa. Que trágico erro!

Os versos 7 e 8 são particularmente instrutivos, porque nos ensinam que o pecado tem suas conseqüências assim como seu castigo. Deus ainda não prescrevera qualquer castigo para o pecado de Adão e Eva, e mesmo assim as conseqüências já estavam inseparavelmente ligadas ao crime. As conseqüências do pecado aqui mencionadas são vergonha e separação.

A nudez que Adão e Eva compartilhavam sem culpa era agora a origem da vergonha. A doce inocência foi perdida para sempre. Lembre-se, não havia outro homem no jardim, só eles dois. Mas estavam com vergonha de encarar um ao outro sem roupa. Não só não podiam encarar um ao outro como o faziam antes, mas eles temiam encarar a Deus. Quando Ele veio para ter a doce comunhão com eles, esconderam-se de medo.

Deus tinha dito que, no dia em que comessem do fruto proibido, morreriam. Alguns se confundem com esta promessa de julgamento. Embora o processo de morte física começasse naquele dia fatídico, eles não morreram fisicamente. Vamos relembrar que a morte espiritual é a separação de Deus.

“Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder.” (II Ts. 1:9)

Não é de se surpreender que a morte física de Adão e Eva não ocorresse imediatamente, isto é, agora havia a separação de Deus. E esta separação não foi imposta por Deus, mas foi introduzida pelo próprio homem.

Preciso me desviar um pouco para dizer que a morte espiritual vivenciada por Adão e sua esposa é a mesma que ainda temos hoje. É a alienação do homem de Deus. E é isso que o homem prefere. É a sua escolha. Inferno é Deus dar aos homens as duas coisas – o que eles querem e o que eles merecem (cf. Ap. 16:5-6).

Deus Procura, Prova e Sentencia o Homem
(3:8-21)

A separação que Adão e Eva causaram é aquela que Deus procura preencher. Deus procurou pelo homem no jardim. Enquanto as perguntas de Satanás foram planejadas para causar a queda do homem, as perguntas de Deus buscam sua reconciliação e restauração.

Repare que nenhuma pergunta é feita à serpente. Não há intenção de restauração para Satanás. Sua condenação está selada. Tome nota também da ordem ou seqüência aqui. O homem caiu nesta ordem: serpente, Eva, Adão. Isto é o oposto da seqüência de comando dada por Deus. Enquanto Deus questionou por ordem de autoridade (Adão, Eva, cobra), Ele sentenciou pela ordem da queda (cobra, Eva, Adão). A queda foi, em parte, o resultado da reversão da ordem de Deus.

Adão é o primeiro a ser procurado por Deus com a pergunta: “Onde estás?” (verso 9). Adão relutantemente admitiu seu medo e vergonha, provavelmente esperando que Deus não o pressionasse nesse caso. Mas Deus sondou mais profundamente, procurando uma confissão do pecado: “Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore que te ordenei que não comesses?” (verso 11).

Jogando pelo menos uma parte da responsabilidade sobre o Criador, Adão desembuchou: “A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi.” (verso 12)

A implicação de Adão era que ambos, Eva e Deus, deviam partilhar da responsabilidade pela queda. Sua parte foi mencionada por último e com tão poucos detalhes quanto possível. E sempre será assim com aqueles que são culpados. Sempre encontramos circunstâncias atenuantes.

“Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o Senhor pesa o seu espírito.” (Pv. 16:2)

Então Eva é questionada: “Que é isso que fizeste?” (verso 13)

Sua resposta foi um pouco diferente (em essência) da resposta de seu marido: “A serpente me enganou e eu comi.” (verso 13)

Era verdade, é claro. A serpente a enganou (I Tm. 2:14) e ela comeu. A culpa de ambos, apesar do débil esforço feito para desculpar, ou, no mínimo, diminuir a responsabilidade humana, foi claramente estabelecida.

Creio que deva ser sempre assim. Antes do castigo poder ser aplicado, o delito deve ser comprovado e admitido. De outra forma o castigo não terá seu efeito corretivo sobre o culpado. As penalidades agora são prescritas por Deus, dadas na seqüência dos acontecimentos da queda.

A Serpente Sentenciada (versos 14-15)

A serpente é a primeira a quem Deus se dirige e estabelece o castigo. A criatura, como um instrumento de Satanás, é amaldiçoada e sujeita a uma existência de humilhação, rastejando-se no pó (verso 14).

O verso 15 se dirige à serpente por trás da serpente, Satanás, o dragão mortífero: “E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo…” (Ap. 12:9)

Haverá, antes de mais nada, uma hostilidade pessoal entre Eva e a serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher” (verso 15).

Tal inimizade é fácil de se compreender. Mas esta oposição se ampliará: “entre a sua descendência e o seu descendente” (verso 15)

Aqui, creio que Deus se refere à luta através dos séculos entre o povo de Deus e os seguidores do diabo (cf. Jo. 8:44 e ss).

Finalmente, há o confronto pessoal entre o descendente de Eva58, o Messias, e Satanás. “Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (verso 15)

Neste confronto Satanás será mortalmente ferido, enquanto que o Messias receberá um golpe doloroso, mas não fatal.

Como esta profecia retrata lindamente a vinda do Salvador, Aquele que reverterá os acontecimentos da queda. Foi sobre isso que Paulo escreveu retrospectivamente no quinto capítulo de Romanos:

“Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir. Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos. O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação. Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo.”

Apesar da profecia do verso 15 ser um tanto velada, ela se torna mais e mais evidente à luz da revelação subseqüente. É um tanto surpreendente, então, saber que os judeus, de acordo com o Targum, consideraram esta passagem como Messiânica.59

O Castigo da Mulher (verso 16)

Desde que Satanás atacou a raça humana através da mulher é apropriado, portanto, que Deus traga a salvação do homem e a destruição de Satanás através dela. Isto já foi revelado à Satanás no verso 15. Cada criança carregada pela mulher deve ter atormentado Satanás.

Ainda que a salvação viesse através do nascimento de uma criança, isso não seria um processo indolor. A sentença da mulher chega ao centro de sua existência. Trata do nascimento de seus filhos. Mas em meio às dores do trabalho de parto ela poderia saber que o propósito de Deus para ela estava sendo cumprido, e que, talvez, o Messias, nascesse através dela.

Somado às dores do trabalho de parto, o relacionamento da mulher com seu marido também foi prescrito. Adão deveria liderar e Eva deveria seguir. Mas tal não foi o caso na queda. Então, desta vez as mulheres seriam governadas pelos homens: “o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará.” (verso 16)

Muitas coisas podem ser ditas a respeito desta maldição. Antes de mais nada, é algo que é para todas as mulheres, não apenas para Eva. Da mesma forma que todas as mulheres devem partilhar as dores de parto, assim também devem estar sujeitas à autoridade de seus maridos. Isto, de forma nenhuma, implica em alguma inferioridade por parte das mulheres. Nem justifica a restrição de votos ou recusa de equivalência salarial e assim por diante.

Para aqueles que se recusam a se submeter ao ensinamento bíblico concernente ao papel da mulher na igreja – que as mulheres não devem liderar ou ensinar aos homens, e mesmo não falar publicamente (I Co. 14:33b-36; I Tm. 2:9-15) – deixe-me dizer isto: o papel da mulher na igreja e no casamento não é restrito ao ensinamento de Paulo, nem é para ser visto como apenas relacionado ao contexto imoral de Corinto. É uma doutrina bíblica, que tem origem no terceiro capítulo de Gênesis. Essa é a razão pela qual Paulo escreveu:

“… conservem-se as mulheres caladas na igreja, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina.” (I Co. 14:34)

Para aqueles homens e mulheres que desejam desprezar a instrução de Deus, devo dizer que isso é precisamente o que Satanás deseja. Da mesma forma que ele atraiu a atenção de Eva para a restrição daquela única árvore, ele quer que as mulheres ponderem sobre as restrições impostas a elas hoje – “Livre-se de suas algemas”, ele incita, “Encontre sua auto-satisfação”, “Deus está privando você daquilo que é melhor”, ele sussurra. Isso é mentira! Os mandamentos de Deus têm razão, quer os compreendamos ou não.

Para os homens, apresso-me a acrescentar que este versículo (e o ensinamento bíblico sobre o papel das mulheres) não é um texto para provar a superioridade masculina ou alguma espécie de ditadura no casamento. Somos conduzidos pelo amor. Nossa liderança é para ser exercida com nosso próprio sacrifício pessoal, procurando o que é melhor para nossa esposa (Ef. 5:25 e ss). Liderança bíblica é aquela que segue o exemplo de nosso Senhor (cf. Fp. 2:1-8).

O Castigo do Homem (versos 17 a 20)

Da mesma forma que o castigo de Eva se relaciona ao centro de sua vida, assim também é o caso com Adão. Ele tinha sido colocado no jardim, mas agora terá que obter seu sustento do solo “pelo suor de sua fronte” (versos 17 a 19).

Você notará que, embora a serpente tenha sido amaldiçoada, aqui somente a terra é amaldiçoada e não Adão e Eva. Deus amaldiçoou Satanás porque Ele não pretendia reabilitá-lo ou redimi-lo. Mas o propósito de Deus em salvar o homem já tinha sido revelado (verso 15).

Adão não somente terá que lavrar o solo para obter seu sustento, mas ele finalmente retornará ao pó. A morte espiritual já aconteceu (cf. versos 7 e 8). A morte física começou. Distante da vida que Deus dá, o homem simplesmente (embora lentamente) retorna ao seu estado original – pó (cf. 2:7).

A reação de Adão ao castigo de Deus é revelada no verso 20 “E deu o nome de Eva a sua mulher, por ser a mãe de todos os seres humanos.”

Creio que essa atitude evidencia uma fé singela por parte de Adão. Ele aceitou sua culpa e castigo, mas concentrou-se na promessa de Deus de que o Salvador viria através da descendência da mulher. A salvação de Eva (e a nossa também!) viria através de sua sujeição a seu marido e do nascimento dos filhos. O nome que Adão deu à mulher, Eva, que significa “viva” ou “vida”, mostrava que a vida viria através de Eva.

Deus não é apenas um Deus de castigo, mas de graciosa provisão. Assim, Ele fez para Adão e sua esposa roupas de peles de animais para cobrir sua nudez. Em minha opinião, a profecia da redenção através do derramamento de sangue implícita nesse versículo, não é um abuso.

A Dura Misericórdia
(3:22-24)

De maneira estranha a promessa de Satanás tornou-se verdadeira. Em certo sentido, Adão e Eva tinham se tornado como Deus no conhecimento do bem e do mal (verso 22). Ambos, o homem e Deus, conheciam o bem e o mal, mas de formas completamente diferentes.

Talvez a diferença possa ser melhor ilustrada desta maneira. Um médico pode conhecer o câncer em virtude de sua educação e experiência como médico. Isto é, ele tem lido e ouvido conferências a respeito de câncer, e o tem visto em seus pacientes. Um paciente, também, pode conhecer o câncer, mas como sua vítima. Enquanto ambos conhecem o que é o câncer, o paciente desejaria jamais ter ouvido falar sobre ele. Tal é o conhecimento que Adão e Eva vieram a possuir.

Deus prometeu que a salvação viria na época do nascimento do Messias, que destruiria Satanás. Adão e Eva poderiam ficar tentados a obter a vida eterna comendo do fruto da árvore da vida. Eles escolheram o conhecimento ao invés da vida. Agora, como os Israelitas tardiamente tentaram possuir Canaã (Nm. 14:39-45), assim o homem caído poderia tentar ganhar a vida através da árvore da vida no jardim.

Parecia que, se Adão e Eva tivessem comido da árvore da vida eles teriam vivido para sempre (verso 22). Esta é a razão pela qual Deus os lançou prá fora do jardim (verso 23). No verso 24 o “lançados prá fora” dos dois é chamado mais dramaticamente de “expulsos”. Colocados à entrada do jardim estão os querubins e a espada flamejante.

“Que cruel e rigoroso”, alguns seriam tentados a protestar. Num jargão legal atual, provavelmente seria chamado de “um castigo incomum e cruel”. Mas, pense por um instante antes de falar precipitadamente. O que teria acontecido se Deus não tivesse expulso este casal do jardim e proibido seu retorno? Posso responder com apenas uma palavra – INFERNO. O inferno está dando aos homens as duas coisas – o que eles querem e o que merecem (Ap. 16:6) para sempre. O inferno é passar a eternidade em pecado, separado de Deus.

“Estes sofrerão penalidade eterna de destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder.” (I Ts. 1:9)

Deus foi misericordioso e gracioso ao colocar Adão e Eva prá fora do jardim. Ele os guardou do castigo eterno. Sua salvação não viria instantaneamente, mas no tempo certo; não com facilidade, mas através da dor – mas viria. Eles deveriam confiar Nele para alcançá-la.

Conclusão

Não posso evitar, mas lembro-me das palavras de Paulo quando leio este capítulo “Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus.” (Rm. 11:22)

Há pecado, e há julgamento. Mas o capítulo está entrelaçado com graça. Deus buscou os pecadores. Ele os sentenciou também, mas com a promessa da salvação por vir. E guardou-os do inferno na terra; Ele lhes providenciou vestimentas para o tempo e completa redenção no tempo. Que Salvador!

Antes de concentramos nossa atenção na aplicação deste capítulo às nossas próprias vidas, consideremos por um instante o que esta passagem queria dizer ao povo nos dias de Moisés. Eles já tinham sido levados prá fora do Egito e a Lei já tinha sido dada. Eles ainda não tinham entrado na terra prometida.

O propósito dos livros de Moisés (os quais incluem Gênesis) é dado em Deuteronômio capítulo 31:

“Tendo Moisés acabado de escrever, integralmente, as palavras desta lei num livro, deu ordem aos levitas que levavam a Arca da Aliança do Senhor, dizendo: tomai este livro da lei e ponde-o ao lado da Arca da Aliança do Senhor, vosso Deus, para que ali esteja por testemunho contra ti. Porque conheço a tua rebeldia e a tua dura cerviz. Pois, se vivendo eu, ainda hoje, convosco, sois rebeldes contra o Senhor, quanto mais depois da minha morte? Ajuntai perante mim todos os anciãos das vossas tribos e vossos oficiais, para que eu fale aos seus ouvidos estas palavras, e contra eles, por testemunhas, tomarei os céus e a terra. Porque sei que, depois da minha morte, por certo, procedereis corruptamente e vos desviareis do caminho que vos tenho ordenado; então, este mal vos alcançará nos últimos dias, porque fareis mal perante o Senhor, provocando-o à ira com as obras das vossas mãos.” (Dt. 31:24-29)

Em muitos aspectos o Éden foi um tipo da terra prometida e Canaã um antítipo. Canaã, como o Paraíso, foi um lugar de beleza e abundância, uma “terra que mana leite e mel” (cf. Dt. 31:20). Israel experimentaria bênção e prosperidade enquanto fosse obediente à Palavra de Deus (Dt. 28:1-14). Se a lei de Deus fosse deixada de lado, experimentaria dureza, derrota, pobreza e seria levado prá fora da terra (28:15-68). Assim, Canaã foi uma oportunidade para Israel experimentar, em certo grau, as bênçãos do Éden. Aqui, como no Éden, o povo de Deus estava diante uma decisão a tomar: “Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal.” (Dt. 30:15).

