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A Bíblia condena a poligamia?

Deus condena a poligamia. Dificilmente um cristão negaria essa afirmação. Mas se isso é verdade, então por que Deus permitiu que Salomão tivesse setecentas mulheres e trezentas concubinas, segundo consta em 1 Reis 11.3?

Norman Geisler e Thomas Howe apresentam uma resposta:

A monogamia é o padrão de Deus para os homens. Isso está claro nos seguintes fatos: (1) Desde o princípio Deus estabeleceu este padrão ao criar o relacionamento monogâmico de um homem com uma mulher, Adão e Eva (Gn 1:27; 2:21-25). (2) Esta ficou sendo a prática geral da raça humana (Gn 4:1), seguindo o exemplo estabelecido por Deus, até que o pecado a interrompeu (Gn 4:23). (3) A Lei de Moisés claramente ordena: “Tampouco para si multiplicará mulheres” (Dt 17:17). (4) A advertência contra a poligamia é repetida na própria passagem que dá o número das muitas mulheres de Salomão (1 Reis 11:2): “Não caseis com elas, nem casem elas convosco”. (5) Jesus reafirmou a intenção original de Deus ao citar esta passagem (Mt 19:4) e ao observar que Deus “os fez homem e mulher” e os juntou em casamento. (6) O NT enfatiza que “cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido” (1 Co 7:2). (7) De igual forma, Paulo insistiu que o líder da igreja deveria ser “esposo de uma só mulher” (1 Tm 3:2; 12). (8) Na verdade, o casamento monogâmico é uma prefiguração do relacionamento entre Cristo e sua noiva, a Igreja (Ef 5:31-32).

A poligamia nunca foi estabelecida por Deus para nenhum povo, sob circunstância alguma. De fato, a Bíblia revela que Deus puniu severamente aqueles que a praticaram, como se pode ver pelo seguinte: (1) A primeira referência à poligamia ocorreu no contexto de uma sociedade pecadora em rebelião contra Deus, na qual o assassino “Lameque tomou para si duas esposas” (GN 4:19,23). (2) Deus repetidamente advertiu ou polígamos quanto às conseqüências de seus atos: “para que o seu coração se não desvie” de Deus (Dt 17:17; cf. 1 Rs 11:2). (3) Deus nunca ordenou a poligamia – como o divórcio, ele somente a permitiu por causa da dureza do coração do homem (Dt 24:1; Mt 19:8). (4) Todo praticante da poligamia na Bíblia, incluindo Davi e Salomão (1 Crônicas 14:3), pagou um alto preço por seu pecado. (5) Deus odeia a poligamia, assim como o divórcio, porque ela destrói o seu ideal para a família (cf. Ml 2:16).

Em resumo, a monogamia é ensinada na Bíblia de várias maneiras: (1) pelo exemplo precedente, já que Deus deu ao primeiro homem apenas uma mulher; (2) pela proporção, já que as quantidades de homens e mulheres que Deus traz ao mundo são praticamente iguais; (3) por preceito, já que tanto o AT como o NT a ordenam (veja os versículos acima); (4) pela punição, já que Deus puniu aqueles que violaram o seu padrão (1 Rs 11:2); e (5) por prefiguração, já que o casamento de um homem com uma mulher é uma tipologia de Cristo e sua noiva, a Igreja (Ef 5:31-32). Apenas porque a Bíblia relata o pecado de poligamia praticado por Salomão, não significa que Deus a aprove1.

Nota

1. GEISLER, Norman L e HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Traduzido por Milton Azevedo Andrade. São Paulo: Mundo Cristão, 1999. P. 191,192.

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Havia Morte Antes de Adão?

Por Dr. John Ankerberg e Dr. Norman Geisler

Tradução: Juliana Cambiucci Pereira

Os defensores [do Criacionismo] da Terra Nova[1] negam que haveria morte antes da queda de Adão. Eles afirmam que a Bíblia declara que a morte veio apenas após Adão como resultado do seu pecado: “da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Rom. 5:12; cf. 8:20-22).