Gênesis capítulo três está bem longe de ser meramente uma história ou história acadêmica. Foi uma palavra de advertência. O que aconteceu no Éden ocorreria novamente em Canaã (cf. Dt. 31:16 e ss). Eles seriam tentados a desobedecer, assim como o foram Adão e Eva. Sérias considerações deste capítulo e suas implicações eram essenciais ao futuro de Israel.

O capítulo é também claramente profético, pois Israel desobedeceu e escolheu o caminho da morte, como o primeiro casal no jardim. Como Adão e Eva foram lançados prá fora do jardim, Israel foi colocado prá fora da terra prometida. Mas há esperança também, pois Deus prometeu um Redentor, que nasceria da mulher (Gn. 3:15). Deus disciplinaria Israel e o traria de volta à terra (Dt. 30:1 e ss). Mesmo então Israel não seria fiel a seu Deus. Eles deviam olhar para a restauração final e definitiva que o Messias de Gênesis 3:15 traria. A história de Israel, então, está resumida em Gênesis 3.

Há muitas aplicações para nós. Não devemos ser ignorantes quanto às estratégias de Satanás (II Co. 2:11). O estilo de sua tentação é repetido no testemunho de nosso Senhor no deserto (Mt. 4:1-11; Lc. 4:1-2). E assim ele continuará a nos tentar.

Gênesis capítulo três é essencial aos cristãos de hoje porque ele sozinho define as coisas como elas são. Nosso mundo é uma mistura de ambos – beleza e crueldade, de encanto e de feiúra. A beleza remanescente é evidência da bondade e grandeza do Deus que criou todas as coisas (cf. Rm. 1:18 e ss). A feiúra é a evidência da pecaminosidade do homem (Rm. 8:18-25).

Do que posso dizer, o presente estado da criação de Deus foi um dos elementos cruciais na mudança de Darwin da ortodoxia à dúvida e negação. Ele não levou em conta a organização da criação e disse a si mesmo: “Oh, isto deve ter ocorrido por acaso”. Pelo contrário, ele olhou a crueldade e a feiúra e concluiu “Como poderia um Deus amoroso e Todo-Poderoso ser responsável por isto?” A resposta, é claro, é encontrada neste texto de Gênesis capítulo três: o pecado do homem virou a criação de Deus às avessas.

A única solução, pois, é Deus fazer algo para trazer redenção e restauração. Isto foi realizado em Jesus Cristo. O castigo pelos pecados do homem foi suportado por Ele. As conseqüências dos pecados de Adão não precisam nos destruir. A escolha com que somos confrontados é esta: Desejamos estar unidos com o primeiro Adão ou com o último? No primeiro fomos feitos pecadores e sujeitos à morte física e espiritual. No último nos tornamos novas criaturas, com vida eterna (física e espiritual). Deus não colocou duas árvores diante de nós, mas dois homens: Adão e Cristo. Devemos decidir com quem nos identificaremos. Num dos dois repousa nosso futuro eterno.

Há também muito a ser aprendido sobre o pecado. Essencialmente, pecado é desobediência. Repare que o pecado inicial não parecia muito sério. Podia-se pensar que fosse uma coisa trivial. A gravidade do pecado pode ser vista em dois fatos significativos, que estão claros no nosso texto.

Primeiro, o pecado é sério por causa de suas raízes. O comer do fruto proibido não foi a essência do pecado, mas simplesmente sua expressão. Não é a origem do pecado, mas seu símbolo. O partilhar daquele fruto é semelhante ao compartilhar dos elementos, pão e vinho, da mesa do Senhor, isto é, um ato que expressa algo muito mais grave e profundo. Assim, a raiz do pecado de Adão e Eva foi a rebelião, incredulidade e ingratidão. Seu ato foi uma escolha deliberada em desobedecer uma instrução clara de Deus. A recusa em aceitar com gratidão as coisas boas como provenientes de Deus e a única proibição como sendo boa também. Pior de tudo, eles viram a Deus como sendo mal, miserável e perigoso, como Satanás O retratou.

Segundo, o pecado é sério por causa dos seus frutos. Adão e Eva não experimentaram uma forma superior de existência, mas vergonha e culpa. Isso não lhes proporcionou mais prazer, mas estragou o que antes experimentavam sem vergonha. Pior ainda, causou a queda de toda a raça humana. Os primeiros efeitos da queda são vistos no restante da Bíblia. Vemos as conseqüências daquele pecado ainda hoje, em nossas vidas e em nossa sociedade. A conseqüência do pecado é o julgamento. Esse julgamento é agora e no futuro (cf. Rm. 1:26-27).

Deixe-me lhe dizer, meu amigo, que Satanás sempre enfatiza os prazeres presentes do pecado enquanto mantém nossa mente afastada de suas conseqüências. O pecado nunca é sem preço. É como andar na State Fair: o trajeto é pequeno mas o preço é alto – incrivelmente alto.

Mas, não vamos nos concentrar nos pecados de Adão e Eva. Não ficaríamos nem um pouco chocados ao compreender que as tentações para os homens hoje são as mesmas que no jardim. E os pecados também são os mesmos.

A Avenida Madison tem sido a causa de um grande mal. As propagandas nos levam a esquecer as muitas bênçãos que temos e a nos concentrar naquilo que não possuímos. Elas sugerem que a vida não pode ser completamente aproveitada sem algum produto. Por exemplo, dizem “Coca-Cola dá vida”. Não, não dá, simplesmente estraga seus dentes. E então somos persuadidos a não considerar o custo ou as conseqüências de agradarmos a nós mesmos com mais esta coisa tão necessária. A gente “põe no Cartão”.

Desconfio que um ligeiro sorriso esteja se formando em seu rosto. Você pode achar que eu esteja me afastando do assunto. Pense no que o Apóstolo Paulo nos diz acerca do significado das verdades do Velho Testamento para nossa presente situação:

“Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem, como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual, e beberam da mesma fonte espiritual, porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão porque ficaram prostrados no deserto. Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram.” (I Co. 10:1-6)

O que afastou Adão e Eva de sua bênção eterna foi seu desejo de ter prazer à custa de incredulidade e desobediência. Tal, Paulo escreve, também foi o caso com Israel (I Co. 10:1-5). Enfrentamos as mesmas tentações hoje, mas Deus nos tem dado meios suficientes para termos vitória. Quais são estes meios?

(1) Devemos compreender que as negativas (não fazer, proibições) vêm das mãos de um Deus bom e amoroso.

“Nenhum bem sonega aos que andam retamente.” (Sl. 84:11)

(2) Devemos perceber que as negativas são um teste da nossa fé e obediência:

“Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor, disso viverá o homem. Nunca envelheceu a tua veste sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Sabe, pois, no teu coração que, como um homem disciplina a seu filho, assim te disciplina o Senhor teu Deus.” (Dt. 8:2-5)

Não fazer não é Deus deixar de nos abençoar, mas nos preparar para:

“Pela fé Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus, a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão.” (Hb. 11:24-26, cf. Dt. 8:6 e ss).

(3) Quando somos afastados daquelas coisas que pensamos que queremos devemos ser cuidadosos em não pensar no que é negado, mas no que nos é dado graciosamente, e por Quem. Então devemos fazer o que sabemos ser a vontade de Deus.

“Antes, como te ordenou o Senhor teu Deus, destrui-las-á totalmente: aos heteus, aos amorreus, Aos cananeus, aos ferezeus, aos heveus, e aos jebuseus, para que não vos ensinem a fazer segundo todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, pois pecaríeis contra o Senhor vosso Deus.” (Dt. 20:17-18)

“Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus. Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento. O que aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus da paz será convosco.” (Fp. 4:6-9)

Quase que diariamente nos encontramos repetindo os pecados de Adão e Eva. Pensamos no que não podemos ter. Começamos a desconfiar da bondade de Deus e de Sua graciosidade para conosco. Preocupamo-nos com coisas que realmente não têm importância. E, com freqüência, em incredulidade, tomamos o assunto em nossas próprias mãos.

Muitas vezes encontro cristãos contemplando seriamente o pecado, sabendo que é errado e percebendo que haverá conseqüências, mas supondo tolamente que o prazer do pecado é maior do que seu preço. Quanto engano! Esse foi o erro de Adão e Eva.

Possa Deus nos capacitar a louvá-lO por aquelas coisas que Ele proíbe e confiar Nele por aquelas coisas que precisamos e que Ele promete prover.


54 Gosto do jeito como Helmut Thielicke coloca isto:

“A abertura deste diálogo é perfeitamente religiosa, e a serpente se apresenta como um animal muito sério e religioso. Ele não diz: “Sou um monstro ateu e agora vou tirar seu paraíso, sua inocência e sua lealdade, e virar tudo de cabeça prá baixo.” Pelo contrário, ele diz: “Filhos, hoje vamos conversar sobre religião, vamos discutir sobre coisas atuais.” Como começou o mundo (Philadelphia: Fortress Press, 1961), p. 124.

55 Alguns indicam que “Deus” (“como Deus”) no verso 5, é o nome Elohim, que é plural. Sugerem que devemos traduzi-lo por “serão como deuses”. Tal possibilidade, enquanto gramaticalmente permissível, não parece digna de consideração. A mesma palavra (Elohim) é encontrada na primeira parte do verso 5, onde se refere a Deus.

56 No que diz respeito ao conhecimento do bem e do mal, deve-se lembrar que o hebraico yd’ (conhecer) não significa simplesmente conhecimento intelectual, mas num sentido mais amplo uma “experiência”, um “tornar-se íntimo de”, ou mesmo uma “habilidade”. “Conhecer, no mundo antigo, é também sempre ser capaz” (Wellhausen). E, segundo, “bem e mal” não podem ser limitados apenas ao reino moral. “Falar nem bem nem mal” significa não dizer nada (Gn. 31:24, 29; II Sm. 13:22); fazer nem bem nem mal significa não fazer nada (Sf. 1:12); conhecer nem bem nem mal (dito de crianças ou idosos) significa não entender nada (ainda) ou (mais nada) (Dt. 1:39; II Sm. 19:35) “Bem e mal” é então uma maneira formal de se dizer o que queremos dizer com nosso descolorido “tudo”; e aqui também deve-se tomar seu significado em todos os sentidos” . Gehard Von Rad, Genesis (Philadelphia: Westminster Press, 1961), pp. 86-87.

57 “Ela partiu o fruto, deu a seu marido e ele também comeu. Alguém poderia perguntar: Onde esteve Adão todo o tempo? A Bíblia não nos diz. Presumimos que estivesse presente, porque ela lhe deu o fruto: “seu marido estava com ela”. Nada mais podemos dizer pela simples razão de que a Bíblia não diz mais nada.” E. J. Young, In the Beginning (Carslile, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1976), p. 102

58 A palavra descendente (zera) pode ser usada tanto coletivamente quanto individualmente (cf. Gn. 4:25, I Sm. 1:11, II Sm. 7:12). Aqui em Gn. 3:15 é usada em ambos os sentidos, creio eu. Kidner afirma: “os últimos, como a descendência de Abraão, é coletivo (cf. Rm. 6:20) e, na batalha crucial, individual (cf. Gl. 3:16), uma vez que Jesus como o último Adão, resumiu a raça humana em Si mesmo.” Derek Kidner, Genesis (Chicago: Inter-Varsity Press, 1967), p. 71.

59 H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 170.

O Significado do Homem: Seu Dever e Seu Deleite (Gênesis 1:36-31, 2:4-25)

Study By: Bob Deffinbaugh

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Introdução

Durante várias semanas um caso um tanto assustador foi noticiado nos jornais. Suas implicações são quase inacreditáveis. O processo envolvia um senhor idoso que estava, aparentemente, um pouco senil, e que também fazia diálise. A família decidiu que o período de produtividade do velho senhor já tinha passado e que, se ele tivesse capacidade mental para raciocinar corretamente, teria desejado dar cabo de sua existência miserável. Hoje este homem poderia estar morto, se as enfermeiras que tinham se afeiçoado a ele, não tivessem protestado.

Vivemos numa época assustadora. Temos poderes tecnológicos e biológicos espantosos em nossas mãos, mas nenhuma base sólida ética ou moral para determinar como esses poderes devem ser usados. Não os usamos somente de forma conveniente e econômica para matar crianças ainda no ventre de suas mães, há, de fato também, sérias discussões a respeito da emissão de uma certidão de vida que declararia um bebê legalmente vivo, da mesma forma que há uma certidão de óbito para um bebê que está legalmente morto. Esta certidão não seria emitida até depois do nascimento da criança, quando uma bateria de testes poderia ser feita. Qualquer bebê “inferior”, ou potencialmente não produtivo, seria simplesmente rejeitado e não declarado “vivo” e assim descartado. Dizem que em alguns lugares do mundo o suicídio não é considerado crime e são dados conselhos para aqueles que desejam cometê-lo – mas não para convencê-los do erro de seus caminhos!

Nos dias em que o poder sobre a vida e a morte parece estar nas mãos dos homens como jamais esteve, encontramos nossa sociedade num vácuo moral no qual são tomadas essas decisões sobre a vida e a morte. As antigas questões filosóficas sobre o significado da vida não são mais simplesmente acadêmicas e intelectuais – são muito práticas e precisam ser respondidas.

À luz de tais coisas, jamais esses versos de Gênesis um e dois foram tão importantes quanto agora. Neles encontramos o significado do homem. Intitulei, então, esta mensagem “O Significado do Homem: Seu Dever e Seu Deleite”. Para entender corretamente esta passagem é preciso compreender os princípios eternos que devem determinar nossas decisões éticas e morais. Além disso, somos relembrados do que realmente faz nossas vidas valer a pena.

Ainda que já tenhamos tratado dos seis dias da criação de uma maneira geral, é importante entender a relação entre os três primeiros capítulos de Gênesis. O capítulo um resume a criação cronologicamente (de fato, os versos 1 a 3 do capítulo dois também devem ser inseridos aqui).

Deus criou os céus e a terra, e toda a vida em seis dias, enquanto no sétimo Ele descansou. O homem é descrito como a coroa da criação de Deus. Para manter um formato cronológico, apenas uma descrição geral da criação do homem é dada nos versos 26 a 31.

O capítulo dois retorna ao assunto da criação do homem com um relato muito mais detalhado. Longe de contradizer o capítulo um, como muitos estudiosos sugerem, ele largamente o complementa. Enquanto no capítulo um é afirmado que Deus criou o homem, homem e mulher (1:26-27), isso é descrito mais amplamente no capítulo dois. No capítulo um todas as plantas são dadas ao homem para mantimento (1:29-30), no capítulo dois o homem é colocado num adorável jardim (2:8-17). No capítulo um é dito ao homem para dominar sobre todas as criaturas de Deus (1:26-28), no segundo é dada ao homem a tarefa de dar nomes às criaturas de Deus (2:19-20). Contradições entre esses dois capítulos só podem ser inventadas, pois fica claro que o escritor do primeiro capítulo pretendia completar os detalhes no segundo.

Além do mais, o capítulo dois serve como introdução para o relato da queda no capítulo três. O capítulo dois nos dá o contexto para a queda do homem que é descrita no capítulo três. O jardim e as duas árvores, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal (2:9) nos são apresentados. A mulher que estava para ser enganada também é apresentada no capítulo dois. Sem o capítulo dois o primeiro capítulo seria muito breve e distante e o terceiro chegaria até nós sem preparação.

Se o capítulo um está disposto em ordem cronológica – que está numa seqüência de sete dias, o capítulo dois não é cronológico, mas lógico. Claro que os eventos do capítulo dois se encaixam na ordem do capítulo um, mas o capítulo é mostrado de forma diferente. Se no capítulo um a criação é vista sob o ângulo de uma lente objetiva, o capítulo dois é visto sob o ângulo de uma lente teleobjetiva. No capítulo um o homem é encontrado no topo de uma pirâmide, como o coloca a atividade criativa de Deus. No capítulo dois o homem está no centro do círculo da atividade e interesse de Deus.

A Dignidade do Homem
(1:26:31)

Desde que o capítulo dois é construído sobre os detalhes básicos de 1:26-31, vamos começar por consi-derar esses versos mais cuidadosamente. O homem, como dissemos anteriormente, é a coroa do programa criativo de Deus. Isto fica evidente em muitos pormenores.

Primeiro, o homem é a última das criaturas de Deus. Todo o relato é montado para a criação do homem. Segundo, só o homem é criado à imagem de Deus. Enquanto há considerável discussão do que isso significa, muitas coisas estão implícitas no próprio texto. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus em sua sexualidade.

“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn. 1:27)

Isso não quer dizer que Deus seja homem ou mulher, mas que Deus é ambos unidade e diversidade. O homem e a mulher no casamento se tornam um e ainda assim são distintos um do outro. Unidade na diversidade como refletida na relação do homem com sua mulher reflete uma faceta da personalidade de Deus.

Também, o homem, de alguma forma, é parecido com Deus naquilo que o distingue do mundo animal. O homem, enquanto distinto dos animais, é feito à imagem e semelhança de Deus. O que distingue o homem dos animais deve então ser uma parte de seu reflexo de Deus. A habilidade do homem de raciocinar, de se comunicar e de tomar decisões morais deve ser uma parte dessa distinção.

Ainda mais, o homem reflete a Deus no fato de que ele domina sobre a criação de Deus. Deus é o Dirigente Soberano do universo. Ele delegou uma pequena porção de Sua autoridade ao homem no domínio da criação. Nesse sentido, também, o homem reflete a Deus.

Repare também que é o homem e a mulher que dominam: “… dominem eles…” (Gn. 1:26, cf. v. 28).

Eles se refere ao homem e a mulher, não somente aos homens que Ele fez. Enquanto que Adão tem a função de liderar (como evidenciado em sua prioridade na criação36, seu ser a origem de sua esposa 37, e a nomeação de Eva38), a função de Eva era ser a auxiliadora de seu marido. Nesse sentido ambos estão no domínio da criação de Deus.

Mais um ponto deve ser destacado. Parece haver pouca dúvida de que na provisão que Deus deu ao homem para mantimento, só alimentos vegetarianos foram incluídos nessa época.

“E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento. E a todos os animais da terra, e todas as aves dos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez.” (Gn. 1:29-30)

Não foi até depois da queda, e talvez depois do dilúvio, que a carne foi dada como alimento ao homem (cf. Gn. 9:3-4). Derramar sangue só teria sentido depois da queda, como retrato da redenção que viria através do sangue de Cristo. No Milênio diremos:

“O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pós será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu Santo Monte, diz o Senhor.” (Is. 65:25).

Se compreendo corretamente as Escrituras, o Milênio será o retorno das coisas ao que eram antes da queda. Assim, no paraíso do Éden, Adão e Eva e o reino animal foram todos vegetarianos. Como, então, pode alguém falar de “sobrevivência do mais forte” até depois da criação de todas as coisas e da queda do homem?

Mas, mais importante que isso é o fato de que a dignidade e o valor do homem não são imputados por ele mesmo, mas são intrínsecos a ele como aquele que foi criado à imagem de Deus. O valor do homem está diretamente relacionado à sua origem. Não é de se admirar que hoje estejamos ouvindo tais propostas éticas e morais assustadoras.

Qualquer opinião a respeito da origem do homem que não o veja como produto do projeto e desígnio divino, não pode atribuir a ele o valor que Deus lhe dá. Para colocar de outra forma, nossa avaliação do homem é diretamente proporcional à nossa opinião a respeito de Deus.

Não sou profeta, meu amigo, mas me arrisco a dizer que nós, que somos chamados pelo nome de Cristo, vamos ter que nos levantar e ser contados nos dias por vir. Aborto, eutanásia e bioética, para citar apenas alguns poucos assuntos, estão exigindo padrões éticos e morais. O sólido princípio sobre o qual tais decisões devem ser tomadas, em minha opinião, é o fato de que todos os homens são criados à imagem de Deus.

Sob essa luz, agora posso ver porque nosso Senhor pôde resumir todo o Velho Testamento em dois mandamentos:

“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mt. 22:37-40)

A atitude do futuro parece ser amar apenas aqueles “próximos” que são contribuidores na sociedade, apenas aqueles que podem ser considerados vantajosos. Quão diferente é o sistema de valores de nosso Deus, que disse:

“O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mt. 25:40).

Em minha opinião, eis onde nós cristãos seremos colocados à prova. Alguns estão fortemente sugerindo que, aqueles que nosso Senhor chamou de “pequeninos”, são justamente aqueles que devem ser eliminados da sociedade. Possa Deus nos ajudar a ver que a dignidade do homem é aquela que é divinamente determinada.

O Dever do Homem
(2:4-17)

Enquanto Gênesis um descreve a progressão do caos para o cosmos, ou da desordem para a ordem, o capítulo dois segue um padrão diferente. Talvez a linha literária que permeie toda a passagem seja aquela da atividade criativa de Deus em complemento àquelas coisas que estão ausentes.

O verso 4 serve como introdução aos versos restantes 39. O verso 5 nos informa quais são as ausências que são supridas nos versos 6 e 7: sem arbusto, sem planta, sem chuva e sem o homem. Estas são preenchidas pela neblina (verso 6), pelos rios (versos 10 e 14), o homem (verso 7), e o jardim (versos 8 e 9).

A ausência dos versos 18 a 25 é simplesmente afirmada “nenhuma auxiliadora idônea para Adão” (cf. versos 18, 20). Esta auxiliadora é providenciada de uma linda maneira na parte final do capítulo dois.

Outra vez, deixe-me enfatizar que Moisés não pretendia nos dar aqui uma ordem cronológica dos eventos, mas uma ordem lógica.40 Seu propósito é mais especificamente descrito na criação do homem, de sua esposa, e o contexto no qual eles são colocados. Estes se tornam o fator chave na queda que ocorre no capítulo três.

Embora até agora não houvesse chovido, Deus providenciava a água que era necessária à vida das plantas. “Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo.” (Gn. 2:6).

Há alguma discussão a respeito da palavra “neblina”. Poderia significar uma névoa ou neblina, como alguns afirmam.41 A Septuaginta usou a palavra grega pe,,ge,,, que significa “fonte”. Alguns entendem a palavra hebraica como sendo derivada de uma palavra suméria, se referindo a águas subterrâneas.42 Pode ser que fontes fluíssem para fora do solo e que a vegetação talvez fosse regada por irrigação ou canais. Isto poderia explicar, em parte, o trabalho de Adão na manutenção do jardim.

A água sendo suprida, Deus criou o jardim, que seria o lugar da morada do homem, e objeto de sua atenção. Era bem suprido com muitas árvores que proviam beleza e comida.

“Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” (Gênesis 2:9).

Especificamente duas árvores são mencionadas, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal.

Esta última árvore foi a única coisa proibida ao homem.

“E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás,” (Gênesis 2:16-17).

É interessante que, aparentemente, só para Adão é dito por Deus que o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal não devia ser comido. Alguém pode conjecturar em como a ordem de Deus para Adão foi comunicada a Eva. Poderia isto explicar a avaliação imprecisa de Eva em 3:2-3?

O homem foi colocado dentro desse paraíso43. Apesar de certamente se regozijar nesse país das maravi-lhas, ele também estava lá para cultivá-lo. Olhe outra vez o verso 5:

“Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo.” (Gn. 2:5)

Quando colocado no jardim, Adão teve que trabalhar lá: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.” (Gn. 2:15)

A criação de Adão é descrita mais amplamente em 2:7 do que no capítulo um. Ele foi formado44 do pó da terra. Ainda que isso seja um fato humilhante, é óbvio também que a origem do homem não é do mundo animal, nem o homem é criado da mesma maneira que os animais. Em parte, a dignidade de Adão provém do fato de que seu fôlego de vida foi soprado por Deus (verso 7).

Este não foi jardim mítico. Todas as partes da descrição deste paraíso nos levam a entender que foi um jardim real numa localização geográfica especial. São dados pontos de referência específicos. Quatro rios são nomeados, dois dos quais são conhecidos ainda hoje. Não deveríamos nos surpreender que pudessem ter ocorrido mudanças, especialmente depois do evento cataclísmico do dilúvio, o que tornaria impossível sua localização precisa.

O que acho mais interessante é que o paraíso do Éden foi um lugar um pouco diferente daquilo que visua-lizamos hoje. Prá começar, foi um lugar de trabalho. Os homens hoje pensam no paraíso como uma rede pendurada entre dois coqueiros numa ilha deserta, onde o trabalho nunca mais será encarado. Além do mais, o céu é tido como o fim de todas as proibições. O céu freqüentemente é confundido com hedonismo. É puro egocentrismo e auto-safisfação. Enquanto que o estado de Adão foi de beleza e felicidade, não se pode pensar que foi de prazer irrestrito. O fruto proibido também era uma parte do Paraíso. O céu não é experimentar todos os desejos, mas a satisfação de desejos benéficos e sadios.

A subserviência não é um conceito novo no Novo Testamento. Serviço significativo dá satisfação e significado à vida. Deus descreve Israel como um jardim cultivado, uma vinha (Isaías 5:1-2 ss). Jesus falou de si mesmo como uma Videira e nós como os ramos. O Pai ternamente cuida de Sua vinha (João 15:1 e ss). Paulo descreve o ministério como o trabalho de um lavrador (II Timóteo 2:6).

Ainda que a igreja do Novo Testamento possa ser melhor descrita como um rebanho, ainda assim a ima-gem do jardim não é inapropriada. Há um trabalho a ser feito pelo filho de Deus. E esse trabalho não é penoso, nenhum dever a ser relutantemente cumprido. É uma fonte de alegria e satisfação. Hoje muitos não têm senso real de sentido e propósito porque não estão fazendo o trabalho que Deus designou para que façam.

O Deleite do Homem
(2:18-25)

Ainda resta uma ausência. Agora há água adequada, a bela e generosa provisão do jardim, e o homem para cultivá-lo. Mas ainda não há uma companhia apropriada para o homem. Esta necessidade é encontrada nos versos 18 a 25.

O jardim, com seus prazeres e provisões para alimento e atividade significativa não era suficiente a menos que os deleites pudessem ser compartilhados. Deus daria a Adão aquilo que ele mais necessitava.

“Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.” (Gênesis 2:18)

A companheira de Adão deveria ser uma criação muito especial, uma “auxiliadora idônea para ele” (verso 18). Ela deveria ser uma “auxiliadora”, não uma escrava, não uma inferior. A palavra hebraica ezer é muito in-teressante. Era uma palavra que Moisés obviamente gostava, pois Êxodo 18:4 diz que este foi o nome que ele deu a um de seus filhos.

“e o outro, Eliézer, pois disse: o Deus de meu pai foi a minha ajuda e me livrou da espada de Faraó.” (Êxodo 18:4).

Ainda três outras vezes encontramos ezer sendo usada por Moisés em Deuteronômio (33:7, 26, 29), e se refere a Deus como auxiliador do homem. Como também nos Salmos (20:2, 33:20, 70:5, 89:19, 115:9, 121:1-2, 124:8, 146:5).

A característica da palavra mais empregada no Velho Testamento é que o auxílio não implica absolutamente em inferioridade. De uma maneira compatível com seu uso, Deus está auxiliando o homem através da mu- lher. Que belo pensamento. Como isso é superior a algumas concepções.

Então, ela é também uma auxiliadora que “corresponde a” Adão. Em certa tradução se lê: “…Farei uma auxiliadora como ele.”45

Ainda que isto seja o que muitas vezes consideramos a mulher perfeita – alguém que é exatamente como nós, é precisamente o oposto da questão. Muitas vezes a incompatibilidade está no desígnio divino. Como Dwight Hervey Small corretamente observa:

A incompatibilidade é um dos propósitos do casamento! Deus designa conflitos e sobrecargas como lições para o crescimento espiritual. Estes existem para que haja submissão aos altos e santos propósitos.46

Assim como Eva foi feita para se ajustar a Adão de uma forma física, ela também o completava socialmente, intelectualmente, espiritualmente e emocionalmente.

Em conseqüência, quando aconselho àqueles que planejam se casar, não procuro descobrir tantas carac-terísticas semelhantes quanto possível. Em vez disso, preocupo-me com que cada parceiro tenha uma visão acurada do que o outro realmente é, e que eles se comprometam com o fato de que Deus os tenha unido permanentemente. O reconhecimento de que Deus fez o homem e a mulher diferentes por desígnio, e a determinação em atingir a unidade nessa diversidade é essencial para um casamento sadio.

Antes de criar sua contraparte, Deus primeiro aguçou o apetite de Adão. As criaturas que Deus criara agora são trazidas a Adão para que ele lhes dê nomes. Esta nomeação refletia o domínio de Adão sobre as criaturas, como Deus planejara (cf. 1:28). Isto provavelmente envolveu um cuidadoso estudo por parte de Adão para registrar as características particulares de cada criatura.47

Este processo de nomeação deve ter tomado algum tempo. No processo, Adão observaria que nenhuma simples criatura poderia preencher o vazio de sua vida. Mais ainda, eu usaria um pouco de santa imaginação para supor que Adão observou cada criatura com sua companheira, uma contraparte maravilhosamente designada. Adão deve ter percebido que ele, só ele, estava sem uma companheira.

Nesse momento de intensa necessidade e desejo, Deus colocou Adão num sono profundo48, e de sua costela e carne 49 formou a mulher 50 Ele então deu a mulher de presente ao homem.

Que excitamento há na resposta entusiástica de Adão:

“E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada.” (Gênesis 2:23).

Gosto da maneira como a versão RVS traduz a resposta inicial de Adão: “…afinal…”51

Nessa expressão há uma mistura de alívio, êxtase e deleitosa surpresa. “Esta (pois Adão ainda não lhe tinha dado nome) é agora osso dos meus ossos e carne de minha carne” (verso 23a). O nome da companheira de Adão é mulher. A tradução em inglês agradavelmente capta o jogo de sons semelhantes. Em hebraico, homem seria pronunciado ‘ish; mulher seria ‘ishshah. Embora os sons sejam semelhantes, as raízes das duas palavras são diferentes. Convenientemente ‘ish pode vir de uma raiz paralela arábica, levando à idéia de “exercendo o poder”, enquanto o termo ‘ishshah pode ser derivado de um paralelo arábico, significando “ser suave”.52

O comentário divinamente inspirado do verso 24 é extremamente importante:

“Por isso deixa o homem pai e mãe e se uma à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gênesis 2:24).