Dr. Geisler responde dizendo que há vários problemas nesse argumento. Primeiro, Romanos 5:12 não diz que todos os animais morrem por causa do pecado de Adão, mas que apenas “todos os homens” morrem como conseqüência. Segundo, Romanos 8 não diz que os animais morrem como resultado do pecado de Adão, mas que apenas a criação “foi submetida à inutilidade” como resultado disso (v.20). Terceiro, se Adão comia qualquer coisa – e ele tinha que comer para sobreviver – então ao menos as plantas deveriam morrer antes do seu pecado. Quarto, e finalmente, a evidência de fósseis indica que os animais morriam antes dos humanos morrerem, de modo que o homem se encontra no topo do Estrato Geológico (mais recente), e os animais então em níveis inferiores do Estrato (mais antigos).

Deixe-me acrescentar alguns pensamentos adicionais aos que o Dr. Geisler escreveu:

Romanos 5:12 diz: “Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram”. Aqui aprendemos:

1) Através do ato de rebelião de Adão o pecado entrou no mundo.

2) A morte resultou do pecado – mas para quem?

3) A morte se difundiu por todos os homens.

4) A morte se difundiu por todos os homens porque todos pecaram.

5) Note, não diz que a morte se difundiu para todos os animais – e sim para todos os homens.

6) Além disso, que tipo de morte o Apóstolo Paulo fala? Lembre-se a Bíblia descreve 5 tipos de morte:

a) Morte física – a morte do corpo (Tiago 2:26)

b) Morte espiritual ou separação de Deus (Rom. 6:23; Ef. 4:18).

c) Morte eterna – a segunda morte (Ap. 20:14).

d) Morte para a lei (Rom. 7:14).

e) Morte para o pecado (Rom. 6:12)

Em Romanos 5:12, o Apóstolo se refere primariamente a “b” – morte espiritual. Genesis 2:15-17 nos diz o porquê:

O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo. E o Senhor Deus ordenou ao homem: ‘Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá.

Deus disse especificamente para Adão e Eva que no dia em que eles comessem do fruto proibido eles certamente morreriam. Eles morreram fisicamente naquele dia? Não. Depois de pecarem, Adão e Eva continuavam caminhando. De fato, Adão viveu 930 anos de idade. Eles cultivaram a terra e tiveram filhos.

A morte especificada em Gênesis 2 e 3 por Paulo, em Romanos 5 deve ser a morte espiritual. Quando Adão pecou, ele instantaneamente “morreu” como Deus tinha dito. Ele permaneceu vivo de forma física, mental, voluntária e emocional, mas espiritualmente ele morreu. Isto é, o homem quebrou sua companhia harmoniosa com Deus e iniciou sua inclinação ou propensão ao pecado (seu lugar apropriado abaixo de Deus). Esta é a chamada “Doutrina do Pecado Original” (não um pecado em particular, mas a tendência inerente ao pecado entrou no reino humano quando o homem se tornou pecador por natureza).

Considerando:

1) A morte pelo pecado a que Paulo se refere não é equivalente à morte física. Se fosse, Adão e Eva teriam fisicamente morrido no dia em que comeram da árvore. A Bíblia fala primeiramente da morte espiritual resultando do pecado.

2) Apenas os humanos mereceram o título de “pecadores”. Apenas os humanos podem sofrer a morte através do pecado. Animais não pecam e não são chamados de pecadores na Bíblia. Além disso, não é oferecido aos animais o presente da vida eterna se eles se arrependerem.

3) A morte que Adão experimentou está cuidadosamente qualificada pelo Apóstolo Paulo em Romanos 5:12. Ele escreveu “a morte veio a todos os homens” – não para todas as plantas e animais – apenas para seres humanos.