Por este texto é imperativo que o homem deixe sua mãe e seu pai e se uma à sua mulher. Qual é a relação entre este mandamento de deixar e se unir e a criação da mulher? O verso 24 começa “Por isso…” Qual é a causa disto? Podemos compreender a razão apenas quando explicamos o mandamento. O homem deixa seus pais, não no sentido de evitar sua responsabilidade para com eles (cf. Mc. 7:10-13, Ef. 6:2-3), mas no sentido de ser dependente deles. Ele deve parar de viver sob sua liderança e começar a agir sozinho, como cabeça de um novo lar.53

A mulher não recebe o mesmo mandamento porque simplesmente ela é transferida de uma liderança para outra. Enquanto uma vez ela esteve sujeita a seu pai, agora ela está unida a seu marido. O homem, no entanto, tem uma transição mais difícil. Ele, como uma criança, era dependente e submisso a sua mãe e a seu pai.

Quando um homem se casa, ele deve passar pela transição mais radical de um dependente filho submisso para um líder independente (de seus pais), que age como o cabeça de seu lar.

Como muitos observam, a relação marido e mulher é permanente, enquanto a relação pai e filho é temporária. Mesmo se os pais forem relutantes em encerrar a relação dependente de seus filhos, o filho é responsável por fazê-lo. Falhar em agir assim é recusar uma espécie de vínculo necessário com sua esposa.

Agora, talvez, estejamos em posição de ver a relação deste mandamento com o relato da criação. Qual é a razão para sua menção aqui em Gênesis? Antes de mais nada, não há pais dos quais Adão e Eva tenham nascido. A origem de Eva é diretamente de seu marido, Adão. A união ou vínculo entre Adão e sua esposa, é a união que vem de uma só carne (a carne de Adão) e se torna uma só carne (numa união física). Esse vínculo é maior do que aquele entre pai e filho. Uma mulher, é claro, é o produto de seus pais, como o homem é dos seus. Mas a união original não envolvia pais, e a esposa era uma parte da carne de seu marido. Este primeiro casamento, então, é a evidência da primazia da relação marido e mulher sobre a relação pai e filho.

O último verso não é incidental. Ele nos diz muito do que precisamos saber. “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.” (Gênesis 2:25).

Aprendemos, por exemplo, que o lado sexual desta relação era uma parte da experiência do paraíso. O sexo não se originou com ou depois da queda. A procriação e intimidade física foram intencionadas desde o princípio (cf. 1:28). Também vemos que o sexo podia ser apreciado em sua amplitude no plano divino. Desobediência a Deus não intensifica o prazer sexual; o diminui. Hoje, o mundo quer acreditar que inventou o sexo e que Deus apenas tenta impedi-lo. Mas sexo, sem Deus, não é o que poderia ou deveria ser.

Ignorância, se me perdoam dizê-lo, é felicidade. Em nossa geração somos bacanas, ou se preferir, sofisticados, apenas se sabemos (por experiência) tudo o que há para saber sobre sexo. “Que ingênuos são aqueles que nunca tiveram sexo antes do casamento”, somos levados a crer. Há muitas coisas que é melhor não saber. O sexo nunca foi tão apreciado como quando era uma doce ignorância.

A revelação posterior lança muita luz sobre este texto. Nosso Senhor, significativamente, cita o capítulo um e o capítulo dois de Gênesis como se fosse um único relato (Mt. 19:4-5), um golpe fatal aos críticos do documento original.

A origem divina do casamento significa que não é uma mera invenção social ou convenção, mas uma ins-tituição divina para o homem. Porque Deus une um homem e uma mulher em casamento, ela é uma união permanente: “O que Deus uniu, não o separe o homem.” (Mt. 19:6).

O fato de que Adão precedeu sua esposa na criação e de que Eva foi feita de Adão, também estabelece as razões pelas quais o marido está no exercício da liderança sobre sua mulher no casamento (cf. I Co. 11:8-9, I Tm. 2:13). O papel das mulheres na igreja não é apenas idéia de Paulo restrita ao tempo e à cultura dos cristãos de Corinto. O papel bíblico da mulher é estabelecido no relato bíblico da criação (cf. também I Co. 14:34).

Conclusão

Tendo considerado a passagem por partes, vamos voltar nossa atenção a ela como um todo. Nenhuma passagem, em toda a Bíblia, define tão concisamente as coisas que realmente contam na vida. O significado da vida somente pode ser compreendido em relação ao Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança. Ainda que esta passagem tenha sido distorcida devido à queda, aqueles que estão em Cristo estão sendo renovados à imagem de Cristo:

“e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.” (Ef. 4:23-24)

“e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou.” (Cl. 3:10)

Além do mais, o sentido da vida do homem não é apenas encontrado na dignidade que Deus lhe dá como sendo criado à Sua imagem, mas no trabalho que Deus lhe dá para fazer. Muitas vezes os homens vêm o trabalho como maldição. Embora o trabalho tenha sido afetado pela queda (Gênesis 3:17-19), ele foi dado antes da queda e é um meio de bênçãos e realização se é feito como para o Senhor (cf. Cl. 3:22-24).

Por último, a instituição do casamento é dada por Deus para enriquecer profundamente nossas vidas. O trabalho que temos a fazer se torna muito mais rico e completo quando o compartilhamos com a contraparte que Deus nos dá. Eis, então, a verdadeira essência da vida – o reconhecimento de nossa dignidade divinamente ordenada, nosso dever e nosso deleite. Nosso valor, nosso trabalho, nossa esposa são todos fontes de grande bênção se forem “no Senhor”.


36 I Timóteo 2:13.

37 I Coríntios 11:8,12..

38 Gênesis 2:23.

39 “Hoje é um fato bem conhecido que o livro de Gênesis é dividido em 10 seções por seu próprio autor, que dá a cada uma o título de “estória” (toledo‚th); cf. 5:1; 6:9; 10:1; 11:10, 27; 25:12, 19; 36:1, (9); 37:2. Apenas esta circunstância, mais o uso do número dez redondo, apontariam definitivamente para o fato de que, aqui, a expressão “estes são toledo, th” deva também ser um cabeçalho. Em todos os outros exemplos de seu uso em outros livros o mesmo fato é observável; cf. Nm. 3:1; Rt 4:18; I Cr. 1:29; ele está sempre como um cabeçalho.” H. C. Leupold, Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker Book House, 1942), I, p. 110.

40 “O verso 4b nos leva de volta ao tempo da obra da criação, mais especificamente ao tempo antes da obra do terceiro dia começar, e chama nossa atenção para certos detalhes que, sendo detalhes, dificilmente teriam sido inseridos no capítulo um: o fato de que certos tipos de planta, isto é, as espécies que requerem um cuidado maior e mais atento por parte do homem, não tinham brotado. Aparentemente, toda a obra do terceiro dia está na mente do escritor.” Ibid., p.112.

“Tenho insistido muito que o primeiro capítulo seja entendido cronologicamente. O que é visto pela ordem de desenvolvimento e da progressão de pensamento. É visto também pela ênfase cronológica – primeiro dia, segundo, e assim por diante. Você não encontra isto no segundo capítulo de Gênesis. Ali, em vez de mostrar uma exposição em ordem cronológica, o Senhor está expondo os assuntos passo a passo para preparar para o relato da tentação.” E. J. Young, In The Beginning, (Carlisle, Pennsylvania, The Banner of Truth Trust, 1976), p. 70.

41 Tal parece ser o ponto de vista Leupold, I, pp. 113-114.

42 “O que entendemos por “ed”? Não uma neblina! A palavra está aparentemente relacionada à palavra suméria. Parece se referir a águas subterrâneas, e o que temos aqui ou é um rompimento de água de algum lugar abaixo do solo, ou possivelmente um rio transbordando de seu leito. Não acho que possamos ser dogmáticos aqui.” Young, pp. 67-68. Cf. Também Derek Kidner, Genesis (Chicago: InterVarsity Press, 1967), pp. 59-60.

43 “A palavra “Éden” em hebraico pode significar deleite ou prazer. Não estou certo de que é isto o que significa aqui. Há uma palavra suméria que significa estepe, ou planície, vasta planície, e a leste desta planície Deus plantou o jardim. Sem ser categórico dou minha opinião de que é isto o que “Éden” significa. Assim o jardim é plantado.” Young, p. 71.

44 “O verbo aqui empregado está mais de acordo com o caráter de “Senhor” de Deus; yatsar significa “moldar” ou “formar”. É a palavra que descreve especificamente a atividade do oleiro (Jr. 18:2 e ss). A idéia a ser enfatizada é aquela do cuidado especial e atenção pessoal que esse oleiro dá ao seu trabalho. Deus dá toques de Seu interesse no homem, Sua criatura, ao moldá-lo como Ele o faz.” Leupold, p. 115.

45 Cf. Leupold, p. 129.

46 Dwight Hervey Small, Design For Christian Marriage (Old Tappan, New Jersey: Fleming H. Revell, 1971), p. 58. Em outro lugar Small observa: “Como Elton Trueblood sugere, um casamento de sucesso não é aquele no qual duas pessoas, que combinam perfeitamente, encontram um ao outro e seguem adiante sempre felizes, por causa de sua afinidade inicial. É, em vez disso, um sistema por meio do qual pessoas que são pecaminosas e briguentas são então alcançadas por um sonho e um propósito maior do que eles mesmos, que trabalham ao longo dos anos, a despeito de repetidos desapontamentos, para tornar o sonho verdadeiro.” p. 28.

47 “Pois a expressão “dar nomes”, no uso hebraico da palavra “nome”, envolve uma designação expressiva da natureza ou caráter daquele que é nomeado. Esta não foi uma fábula rude, onde, de acordo com a opinião hebraica, os nomes para o futuro foram tirados de exclamações acidentais à vista de uma nova e estranha criatura.” Leupold, p. 131.

48 “Tardemah é, de fato, um “sono profundo”, não um estado de êxtase, como os tradutores gregos apresentam; nem um “transe hipnótico”(Skinner), pois vestígios de hipnose não são encontrados nas Escrituras. Um “transe”pode ser permissível. A raiz, no entanto, é aquela do verbo usado em referência a Jonas quando adormeceu profundamente durante a tempestade.” Ibid, p. 134.

49 “A palavra tsela traduzida por “costela”, definitivamente contém esse significado (contra V. Hofman), apesar de não ser necessário pensar apenas em osso puro; pois, sem dúvida, osso e carne foram usados por ela daquele homem que posteriormente disse: “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (v. 23). Ibid.

50 “A atividade de Deus no modo de tomar a costela do homem é descrita como uma construção (wayyi ‘bhen). Antes de ser uma indicação da obra de um autor diferente, o verbo desenvolve a situação como sendo a mais apropriada. Não teria sido próprio usar yatsar, um verbo aplicável no caso do barro, não da carne. “Construir” aplica-se ao modelamento de uma estrutura de alguma importância; envolve esforço construtivo.” Ibid, p. 135.

51 Ou, como Leupold sugere “Agora, finalmente” (p. 136).

52 Leupold, pp. 136-137.

53 Creio que devemos ter muita cautela na aplicação do princípio de Bill Gothard “corrente de conselho”. Embora o sensato procurará conselho e alguns possam vir de seus pais, dependência é um perigo real. O problema não é tanto com o princípio, mas com a aplicação.

A Criação dos Céus e da Terra (Gênesis 1:1-2:3)

Quero ser especialmente cuidadoso ao abordarmos este primeiro capítulo de Gênesis. Na semana que passou li a história de um homem que tentou citar uma passagem de nosso texto como prova para fumar maconha. Eis a história como foi dada pela Christianity Today há uns dois anos atrás:

“Preso em Olathe, Kansas, por posse de drogas, Herb Overton baseou sua defesa em Gênesis 1:29: “e Deus disse… Eis que vos tenho dado todas as sementes que se acham na superfície da terra…”

“O Juiz Earl Jones, no entanto, duvidou da hermenêutica de Overton. De acordo com o artigo do Chicago Tribune, o juiz disse ao acusado de citar a Bíblia: “Como um mero mortal, vou lhe considerar culpado por posse de maconha. Se você quiser apelar para a instância superior, por mim tudo bem.”17

Todos podemos ler tais coisas em certas ocasiões e rir delas. Enquanto que o erro de Herb Overton é cômico, podem haver erros menos óbvios dos quais muitos cristãos podem ser culpados – e isso não é engraçado.

Esta semana um breve artigo chamou minha atenção na revista Eternity, intitulado “Seis Falhas do Evangelicalismo”. A maior parte do artigo ainda provoca coceira em minha cabeça, mas fiquei particularmente preocupado com esta afirmação:

“Temos tratado a Criação como um acontecimento estático – argumentando se Deus criou ou não tudo em sete dias, faltando assim a questão do significado religioso da criação e a atividade contínua de Deus na história.”18

À medida em que considero a acusação de Robert Webber, parece-me que nós, evangélicos, temos cometido cinco grandes erros na maneira como temos lidado com Gênesis nos últimos anos. A maioria desses erros consiste na reação ao tríplice ataque da evolução ateísta, da religião comparativa e da crítica literária.19

(1) Tratamos o relato da criação de acordo com a grade científica. Algumas recentes teorias e conclusões dos cientistas têm contestado a interpretação tradicional do relato bíblico da criação. Num esforço cons-ciencioso para provar que a Bíblia é cientificamente acurada, temos abordado os primeiros capítulos de Gênesis de um ponto de vista científico. O problema é que esses capítulos não pretendem nos dar um relato da criação que responderia a todos os problemas e fenômenos científicos.

O Dr. B. B. Warfield expõe bem o problema:

“Uma janela de vidro está diante de nós. Levantamos os olhos e vemos o vidro; notamos sua qualidade, observamos seus defeitos e especulamos sobre sua composição. Ou olhamos através dele na perspectiva de ver além terra, céu e mar. Da mesma forma, há duas maneiras de se olhar o mundo. Podemos ver o mundo e ficar absorvidos pelas maravilhas da natureza. Essa é a maneira científica. Ou podemos olhar diretamente através do mundo e ver Deus por detrás dele. Essa é a maneira religiosa.

A maneira científica de olhar para o mundo não é mais errada do que a maneira do fabricante do vidro olhar a janela. Essa maneira de olhar para as coisas tem um uso muito importante. No entanto, a janela foi colocada não para ser observada, mas para observarmos através dela, e o mundo falha em seu propósito a menos que também olhemos através dele e os olhos repousem não nele mas no Deus que o fez.”20

O autor de Gênesis não escreveu o relato da criação para o fabricante do vidro. Antes ele nos incentiva a ver através do vidro de seu relato para o Criador por detrás dele.

(2) Usamos o relato de Gênesis como apologia, quando seu propósito primário não é apologético. O uso apologético dos capítulos iniciais de Gênesis, ainda que seja importante,21 não é adequado ao propósito do autor. Gênesis foi escrito para o povo de Deus, não para descrentes. Os homens que se recusam a crer no criacio-nismo não o fazem por ausência de fatos ou de provas (cf. Rm. 1:18s), ou devido ao seu grande conhecimento (Sl. 14:1), mas devido a ausência de fé (Hb.11:3). Gênesis é muito mais uma declaração do que uma defesa.

(3) Tentamos encontrar em Gênesis algumas respostas para mistérios que podem ou não podem ser explicados em algum outro lugar. Podemos desejar aprender, por exemplo, onde a queda e o julgamento de Satanás se encaixam no relato da criação, mas tal informação não pode ser dada porque não era propósito do autor responder a tais questões.22

(4) Falhamos ao estudar Gênesis um dentro de seu contexto histórico. Suponho que seja muito fácil cometer esse tipo de erro aqui. Podemos duvidar de que haja algum fundo histórico. Ou podemos concluir que este é precisamente o propósito do capítulo – dar-nos um relato histórico da criação.

O panorama essencial à nossa compreensão do significado e da mensagem da criação, é o daqueles que primeiramente receberam este livro. Supondo que Moisés tenha sido o autor de Gênesis, o livro provavelmente teria sido escrito em alguma época depois do êxodo e antes da entrada na terra de Canaã. Qual seria a situação na época em que foi escrito este relato da criação? Quem recebeu essa revelação e quais necessidades foram satisfeitas por ele? Isto é crucial à correta interpretação e aplicação da mensagem da criação.

(5) Muitas vezes falhamos ao aplicar o primeiro capítulo de Gênesis de maneira relevante às nossas próprias vidas espirituais. Como um de meus amigos diz: “Olhamos para a mensagem de Gênesis um e não esperamos nada mais além de ter nossas baterias apologéticas recarregadas novamente.”

O relato da criação vem a ser um assunto importante em todo o Velho e Novo Testamento. Aqui, como em outros lugares, não podemos errar, mas permitir que as Escrituras interpretem as próprias Escrituras. Quando o assunto da criação aparece nas Escrituras requer uma reação dos homens. Quando ensinamos Gênesis capítulo um muitas vezes falhamos em despertar qualquer tipo reação.

O Cenário Histórico de Gênesis um

A revelação nunca é dada num vácuo histórico. A Bíblia fala aos homens em situações específicas e por motivos especiais. Não podemos interpretar corretamente as Escrituras ou aplicá-las a nós mesmos até que te-nhamos respondido à questão: “O que esta passagem queria dizer àqueles a quem originalmente foi dada?” Muitas coisas sobre a literatura, cultura e religiosidade dos povos que cercavam os israelitas são conhecidas através de estudos arqueológicos. O conhecimento de fatos contemporâneos aos Israelitas aumentará grandemente nossa compreensão do significado do relato da criação de acordo com a revelação divina, tal como é encontrada em Gênesis um.

Primeiro, sabemos que, virtualmente, todas as nações tinham sua própria cosmogonia, ou relato(s) da criação. De certo modo, sempre pensei que o relato da criação de Gênesis um fosse algo novo e original. De fato, esta revelação veio tarde se comparada à de outras nações do Oriente Médio. A Antigüidade devotava muito tempo e esforço às suas origens. O relato de Gênesis capítulo um tinha que “competir”, por assim dizer, com outros relatos de sua época.

Segundo, há quase que uma similaridade marcante entre esses relatos pagãos da formação do cosmos. De seus estudos dos doze mitos, a Sra. Wakeman identificou três características sempre presentes: 1) um monstro re-pressivo restringindo a criação; 2) a derrota do monstro por um deus heróico que liberta as forças vitais para a vida; 3) o controle final do herói sobre essas forças.”23

Terceiro, ainda que aflija alguns, há consideráveis semelhanças entre os mitos da criação pagã e o relato inspirado da criação na Bíblia.24 A correspondência inclui o uso de alguns dos mesmos termos (por exemplo, Leviatã) ou descrições (por exemplo, um dragão ou monstro marinho), forma literária similar25 e seqüência de eventos paralelos na criação.26

A explicação de algumas dessas semelhanças são inaceitáveis. Por exemplo, dizem que essas semelhanças evidenciam o fato de que a cosmogonia bíblica não é diferente de qualquer outro mito antigo da criação. Outros nos assegurariam que, ainda que haja semelhanças, os Israelitas “desmistificaram” esses relatos corrompidos para assegurar um relato acurado da origem da terra e do homem.27 Alguns estudiosos conservadores simplesmente chamam a correspondência de coincidência, apesar de isto parecer evitar as dificuldades ao invés de explicá-las. A explicação mais aceitável é que as semelhanças são explicadas pelo fato de que todos os relatos similares da criação tentam explicar os mesmos fenômenos.

“Muito cedo os povos se desviaram daquelas primeiras tradições da raça humana, e em climas e temperaturas variadas, têm-nas modificado de acordo com sua religião e modo de pensar. As modificações com o tempo resultaram na corrupção da tradição pura e original. O relato de Gênesis não é o único inalterado, mas em qualquer lugar sustenta a inerrante impressão da inspiração divina quando comparado às extravagâncias e corrupções de outros relatos. A narrativa bíblica, podemos concluir, representa a forma original que deve ter sido assumida por essas tradições.”28

Mais importante que o fato de que as nações ao redor de Israel tinham seus próprios (talvez mais antigos) relatos da criação, foi o uso para o qual esses relatos foram colocados no antigo Oriente Médio. Os antigos estudos do cosmos não foram cuidadosamente registrados e preservados por amor à história antiga; eles foram o fundamento de costumes religiosos.

As divindades do mundo antigo foram deuses da natureza, como o deus sol, deus lua, deus chuva e assim por diante.29 Para assegurar o curso das forças da natureza e garantir colheita abundante e os rebanhos de gado, os mitos da criação eram encenados todos os anos.

“Os mitos, então, no mundo antigo, eram reencenados através de pantomimas em festivais públicos para acompanhamento dos rituais. Uma complexa estrutura compunha a mágica encenação, cujo efeito, acreditava-se, seria benéfico a toda comunidade. Através de rituais aromáticos eram revividos os primeiros eventos registrados na mitologia. Acreditava-se que a encenação das ações criadoras dos deuses na estação própria, e a declamação de uma fórmula verbal apropriada faria a renovação periódica e a revitalização da natureza, e assim asseguraria a prosperidade da comunidade.30

Por esse cenário podemos começar a perceber quão vital foi o papel encenado pelo estudo do cosmos no antigo Oriente Médio. A vida social e religiosa de Israel, como a de seus vizinhos, era baseada em suas origens. O relato da criação em Gênesis estabeleceu o fundamento para o restante do Pentateuco.

Sob essa luz podemos ver a importância do contexto entre o Deus de Israel e os “deuses” do Egito. Faraó ousou perguntar a Moisés “Quem é o Senhor para que eu obedeça à sua voz e deixe ir a Israel?” (Ex. 5:2).

A resposta do Senhor foi uma série de dez pragas. A mensagem dessas pragas foi que o Deus de Israel é o Deus criador dos céus e da terra.

“Porque, naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até os animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o Senhor.” (Ex. 12:12, cf. 18:11, Nm. 33:4)

Parecia que cada praga era uma afronta direta a algum dos muitos deuses do Egito. Ainda que uma correlação direta de cada praga com um deus específico possa ser um tanto especulativa31, a batalha dos deuses é evidente.

Não é de se estranhar que o sinal da aliança dos Israelitas fosse a guarda do sábado:

“Tu, pois, falarás aos filhos de Israel e lhes dirás: Certamente, guardareis os meus sábados, pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica… Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento.” (Ex. 31:13/17).

A observância do sábado identificava Israel com seu Deus, o Criador que descansou de seu trabalho no sétimo dia.

Os milagres do Êxodo tiveram, então, uma função similar à dos sinais e maravilhas realizados por nosso Senhor. Eles autenticaram a mensagem que foi proclamada. No caso de nosso Senhor foram as palavras que Ele proclamou e os escritores inspirados preservaram. No caso do Êxodo, o Pentateuco foi a revelação de Deus escrita por Moisés que seus milagres autenticaram. O Êxodo provou ser Yahweh o único Deus, o Criador e Redentor. O Pentateuco forneceu o conteúdo para a fé de Israel, do qual o relato da criação é o fundamento.

Gênesis 1:1-3

Há muitas interpretações para os três primeiros versos da Bíblia, mas mencionaremos brevemente as três mais popularmente sustentadas pelos evangélicos. Não gastaremos muito tempo aqui, pois nossas conclusões não serão finais e as diferenças têm pouca influência na aplicação do texto. Deixe-me começar simplesmente dizendo que nós, que somos chamados pelo nome de Cristo, devemos, no final das contas, tomar Gênesis 1:1 ao pé da letra, pela fé (Hb. 11:3).

1ª opinião: A Teoria da Recriação (ou lacuna). Esta opinião sustenta que Gênesis 1:1 descreve a criação original da terra, anterior à queda de Satanás (Is. 14:12-15, Ez. 28:12s). Em conseqüência da queda de Satanás a terra perdeu seu estado original de beleza e glória e se encontrou no estado de caos de Gênesis 1:2. Essa “lacuna” entre os versos 1 e 2 não só ajuda a explicar o ensino a respeito da queda de Satanás, mas também permite um considerável período de tempo, o qual ajuda a harmonizar o relato da criação com as modernas teorias científicas. Esta teoria sofre de uma série de dificuldades.32

2ª opinião: A Teoria do Caos Inicial. Brevemente, esta opinião sustenta que o verso um seria uma frase introdutória independente. O verso 2 descreveria o estado da criação inicial como sem forma e vazia. Em outras palavras, o universo é como um bloco bruto de granito antes do escultor começar a moldá-lo. A criação não está em mau estado em conseqüência de alguma queda catastrófica, mas simplesmente em seu estado informe inicial, como um monte de barro nas mãos do oleiro. Os versos 3 e seguintes começam a descrever o trabalho de Deus e a modelagem da massa, transformando-a do caos no cosmos. Muitos estudiosos respeitáveis sustentam esta posição.33

3ª opinião: A Teoria do Caos Pré-Criação. Nesta opinião (sustentada pelo Dr. Waltke) o verso um ou é entendido como uma oração independente (“Quando Deus começou a criar…”) ou como um enunciado introdutório independente e resumido (“No princípio criou Deus…”). O relato da criação resumido no verso 1 começa no verso 2. Esta “criação” não é “ex nihilo” (do nada), mas por causa das coisas existentes no verso 2. De onde isto vem não é explicado nesses versos. Em conseqüência, esta opinião sustenta que o estado caótico não ocorre entre os versos um e dois, mas antes do verso um numa época não especificada. A origem absoluta da matéria é, então, não o objeto da “criação” de Gênesis 1, mas apenas o princípio relativo do mundo e da civilização como a conhecemos hoje. 34

Podemos resumir as diferenças entre esses três pontos de vista na figura abaixo:35

Os Seis Dias da Criação
(1:1-31)

É importante reconhecer que os versos 2 a 31 nada mais são do que uma pequena expansão do verso um. Eles não explicam completamente a criação (certamente não do modo científico – quem teria se preocupado com isso durante todos esses anos?). Nem a provam, pois, no final das contas, isto é uma questão de fé. Os fatos sobre os quais esta fé deve ser baseada simplesmente são afirmados.

Parece haver um padrão para estes seis dias da criação, como muito estudantes da Bíblia têm observado. Pode ser melhor ilustrado graficamente:

           
Sem Forma Transformado em Forma Vazio Transformado em Habitação
v. 3-5 1º Dia Luz v. 14-19 4º Dia Luminares (sol, luz, estrelas)
v. 6-8 2º Dia Atmosfera (espaço superior)Água (espaço inferior) v. 20-23 5º Dia Peixes e Pássaros
v. 9-13 3º Dia Plantas terrestres v. 24-31 6º Dia Animais e Homem

Vendo desta maneira, os três primeiros dias cuidam da situação “sem forma” descrita em Gênesis 1:2. Os dias 4 a 6 tratam do estado de “vácuo” ou “vazio” do verso 2. Parece haver também uma correlação entre os dias 1 e 4, 2 e 5 e 3 e 6. Por exemplo, a atmosfera e a água recebem a forma de vida correspondente de pássaros e peixes, como se isto não devesse estar tão longe.

Duas outras observações devem ser feitas. Primeiro, há uma seqüência nos seis dias. Fica claro que este relato está disposto cronologicamente, cada dia edificado sobre a atividade criativa dos dias anteriores. Segundo, há um processo envolvido na criação, um processo envolvendo a transformação do caos no cosmos, a desordem na ordem.

Enquanto Deus poderia ter instantaneamente criado a terra tal como ela é, Ele não escolheu fazer assim. A clara impressão dada pelo texto é que este processo levou seis dias literalmente, e não longas eras. No entanto, o Deus eterno não está tão preocupado em fazer as coisas instantaneamente quanto nós estamos. O processo de santificação é apenas mais um dos muitos exemplos da atividade progressiva de Deus no mundo.

O Significado da Criação para os Antigos Israelitas

Antes de examinarmos a questão do que a criação deve significar para nós, devemos tratar do seu significado para aqueles que primeiramente leram estas palavras inspiradas da pena de Moisés. O propósito inicial deste relato foi para os Israelitas dos dias de Moisés. O que devem ter aprendido? Como devem ter reagido?

(1) O relato da criação de Gênesis foi uma correção à cosmogonia corrompida de seus dias. Já dissemos que o Egito, por exemplo, acreditava em múltiplos deuses da natureza. Precisamos reconhecer que Israel, devido à sua proximidade e contato prolongado com os egípcios, não deixou de ser afetado por seus pontos de vista religiosos.

“Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e servi ao Senhor.” (Js. 24:14)

Não era suficiente honrar a Yahweh simplesmente como um deus, um entre muitos. Nem poderia ser concebido isso do Deus de Israel. Só Yahweh é Deus. Não há outro Deus. Ele é o criador dos céus e da terra. Ele não é simplesmente superior aos deuses das nações em derredor. Somente Ele é Deus.

A tendência em se começar a confundir Deus com Sua criação foi uma parte dos pensamentos do mundo antigo. Ele deve ser honrado como o Deus da criação, não apenas Deus na criação. Todas as tentativas de se visua-lizar ou humanizar a Deus na forma de alguma coisa criada foram tendências em equiparar Deus com Sua criação. Creio que foi assim com o bezerro de ouro de Arão.

(2) O relato da criação descreve o caráter e os atributos de Deus. Negativamente, Gênesis um corrige muitas concepções populares erradas a respeito de Deus. Positivamente, retrata Seu caráter e Seus atributos.

Deus é soberano e Todo-Poderoso. Distintamente das cosmogonias de outros povos antigos, não há nenhuma batalha na criação descrita em Gênesis um. Deus não enfrentou forças opostas para criar a terra e o homem. Deus criou com uma simples ordem “Haja…” Há ordem e progresso. Deus não faz experiência, mas, ao invés disso, habilmente molda a criação conforme Seu projeto onisciente.

Deus não é simplesmente energia, mas uma Pessoa. Ainda que devamos ficar atemorizados pela transcendência de Deus, devemos ficar também pela Sua imanência. Ele não é uma energia cósmica distante, mas um Deus pessoal sempre presente. Isto é refletido no fato de que Ele criou o homem à sua própria imagem (1:26-28). O homem é um reflexo de Deus. Nossa personalidade é simplesmente uma sombra da personalidade de Deus. No capítulo dois Deus deu a Adão uma tarefa significativa, com uma companheira como auxiliadora. No terceiro capítulo aprendemos que Deus tinha comunhão diária com o homem no jardim (cf. 3:8).

Deus é eterno. Enquanto que outras criações são vagas ou errôneas no que concerne à origem de seus deuses, o Deus de Gênesis é eterno. O relato da criação descreve Sua atividade no princípio dos tempos (do ponto de vista humano).

Deus é bom. A criação não teve lugar num vácuo moral. A moralidade foi tecida dentro da estrutura da criação. Repetidamente é encontrada a expressão “e era bom”. Bom implica não somente em utilidade e complexidade, mas em valores morais. Aqueles que sustentam pontos de vista ateístas sobre a origem da terra não vêem nenhum outro sistema de valores a não ser o que é sustentado pela maioria das pessoas. A bondade de Deus é refletida em Sua criação, a qual, em seu estado original, era boa. Mesmo hoje, a graça e a bondade de Deus são evidentes (cf. Mt. 5:45; At. 17:22-31).

O significado da Criação Para Todos os Homens

O tema de Deus como Criador é relevante através de toda a Escritura. É significativo que as últimas palavras da Bíblia sejam notadamente similares às primeiras.

“Então me mostrou o rio da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, de uma e outro margem do rio, está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são par a cura dos povos. Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele. Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles e reinarão pelos séculos dos séculos.” (Ap. 22:1-5)

A verdade de que Deus é o Criador dos céus e da terra não é simplesmente algo para se acreditar, mas algo a que devemos reagir. Deixe-me mencionar apenas umas poucas implicações do ensinamento de Gênesis um.

(1) Os homens devem se submeter ao Deus da criação em temor e obediência. Os céus proclamam a glória de Deus:

“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.” (Sl. 19:1-2)

“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.” (Rm. 1:20-21)

Os homens devem temer ao Deus Todo-Poderoso da criação:

“Os céus por sua palavra se fizeram e, pelo sopro de sua boca, o exército deles. Ele ajunta em montão as águas do mar; e em reservatório encerra as grandes vagas. Tema ao Senhor toda a terra, temam-nos todos os habitantes do mundo. Pois ele falou e tudo se fez, ele ordenou e tudo passou a existir.” (Sl. 33:6-9)

A grandeza de Deus é evidente nas obras de suas mãos – a criação que está ao nosso redor. Os homens deveriam temê-Lo e reverenciá-Lo por Quem Ele é.

“Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Senhor, Deus meu, como tu és magnificente, sobrevestido de glória e majestade, coberto de luz como de um manto. Tu estendes o céu como uma cortina, pões nas águas o vigamento da tua morada, tomas as nuvens por teu carro, e voas nas asas do vento. Fazes a teus anjos ventos e a teus ministros, labaredas de fogo. Lançaste os fundamentos da terra, para que ela não vacile em tempo nenhum. Tomaste o abismo por vestuário e a cobriste; as águas ficaram acima das montanhas; à tua repreensão, fugiram, à voz do teu trovão, bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havias preparado. Puseste às águas divisa , que não ultrapassarão, para que não tornem a cobrir a terra.” (Sl. 104:1-9)

(2) Os homens devem confiar no Deus da criação, para prover todas as suas necessidades.

“Após voltar Abrão de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma no vale de Savé, que é o vale do rei. Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo: abençoou ele a Abrão, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo; que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo. Então disse o rei de Sodoma a Abrão: dá-me as pessoas, e os bens fiquem contigo. Mas Abrão lhe respondeu: Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, que possui o céu e a terra, e juro que nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: Eu enriqueci a Abrão; nada quero para mim, senão o que os rapazes comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol e Manre, que foram comigo; estes que tomem o seu quinhão.” (Gn. 14:17-24)

Abrão deu o dízimo a Melquisedeque com base em sua confissão de que o Deus de Abrão era “o Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra” (v. 19, 20). E mesmo enquanto Abrão dava o dízimo a Melquisedeque, ele se recusou a se beneficiar em qualquer aspecto financeiro do rei pagão de Sodoma, pois queria que este homem soubesse que “o Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra” foi o Único que o fez prosperar.

Nós cantamos “Ele é o dono do gado em milhares de montes… sei que ele se importará comigo.” Que boa teologia. O Deus que é o nosso Criador, é também o nosso Sustentador. Veja que Deus não concluiu o universo e então o deixou entregue a si mesmo, tal como parecem dizer. Deus mantém um cuidado contínuo sobre Sua criação.

“Fazes crescer a relva para os animais, e as plantas para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão; o vinho, que alegra o coração do homem, o azeite que lhe dá brilho ao rosto, e o pão que lhe sustém as forças. Avigoram-se as aves do Senhor, e os cedros do Líbano que ele plantou, em que as aves fazem seus ninhos; quanto à cegonha, a sua casa é nos ciprestes. Os altos montes são das cabras montesinhas, e as rochas o refúgio dos arganazes. Fez a lua para marcar o tempo; o sol conhece a hora do seu ocaso. Dispões as trevas, e vem a noite, na qual vagueiam os animais da selva. Os leõezinhos rugem pela presa, e buscam de Deus o sustento; em vindo o sol, eles se recolhem e se acomodam nos seus covis. Sai o homem para o seu trabalho, e para o seu encargo até a tarde.” (Sl. 104:14-23)

O Novo Testamento dá um passo além ao nos informar que o Filho de Deus foi o Criador e continua a servir como Sustentador da criação, mantendo todas as coisas juntas:

“Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste.” (Cl. 1:16-17)

(3) Os homens devem se humilhar diante da sabedoria de Deus evidenciada na criação. Jó sofreu muitas aflições. Mas, afinal, o suficiente foi suficiente. Ele começou a questionar a sabedoria de Deus em sua adversidade. Ao seu questionamento Deus respondeu:

“Depois disto o Senhor, do meio de um redemoinho, respondeu a Jó: Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? Cinge, pois, os teus lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as tuas bases, ou quem lhe assentou a pedra angular, quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?” (Jó 38:1-7).

Jó foi desafiado a sondar a sabedoria de Deus na criação. Ele não podia explicá-la ou compreendê-la, quanto mais contestá-la. Como, então, Jó poderia questionar a sabedoria da obra de Deus em sua vida. Na verdade, ele não podia ver o propósito de tudo aquilo, mas sua perspectiva não era a de Deus. Deixe que, quem quer que questione a ação de Deus em sua vida contemple a infinita sabedoria de Deus como é vista na criação, e então seja silenciado e espere Nele para fazer o que é certo.

Se o homem pudesse escolher refletir sobre qualquer questão, deixe-o tentar sondar a razão pela qual um Deus infinito deveria Se preocupar tanto com um simples homem:

“Quanto contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste.” (Sl. 8:3-5).

(4) O homem deve encontrar conforto em tempos de perigo e dificuldade, sabendo que seu Criador é capaz e desejoso de livrá-lo.

“Por isso também os que sofrem segundo a vontade de Deus encomendem as suas almas ao fiel Criador, na prática do bem.” (I Pe. 4:19)

“Por que, pois, dizes, ó Jacó, e falas, ó Israel: O meu caminho está encoberto ao Senhor, e o meu direito passa despercebido ao meu Deus? Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento. Faz forte ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.” (Is. 40:27-31)

“Assim Deus, o Senhor, que criou os céus e os estendeu, formou a terra, e a tudo quanto produz; que dá fôlego de vida ao povo que nela está, e o espírito aos que andam nela. Eu, o Senhor, te chamei em justiça, tomar-te-ei pela mão, e te guardarei, e te farei mediador da aliança com o povo, e luz para os gentios.” (Is. 42:5-6)

“Eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que não me conheces. Para que se saiba até ao nascente do sol e até ao poente, que além de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu o Senhor, faço todas estas cousas.” (Is. 45:5-7).

(5) O homem deve responder ao Deus da criação com o louvor que Lhe é devido:

“A glória do Senhor seja para sempre! Exulte o Senhor por suas obras! Com só olhar para a terra ele a faz tremer; toca as montanhas, e elas fumegam. Cantarei ao Senhor enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a minha vida. Seja-lhe agradável a minha meditação; eu me alegrarei no Senhor. Desapareçam da terra os pecadores, e já não subsistam os perversos. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia!” (Sl. 104:31-35)

“Aleluia! Louvai ao Senhor do alto dos céus, louvai-o nas alturas. Louvai-o todos os seus anjos; louvai-o todas as suas legiões celestes. Louvai-o, sol e lua; louvai-o todas as estrelas luzentes. Louvai-o, céus dos céus, e as águas que estão acima do firmamento. Louvem o nome do Senhor, pois mandou ele e foram criados. E os estabeleceu para todo o sempre: fixou-lhes uma ordem que não passará.” (Sl. 148:1-6)

“Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor que nos criou.” (Sl. 95:6)

“Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade.” (Sl. 8:1)

Conclusão

Meu amigo, o ensinamento de Gênesis um é uma grande e poderosa verdade. É o único que exige mais do que aceitação; ele precisa de ação. E mesmo assim, por maior que seja, é empalidecido pela vinda de Jesus Cristo. Da mesma forma que Deus proclamou: haja luz, assim Deus de uma vez por todas falou nos últimos tempos pelo Filho (Hb.1:1-2), que é a luz:

“Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz – ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.” (II Co. 4:6)

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.” (Jo. 1:1-5)

“A saber: a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem. Estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (Jo.1:9-13)

Enquanto Deus Se revelou palidamente na criação, Ele Se desvelou completamente em Seu Filho:

“Ninguém jamais viu a Deus: o Deus unigênito, que está no sei do Pai, é quem o revelou.” (Jo. 1:18)

Não podemos evitar a revelação bíblica de que o Deus que criou os céus e a terra, o Deus que redimiu os Israelitas do Egito, é o Deus-Homem da Galiléia, Jesus Cristo. Da mesma forma como Ele fez a primeira criação (Cl. 1:16), agora Ele vem realizar uma nova criação, através de Sua obra na cruz do Calvário:

“E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (II Co. 5:17)

Além disto, breve virá o dia em que os céus e a terra serão purificados dos efeitos do pecado e serão novos céus e nova terra:

“Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas. Visto que todas estas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do dia de Deus, por causa do qual os céus incendiados serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça.” (II Pe. 3:10-13)

Você está pronto para esse dia, meu amigo? Já é uma nova criatura em Cristo? Gênesis um revela como Deus tomou o caos e o transformou no cosmos – belo e ordenado. Se você ainda não veio a Cristo, posso dizer com toda segurança que sua vida é sem forma e vazia, é caótica e sem vida. O mesmo que tornou o caos em cosmos pode fazer de sua vida uma nova vida.


17 “Pot Proof”, Christianity Today, September 22, 1978, p. 43.

18 “Evangelicalisms Six Flaws”, Eternity, January, 1980, p. 54. Este artigo da equipe da Revista Eternity é um sumário de um artigo de Robert E. Webber, matéria publicada em outubro na New Oxford Review.

19 O Dr. Bruce Waltke brevemente descreve este tríplice ataque:

Primeiro, veio a contestação da comunidade científica. Na esteira da revolucionária teoria da evolução de Charles Darwin para explicar a origem das espécies, a maior parte da comunidade científica acatou a hipótese de Darwin contra a Bíblia. Eles criam que podiam validar a teoria de Darwin através de dados empíricos, mas acharam que não podiam fazer o mesmo em relação à Bíblia.

A segunda contestação veio dos religiosos comparativos que procuraram desacreditar a história bíblica pelo apontamento de várias semelhanças entre ela e os antigos relatos mitológicos da criação, provenientes de várias partes do Oriente Médio, estudando-os ao mesmo tempo… De acordo com sua opinião (Gunkel), a versão hebraica da criação foi apenas uma outra lenda folclórica do Oriente Médio, que aqueles que transmitiam a história, com o passar do tempo, aperfeiçoaram com sua criatividade e visão filosófica e teológica.

A terceira contestação veio do criticismo literário. O caso mais expressivo foi o de Julius Wellhausen em seu clássico mais influente, ainda disponível em brochura nas livrarias, intitulado Pro Legomena to the Old Testament. Aqui ele argumenta que haviam, pelo menos, dois relatos distintos da criação em Gênesis 1 e 2 e que os dois se contradiziam em vários pontos. Bruce Waltke, Creation and Chaos (Portland, Oregon: Western Conservative Baptist Seminary, 1974), pp. 1-2.

20 Benjamin B. Warfield, Selected Shorter Writings of Benjamin B. Warfield, Vol. I, editado por John E. Meeker (Nutley, N.J. Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1970), p. 108.

21 Devo enfatizar que deveríamos tomar seriamente a instrução de Pedro “… estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós…” (I Pe. 3:15) Mesmo aqui, no que pode ser chamado de exortação a uma prontidão apologética, a mensagem mais necessária ao não crente é a do evangelho da salvação pela fé em Cristo. Minha experiência é que poucos são salvos pelo uso apologético do relato de Gênesis da criação. Para aqueles que consideram seriamente o chamado de Cristo, mas temem que a Bíblia não seja digna de confiança, tais esforços podem muito bem valer a pena.

22 “Primeiro, podemos dizer que o livro de Gênesis não nos informa, consoante às origens, aquilo que é contrário à natureza de Deus, nem no cosmos, nem no mundo espiritual. Onde se opõe a Ele, que é a boa e resplandecente origem? Quando nos deparamos com o problema da origem do mal no reino moral, encontramos um grande mistério. De repente, sem explicação, em Gênesis 3 aparece no Jardim do Éden um personagem totalmente maléfico, brilhante e inteligente, dissimulado numa serpente. O princípio das origens, tão forte em nossas mentes, exige uma explicação. Mas a verdade é que o Livro nos frustra. Igualmente, quando nos aproximamos daquilo que é negativo nos cosmos, algo obscuro e sem forma, a Bíblia não nos dá nenhuma informação. Eis aqui algumas das coisas ocultas que pertencem a Deus.” (Waltke, Creation and Chaos, p. 52). Ainda que eu não concorde com a escolha das palavras do Dr. Waltke (“o Livro nos frustra”), concordo com sua posição de que Gênesis não nos diz aquilo que podemos desejar aprender.

23 Wakeman, como citado por Waltke, Creation and Chaos , p. 6.

24 Waltke demonstra as semelhanças entre a cosmogonia bíblica e os mitos da criação do antigo Oriente Médio:

Primeiro, pela comparação do Salmo 74:13-14 com o Texto Ugarítico 67:I: 1-3 (Waltke, p. 12).

Salmo 74:13-14 “Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. Tu espedaçaste a cabeça do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto.”

Texto 67: I . 1-3, 27-30: “Quando esmagaste Lotan (Leviathan) o diabólico dragão, também destruíste o dragão disforme, o poderoso de 7 cabeças…”

Segundo, pela comparação de Isaías 27:1 com o Texto Ugarítico ‘nt:III: 38-39 (Waltke, p. 13):

Isaías 27:1 “Naquele dia, o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão, serpente veloz, e o dragão, serpente sinuosa, e matará o monstro que está no mar.”

Texto ‘ni:III: 38-39: “O dragão disforme, o poderoso de 7 cabeças.”

25 Cf. Waltke, Creation and Chaos, pp. 33,35. Realmente, esta semelhança na forma entre o texto bíblico do Pentateuco e os textos antigos do Oriente Médio, tem mostrado ser uma bênção para aqueles que sustentam a autoria (Mosaica) unificada:

“Kitchen comparou o Pentateuco com os antigos textos do Oriente Médio e descobriu que os mesmos traços usados pelos críticos como uma varinha de condão para dividir o Pentateuco estavam presentes nestes textos, escritos na rocha sem nenhuma pré-história.” Waltke, pp. 41-42.

26 Ibid, p. 45.

27 “A explicação mais comum dos estudiosos que observam o mundo como um sistema fechado sem nenhuma intervenção divina é a de que Israel apropriou-se destas mitologias, desmistificou-as, purificou-as de seu politeísmo ordinário e grosseiro, e gradualmente adaptou-as à sua própria superior e desenvolvida teologia.” Ibid., p. 46.

28 Merrill F. Unger, Archaeology and the Old Testament, p. 37, citado por Waltke, p. 46.

29 “Em Canaã, na época da conquista, cada cidade tinha seu próprio templo dedicado a alguma força da natureza. O nome Jericó deriva da palavra hebraica yerah, que significa “lua”, por seus habitantes adorarem a lua, o deus “Yerach”. Igualmente, no outro lado da cadeia central de montanhas da Palestina, encontramos a cidade de Beth Shemesh, que significa “Templo do Sol” pois Shamash, o deus sol, era adorado lá.” Waltke, p. 47.

30 Sarna, Understanding Genesis, p. 7, como citado por Waltke, p. 47.

31 “O conhecimento existente a respeito das práticas diárias de adoração dos deuses egípcios é muito pequeno; e, apesar dos propósitos e intenções, pouco ou nada é conhecido de fontes documentadas de seus assuntos metafísicos. É óbvio, no entanto, que as 22 províncias egípcias tinham, cada uma, seus respectivos centros religiosos e tótens de animais ou de plantas. É precisamente os atributos dessas deidades que estão envolvidos nas pragas; mas, se cada praga foi imaginada para estar no domínio especial de um ou outro dos deuses egípcios, não se pode estabelecer com certeza.” W. White, Jr. “The Plagues of Egypt, The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1975, 1976), IV, p. 806.

32 Cf. Waltke, pp. 21-25.

33 Por exemplo, E. J. Young, In the Beginning (Carlisle; Pennsylvania: Banner of Truth Trust, 1976), pp. 20ff.

34 “Mas o que diremos sobre o estado informe e não criado, as trevas e o abismo de Gênesis 1:2? Aqui entramos num grande mistério, pois a Bíblia nunca disse que Deus os trouxe à existência pela Sua Palavra. O que podemos dizer sobre eles?” Bruce Waltke, p. 52.

35 Adaptado de Waltke, p. 18.

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Argumentos a favor da existencia Divina.

Neste pequeno post, apenas deixarei disponível alguns links com diversos textos tratando sobre a existência de Deus.

Argumentos filosóficos pela existência de Deus – Manual de Apologética e Defesa da Fé – Capítulo IV

Ateísmo e Fé – Victor Peregrino

Caderno – A existência de Deus (sumateologica.wordpress.com)

Dios, Su existencia – Solucion tomista de las antinomias agnosticas – Pe. Garrigou Lagrange (obrascatolicas.com)

Existência de Deus – Orlando Fedeli

E Tomás de Aquino:

 
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Você pode ver diversos outros ebooks aqui no Blog do Angueth (um blog muito bom! Peguei alguns links neste mesmo blog). Livros altamente necessários para quem se diz Cristão!

fonte : http://teismo.net/?p=1866

O Big bang antecede as estrelas?

Evolucionistas distorcem a Física para acomodar o big bang

Os astrónomos descobriram uma misteriosa estrela que é composta quase na totalidade por hidrogénio e gás hélio. De acordo com as teorias naturalistas em torno da formação de estrelas, esta estrela não deveria existir uma vez que faltam-lhe quantidades maciças de elementos mais pesados como o oxigénio, o carbono e o ferro (bem como o lítio). No entanto, de acordo com a Palavra do Criador, a existência de tal estrela não constitui problema algum.

No seu estudo publicado na Nature, pesquisadores determinaram a composição da estrela – baptizada de SDSS J102915+ 172927 – ao analisarem a luz que ela emitia. A autora principal Elisabetta Caffau afirmou o seguinte:

Uma teoria bastante aceite [big bang] prevê que estrelas como esta, com pouca massa e quantidades extremamente baixas de metais, não deveria existir uma vez que as nuvens do material a partir do qual elas se formaram nunca poderia condensar.
(The Star That Should Not Exist. European Southern Observatory press release, August 31, 2011. ) 

Mas a Física claramente mostra que as estrelas não se podem forma a partir de nuvens sem que ocorra um evento miraculoso e fortuito (Thomas, B. Does a Distant Galaxy Show Star Formation? ICR News. Posted on icr.org March 29, 2010).

De modo a que uma nuvem de gás quente condense e se torne numa estrela, o calor tem que escapar de alguma forma. Quanto mais densas as partículas de gás se tornam, mais quentes elas ficam, repelindo-se, desde logo, umas as outras de uma forma tão forte que elas nunca haveriam de condensar e formar uma estrela.

Numa reportagem recente, os pesquisadores teorizaram que “as linhas estruturas afinadas do carbono ionizado e do oxigénio neutral” poderiam dissipar quantidades suficientes do calor da nuvem de modo a que ela condense – e uma estrela seja formada – se a nuvem fosse comprimida por uma explosão estelar próxima (Caffau, E. et al. 2011. An extremely primitive star in the Galactic halo. Nature. 477 (7362): 67-69).

Mas esta “estrela anormal” não possui nem de perto nem de longe carbono ou oxigénio suficientes indicando que ela nunca poderia ser formada deste modo. Proporcionalmente, ela tem 20,000 vezes menos metais que o Sol (The Star That Should Not Exist. European Southern Observatory press release, August 31, 2011).

Surpreendentemente, a estrela também não possui lítio detectável, que se julga ser o terceiro elemento mais abundante presente na nuvem a partir da qual esta estrela alegadamente se formou.

Como forma de salvar as teorias naturalistas em torno da formação das estrelas, os autores do estudo tiveram que especular e dizer que, a dada altura, a estrela era extraordinariamente quente de modo a ter conseguido queimar todo o lítio. No entanto, os mesmos pesquisadores afirmam que os motivos físicos “para esta fusão não são inteiramente entendidos” (Caffau, E. et al. 2011. An extremely primitive star in the Galactic halo. Nature. 477 (7362): 67-69)

Uma vez que os atributos desta estrela estão em contradição óbvia com os modelos naturalistas da Física convencional, o estudo entreteve-se com a ideia duma nova “Física” que descreve “uma nucleossíntese [formação de elementos pesados] do Big bang diferente“. Ou seja, como a ciência actual não está de acordo com o “modelo evolutivo” aplicado à formação das estrelas, os naturalistas distorcem a ciência em vez de aceitarem que a sua interpretação dos dados está errada.
Mas porquê distorcer a Física para acomodar a cosmologia big bang quando a origem da estrela em questão é facilmente explicável com a metafísica? Quando todas as opções dentro do âmbito da Física falham em explicar a origem dum fenómeno, então as opções fora da Física devem ser consideradas e testadas à luz das evidências.No que toca à origem das estrelas no geral – esta em particular – a Palavra Daquele que existe fora do espaço físico declara que “[Deus] fez também as estrelas“ (Génesis 1:16). Confirma-se, portanto, que as estrelas “declaram as Glória de Deus” (Salmo 19:1) ao perturbarem todas as tentativas evolucionistas de substituir Deus pelo naturalismo.
 
 
 

Link com varios artigos contra a cosmovisão e alegações naturalistas:

http://darwinismo.wordpress.com/tag/naturalismo/

A prova científica de “O Nascimento Virginal”.

O nascimento virginal é um programa governamental patrocinado, ensinada nas escolas públicas.

Eu não estou brincando.

Não é apenas viável, é um negócio feito. FATO científico, por assim dizer.

Embora nos seja dito que é a teoria e fato, a teoria tem mais furos do que o corpo humano tem poros. Tudo entra por esses poros, mas o organismo que leva uma na informação é desviado por The Science of Theory.

Eu costumava sentar-se firmemente no outro lado deste debate. Infelizmente,eu me desinteressava  com um partido político. Isto deixa-me a afastar para mim mesma quando se trata da difícil tarefa de pensar. Última análise, somos todos especialistas no reino de experimentar nossas próprias vidas.

A explicação científica da matéria orgânica em evolução a partir de nada, assim não se sente bem comigo. Talvez seja porque origens entrópica se transformando em células altamente estruturado e organismos não foi explicado de uma forma que minha mente demasiadamente fraca, pode facilmente fazer uma abordagem. No entanto, nem tudo está perdido.

Eu ainda posso evoluir para um ser capaz de processar tais comprovados “processos”.

E a origem possível da vida e a origem das espécies não estão relacionados?

Deve haver casos – dados cientificamente confiáveis ​​- o que prova que isso aconteceu antes e / ou depois, não?

Porque “a origem das espécies” não explica a origem de todas as espécies, a evolução darwiniana lança método científico no meio do argumento de um” acaso “por exemplo.

A ciência se propõe:

1.) Termodinâmica é científica. 
2.) O Big Bang é soa como científico Evolução soa como científica 
# 1 não exclui # 3. # 2 dá-lhe alguns problemas, mas não descartá-la. No entanto, # 1 e # 2 parecem incompatíveis, já que a energia deve vir de algum lugar .

A Ressurreição não é contestado pela teoria evolutiva. Na verdade, é como sparklers sobre o 04 de julho. Cristo subindo do pales mortos em comparação com a ciência darwiniana: uma célula formada virgem, (sem pais), a partir do nada.

Toda forma de vida distintos criados a partir do auto-procriar celular Virgin em um planeta sem vida.

Felizmente, nossos dólares contribuintes educar os nossos jovens que o nascimento virgem é FATO.

(BANG!)

A complexidade da vida

A Complexidade da Vida (Parte I) – DNA

 

DNA with Features

Figura 1 – Estrutura de DNA (Fonte: FreePages).

 

A descoberta de que o DNA é a molécula genética primordial que contém toda a informação hereditária nos cromossomos atraiu imediatamente a atenção para sua estrutura. Esperava-se que o conhecimento da estrutura do DNA revelasse como o DNA transporta as mensagens genéticas que são replicadas quando os cromossomos se dividem, produzindo duas cópidas idênticas. No final da década de 1940 e no início da de 1950, vários grupos de pesquisa dos Estados Unidos e na Europa buscaram, com grande empenho – ao mesmo tempo cooperativo e competitivo –, entender como os átomos do DNA são mantidos unidos por ligações covalentes e como as moléculas resultantes estão organizadas no espaço tridimensional. Não é de surpreender que, na época, existissem idéias de que o DNA pudesse apresentar estruturas muito complicadas e talvez até bizarras, que diferiam radicalmente de um gene para outro. Foi um grande alívio, e uma alegria geral, descobrir que a estrutura fundamental do DNA é uma dupla hélice. Esta estrutura demonstrou que todos os genes apresentam basicamente a mesma forma tridimensional e que as diferenças entre dois genes encontram-se na ordem e no número de seus quatro nucleotídeos construtores ao longo das fitas complementares.

 

Atualmente, mais de 50 anos após a descoberta da dupla hélice, essa descrição simples do material genético continua a ser verdadeira, e não foi necessário fazer grandes alterações para acomodar as novas descobertas. Apesar disso, constatamos que a estrutura do DNA não é tão uniforme como primeiramente imaginado. Por exemplo, os cromossomos de alguns vírus pequenos são moléculas de fita simples e não dupla. Além disso, a orientação precisa dos pares de bases varia levemente para cada par de base, influenciada pela sequência local de DNA. Algumas sequencias de DNA até permitem que a dupla hélice se enrole para o lado esquerdo, oposto ao lado direito originalmente formulado para a estrutura geral do DNA. E, enquanto algumas moléculas de DNA são lineares, outras são circulares. Uma complexidade adicional também resulta do superenrolamento (torção adicional) da dupla hélice, frequentemente em torno de núcleos de proteínas ligadoras de DNA. [grifos nossos]

 

Da mesma forma, percebemos agora que o RNA, que à primeira vista parece muito semelhante ao DNA, tem características distintivas próprias. Ele é encontrado principalmente como uma molécula de fita simples. No entanto, através do pareamento de bases intracadeia, o RNA assume características de dupla hélice e é capaz de se dobrar em uma diversidade de estruturas terciárias. Essas estruturas são cheias de surpresa, como pareamentos de bases que não são tradicionais, interações base-esqueleto e configurações semelhantes a nós. Mais surpreendente, e de enorme relevância evolutiva, é que algumas moléculas de RNA são enzimas que promovem reações centrais na transferência de informação dos ácidos nucléicos para as proteínas. Claramente, as estruturas do DNA e do RNA são mais ricas e mais complexas do que originalmente observado. De fato, não existe uma estrutura genérica para DNA e RNA. Existem variações estruturais comuns localizadas que surgem a partir de propriedades físicas, químicas e topológicas únicas de uma cadeia polinucleotídica. [grifos nossos]

 

ESTRUTURA DO DNA

O DNA É COMPOSTO DE CADEIAS POLINUCLEOTÍDICAS

 

A característica mais importante do DNA é que, normalmente, ele é composto por duas cadeias polinucleotídicas enroladas uma ao redor da outra na forma de uma dupla hélice (Figura 1). A Figura 1 apresenta um diagrama esquemático da estrutura de dupla hélice. Note que, se for invertida 180° (por exemplo, se o livro for virado de cabeça para baixo), a dupla hélice parecerá superficialmente a mesma, devido à natureza complementar das duas fitas de DNA. O modelo de preenchimento para a dupla hélice (Figura 2), mostra os componentes (hidrogênio, oxigênio, carbono no éster de fosfato da cadeia, carbono e nitrogênio nas bases e fósforo) da molécula de DNA e suas posições relativas na estrutura helicoidal. O esqueleto de cada fita da hélice é composto por resíduos alternados de açucar e fosfato; as bases se projetam para o lado de dentro, mas estão acessíveis através das cavidades maior e menor.

 

dna

Figura 2 – Estrutura de DNA: modelo de preenchimento (Fonte: Blog CMDMC).

 

Iniciaremos considerando a natureza do nucleotídeo, o bloco construtor fundamental do DNA. O nucleotídeo consiste de um fosfato ligado a um açucar, conhecido como 2’-desoxirribose, ao qual a base está ligada. O fosfato e o açucar apresentam as estruturas mostradas na Figura 3. O açucar é uma 2’-desoxirribose porque não possui um grupo de hidroxila na posição 2’ (apenas dois hidrogênios). Podemos visualizar como as bases são ligadas ao açucar imaginando a remoção de uma molécula de água entre o grupo hidroxila do carbono 1’ do açucar e a base, formando a ligação glicosídica. O açucar ligado à base é chamado nucleosídeo [um nucleotídio incompleto]. Da mesma forma, podemos imaginar a ligação do fosfato ao açucar pela remoção de uma molécula de água entre o fosfato e o grupo hidroxila do carbono 5’, formando um 5’-fosfo-monoéster. A adição de um grupo fosfato (ou mais) a um nucleosídeo [base nitrogenada + açucar] dá origem a um nucleotídeo (Figura 3). Assim, um nucleotídeo é formado por uma ligação glicosídica entre a base e o açucar, e uma ligação fosfoéster entre o açucar e o ácido fosfórico.

 

fosfato

Figura 3 – Elementos químicos que compõe o nucleotídeo (Fonte: Blog TDBio).

 

Os nucleotídeos são, por sua vez, ligados entre si nas cadeias polinucleotídicas, através do grupo 3’-hidroxila da 2’-desoxirribose [açucar] de um nucleotídeo ao fosfato ligado ao grupo 5’-hidroxila do outro nucleotídeo. A ligação fosfodiéster, na qual o grupo fosforil está entre os dois nucleotídeos, então, possui um açucar esterificado através de um grupo 3’-hidroxila e um segundo açucar também esterificado através do grupo 5’-hidroxila. As ligações fosfodiéster criam o esqueleto repetitivo de açucar-fosfato da cadeia polinucleotídica, uma característica regular do DNA (Figura 4).

 

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Figura 4 – União dos nucleotídeos em cadeias polinucleotídicas (Fonte: Bio-Trabalho).

 

Em contraste, a ordem das bases ao longo da cadeia polinucleotídica é irregular. Esta irregularidade, junto com o comprimento extenso, são a base do enorme conteúdo informacional do DNA. As ligações fosfodiéster conferem uma polaridade inerente à cadeia de DNA. Essa polaridade é definida pela assimetria dos nucleotídeos e pela maneira como eles estão unidos. As cadeias de DNA apresentam um grupo 5’-fosfato ou um grupo 5’-hidroxila livre em uma extremidade, e um grupo 3’-fosfato ou 3’-hidroxila livre na outra extremidade. Convencionou-se escrever as sequências de DNA da extremidade 5’ (à esquerda) para a extremidade 3’, geralmente com um 5’-fosfato e uma 3’-hidroxila.

 

CADA BASE APRESENTA UMA FORMA TAUTOMÉRICA PREFERENCIAL

 

 

As bases no DNA classificam-se em dois tipos, purinas e pirimidinas. As purinas são a adenina e a guanina, e as pirimidinas são a citosina e a timina. As purinas derivam da estrutura de dóis anéis. A adenosina e a guanina compartilham essa estrutura geral, mas com diferentes grupos ligados. Da mesma forma, a citosina e a timina são variações da estrutura de um único anel, conforme observamos na Figura 5. Cada uma das bases existe em dois estados tautoméricos alternativos, os quais estão em equilíbrio entre si. O equilíbrio é bastante deslocado para o lado das estruturas convencionais, que representam os estados predominantes e importantes para o pareamento de bases. Os átomos de nitrogênio ligados aos anéis das purinas e das pirimidinas estão na forma amino no estado predominante e apenas raramente assumem a configuração imino. Da mesma forma, os átomos de oxigênio ligados à guanina e à timina normalmente estão na forma ceto e apenas raramente assumem a configuração enol.

 

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Figura 5 – Purinas e pirimidinas (Fonte: Biomarista).

 

AS DUAS FITAS DA DUPLA HÉLICE SÃO UNIDAS PELO PAREAMENTO DE BASES EM ORIENTAÇÃO ANTIPARALELA

 

A dupla hélice é composta por duas cadeias polinucleotídicas mantidas unidas por ligações não-covalentes fracas entre os pares de bases [pontes de hidrogênio]. A adenina em uma cadeia sempre está ligada por pareamento de bases com a timina na outra cadeia e, da mesma forma, a guanina sempre realiza o pareamento de bases com a citosina. As duas fitas apresentam a mesma geometria helicoidal, mas o pareamento de bases mantém as fitas unidas com a polaridade oposta. Ou seja, a base na extremidade 5’ de uma fita realiza o pareamento de bases com a extremidade 3’ da outra fita. Assim, as fitas apresentam uma orientação antiparalela. Essa orientação antiparalela é uma consequência estereoquímica do modo pelo qual a adenina e a timina, e a guanina e a citosina, pareiam entre si.

 

AS DUAS FITAS DA DUPLA HÉLICE APRESENTAM SEQUÊNCIAS COMPLEMENTARES

 

 

O pareamento entre a adenina [A] e a timina [T], e entre a guanina [G] e a citosina [C], resulta em uma relação de complementaridade entre a sequência das bases nas duas cadeias entrelaçadas e fornece ao DNA seu caráter autocodificador. Por exemplo, se a sequência 5’-ATGTC-3’ ocorre em uma cadeia, a cadeia oposta deverá apresentar a sequência complementar 3’-TACAG-5’. A rigidez das regras neste pareamento de “Watson-Crick” deriva da complementaridade da forma e das propriedades para formar pontes de hidrogênio entre a adenina e a timina e entre a guanina e a citosina. A adenina e a timina se combinam de maneira que uma ponte de hidrogênio pode ser formarda entre o grupo amino exocíclico do carbono sexto da adenina e o grupo carboxílico do carbono quarto da timina; e, da mesma forma, uma ponte de hidrogênio pode ser formada entre o nitrogênio primeiro da adenina e o nitrogênio terceiro da timina. Uma disposição equivalente pode ser delineada para uma guanina e uma citosina, de modo que existe complementaridade por pontes de hidrogênio e por forma no pareamento de bases. Um par de bases G:C possui três pontes de hidrogênio, porque o NH2 exocíclico no C2 da guanina está contraposto a um grupo carboxílico ao C2 da citosina, formando uma ponte de hidrogênio. Da mesma maneira, uma ponte de hidrogênio pode ser formada entre N1 da guanina e N3 da citosina e entre a carbonila no C6 da guanina e o NH2 exocíclico no C4 da citosina. O pareamento de bases do tipo “Watson-Crick” necessita que as bases estejam em seus estados tautoméricos preferenciais.

 

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Figura 6 – Pontes de hidrogênio ligando as bases nitrogenadas das cadeias polinucleotídicas complementares (Fonte: Biomania).

 

Uma característica importante da dupla hélice é que os dois pares de bases apresentam exatamente a mesma geometria; a presença de um par de bases A:T ou um G:C entre os dois açucares não perturba a disposição dos açucares, porque a distância entre os pontos de ligação do açucar é a mesma para ambos os pares de bases. O mesmo vale para T:A ou C:G. Em outras palavras, existe uma simetria aproximadamente bilateral que relaciona os dois açucares e as quatro bases, que podem ser acomodados dentro da mesma disposição sem qualquer distorção na estrutura geral do DNA. Além disso, os pares de bases podem ser empilhados em cima uns dos outros entre os dois esqueletos helicoidais de açucar-fosfato.

 

A FORMAÇÃO DE PONTES DE HIDROGÊNIO É IMPORTANTE PARA A ESPECIFICIDADE DO PAREAMENTO DE BASES

 

As pontes de hidrogênio [Figura 6, sequência de pontilhados ——— entre uma fita e outra] entre as bases complementares são uma característica essencial da dupla hélice, contribuindo para sua estabilidade termodinâmica e para a especificidade do pareamento de bases. A primeira vista, a formação de pontes de hidrogênio parece não contribuir de forma significativa para a estabilidade do DNA, pelas seguintes razões:

  • Uma molécula orgânica em solução aquosa tem suas propriedades de ligação por pontes de hidrogênio satisfeitas pelas moléculas de água que vêm e vão muito rapidamente. Como resultado, para cada ponte de hidrogênio que é formada quando um par de bases é constituído, ocorre o rompimento de uma das pontes de hidrogênio já existentes, antes da formação do par de bases, com a água. Assim, a contribuição energética líquida das pontes de hidrogênio para a estabilidade da dupla hélice poderia parecer modesta.

 

Entretanto, quando as fitas polinucleotídicas estão separadas, as moléculas de água estão alinhadas sobre as bases. Quando as fitas formam a dupla hélice, as moléculas de água são deslocadas das bases. Isso cria desordem e aumenta a entropia, estabilizando a dupla hélice. Uma segunda contribuição importante vem das interações de empilhamento entre as bases. As bases são moléculas planares, relativamente insolúveis em água, e tendem a se empilhar umas sobre as outras, aproximadamente em perpendicular à direção do eixo helicoidal. As interações das nuvens eletrônicas (r-r) entre as bases na pilha helicoidal contribuem de forma significativa para a estabilidade da dupla hélice.

 

A formação de pontes de hidrogênio também é importante para a especificidade do pareamento de bases. Suponha que tentemos parear uma adenina com uma citosina. Teríamos um receptor de ponte de hidrogênio (N1 da adenina) localizado do lado oposto a um receptor de ponte de hidrogênio (N3 da citosina) sem espaço para uma molécula de água posicionar-se entre eles e satisfazer aos dois receptores. Da mesma forma, dois doadores de pontes de hidrogênio, os grupos NH2 em C6 da adenina e em C4 da citosina, estariam localizados de forma oposta um em relação ao outro. Assim, um par de bases A:C seria instável, porque uma molécula de água teria de ser removida dos grupos doadores e receptores sem que a ponte de hidrogênio formada com o par de bases fosse restaurada.

 

AS BASES SÃO DESLOCADAS DA DUPLA HÉLICE

 

A energética da dupla hélice favorece o pareamento de cada base em uma fita polinucleotídica com a base complementar na outra fita. Às vezes, entretanto, algumas bases podem se projetar para fora da dupla hélice, pelo extraordinário fenômeno conhecido como deslocamento de bases. [grifos nossos] Isso é imporantíssimo para o DNA, pois determinadas enzimas que metilam bases ou removem bases danificadas, atuam sobre uma base em uma configuração extra-helicoidal, na qual a base é descolada para fora da dupla hélice, possibilitando o encaixe da base na cavidade catalítica da enzima. Além disso, acredita-se que as enzimas envolvidas na recombinação homóloga e no reparo do DNA vasculhem o DNA procurando homologias ou lesões deslocando a base após base. Esse processo não é energeticamente dispendioso porque apenas uma base é deslocada de cada vez. Obviamente, o DNA é mais flexível do que se poderia imaginar em um primeiro momento.

 

A DUPLA HÉLICE POSSUI CAVIDADES MENOR E MAIOR

 

Como resultado da estrutura duplo-helicoidal das duas cadeias, a molécula de DNA é um longo polímero estendido com duas cavidades que diferem em tamanho entre si. Por que existe uma cavidade menor e uma cavidade maior? Essa é uma consequência simples da geometria dos pares de bases. O ângulo no qual os dois açucares se projetam dos pares de bases (ou seja, o ângulo entre as ligações glicosídicas) é cerca de 120° (para o ângulo mais estreito ou de 240° para o ângulo mais aberto). Como resultado, a medida que mais pares de bases se empilham uns sobre os outros, o ângulo mais estreito entre os açucares em uma das extremidades dos pares de bases gera a cavidade menor, e o ângulo mais aberto, na outra extremidade, gera a cavidade maior. (Se os açucares estivessem afastados em uma linha reta, ou seja, formando um ângulo de 180°, então as duas cavidades seriam de dimensões iguais e não existiriam das cavidades maior e menor). Contudo, a cavidade maior é mais rica em informação química justamente por contemplar mais pares de bases empilhados.

 

AS FITAS DO DNA PODEM SER SEPARADAS (DESNATURADAS) E REASSOCIADAS

 

Como as duas fitas da dupla hélice são mantidas unidas por forças relativamente fracas (não-covalentes), seria esperado que as duas fitas pudessem ser facilmente separadas. De fato, a estrutura original para a dupla hélice sugeriu que a replicação do DNA poderia ocorrer apenas dessa maneira. As fitas complementares da dupla hélice também podem ser separadas quando uma solução de DNA é aquecida acima de temperatura fisiológica (próximo a 100°C) ou sob condições de pH elevado, em um processo conhecido como desnaturação. Entretanto, a separação completa das fitas do DNA por desnaturação é reversível. Quando soluções aquecidas de DNA desnaturado são resfriadas lentamente, as fitas simples frequentemente encontram suas fitas complementares e restauram as duplas hélices regulares. [grifos nossos]

 

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Figura 7 – Processo de desnaturação do DNA e sua reversibilidade (Fonte: University of Virginia).

A capacidade de renaturar moléculas de DNA desnaturadas permite que sejam formadas moléculas de DNA artificiais híbridas, pelo resfriamento lento de misturas de DNA desnaturado, oriundas de duas fontes diferentes. Da mesma forma, podem ser formados híbridos entre fitas complementares de DNA e RNA. A capacidade de formar híbridos entre dois ácidos nucléicos de fitas simples, chamada de hibridização é a base de diversas técnicas fundamentais na biologia molecular, como a hibridização por Southern blot e as análises de microarranjos de DNA.

TOPOLOGIA DO DNA

Como o DNA é uma estrutura flexível, seus parâmetros moleculares exatos são uma função do ambiente iônico que o rodeia e da natureza das proteínas que se ligam a ele, com as quais o DNA forma complexos. Como suas extremidades são livres, as moléculas lineares de DNA podem sofrer rotações livremente, acomodando as alterações no número de vezes que as duas cadeias da dupla hélice se torcem uma sobre a outra. Porém, se as duas extremidades estão covalentemente ligadas, formando uma molécula de DNA circular, e se não existem interrupções nos esqueletos açucar-fosfato das duas fitas, então, o número absoluto de vezes que as cadeias podem se torcer uma sobre a outra não pode variar.

 

O DNA circular covalentemente fechado é topologicamente limitado. Mesmo as moléculas lineares dos cromossomos eucarióticos estão sujeitas à limitações topológicas, devido a seus comprimentos extremos, entrelaçamentos na cromatina e interações com outros componentes celulares. Apesar dessas limitações, o DNA participa de inúmeros processos dinâmicos na célula. Por exemplo, as duas fitas da dupla hélice, que estão torcidas uma sobre a outra, devem ser separadas rapidamente, a sim de serem duplicadas e transcritas em RNA. Assim, o entendimento da topologia do DNA e de como a célula acomoda e explora as limitações topológicas durante a replicação, a transcrição e outras atividades cromossômicas são de fundamental importância na biologia molecular.

 

Fonte:

WATSON, James D.; BAKER, Tania A.; BELL, Stephen P.; GANN, Alexander; LEVINE, Michael & LOSICK, Richard. Biologia molecular do gene. 5° edição. Artmed, 2006. p. 97-122.

 

 

“Ele fez a Terra pelo Seu poder; estabeleceu o mundo por Sua sabedoria e com a Sua inteligência estendeu os céus” (Jeremias 51:15)