Note também em Romanos 5:18 “Conseqüentemente, assim como uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens, assim também um só ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens.” Aqui, Paulo fala sobre a queda do homem, sua morte espiritual e separação de Deus e a salvação de Deus através da morte de Cristo para conceder a salvação que pode encobrir o pecado de todos os homens. Eles devem receber esse presente pela fé em Cristo.

4) Além da morte espiritual, o homem se tornou mortal, sujeito às misérias dessa vida, e excluído da possibilidade de existir fisicamente para sempre. Em outras palavras, como resultado da Queda, Deus condenou Adão a uma expectativa de vida limitada e ao fato certo da morte física no futuro. Deus retirou o acesso à árvore no jardim que dava a Adão e Eva o potencial para a vida física eterna. Como sabemos? As Escrituras nos dizem em Genese 3:22-24.

Então disse o Senhor Deus: “Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre“. Por isso o Senhor Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado. Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida.

Aparentemente, Adão e Eva tinham o potencial para a vida física eterna antes, e mesmo após pecarem. John MacArthur comentou em seu Estudo da Bíblia em relação a esses versos:

Deus disse ao homem que ele certamente morreria se comesse da árvore proibida. Mas a preocupação de Deus também pode ter sido de que o homem não vivesse para sempre em sua condição lamentável e amaldiçoada. Tomado no contexto mais amplo da Escritura, expulsar o homem e sua esposa do jardim foi um ato de graça misericordiosa prevenindo-os de serem sustentados para sempre pela árvore da vida.

Novamente, antes da Queda, Deus fez provisões para Adão e Eva sustentarem suas vidas físicas para sempre; mas após desobedecerem a Deus, não apenas lhes sucedeu a morte espiritual imediata, como também Deus os amaldiçoou e lhes disse que iriam, um dia, morrer fisicamente por terem sido excluídos da árvore da vida.

Em Gênesis 3:17-19 está escrito: “E ao homem declarou: ‘Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual eu lhe ordenara que não comesse, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. Ela lhe dará espinhos e ervas daninhas, e você terá que alimentar-se das plantas do campo. Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará’.”

Todos os Cristãos acreditam que quando Adão e Eva pecaram, trouxeram a morte espiritual imediata e a certeza da futura morte física. Os Cristãos também acreditam que o pecado original veio à existência naquele tempo. Além disso, Cristo é o único meio para a condição pecaminosa do homem. Mas os fatos não autorizam que os Cristãos creiam que a vida animal e vegetal morressem apenas após Adão e Eva pecarem.

Mas como a Queda afetou a natureza? Qual é o significado de Romanos 8:20-22, onde isso se expressa: “Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade [futilidade], não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora;”

As palavras “futilidade” ou “vaidade” referem-se à inabilidade de alcançar um objetivo ou propósito. Toda a criação é personificada para ser, como foi, esperançosa pela transformação de sua maldição e seus efeitos. Por causa do pecado do homem, Deus amaldiçoou o universo físico e agora nenhuma parte da criação realiza inteiramente o propósito original de Deus.

Alguns interpretam esse verso dizendo que o pecado de Adão conduziu para dentro da criação todo o tipo de deterioração natural, dor e morte. Eles supõem que a lei da entropia que descreve a diminuição da ordem no universo, não tinha efeito até o pecado de Adão e Eva. Baseado nessa hipótese, o tempo entre a criação do universo e a queda de Adão e Eva deve ser breve para explicar por que as evidências físicas não mostram nenhum período em que a deterioração e a morte não estavam em operação.

Mas existem vários problemas com essa interpretação. Primeiro, se alguém sustenta a hipótese do dia de 24 horas, em que Deus levou seis dias para criar tudo, então, de acordo com Romanos 8:22, “toda a criação” deve incluir o universo e todas as estrelas. Mas se assim for, as estrelas não brilharam após o primeiro dia? Os físicos insistem que as estrelas estavam brilhando e que a entropia estava ocorrendo naquele ponto. Se esse for o caso, então a deterioração estava presente desde o primeiro dia.

Como o Dr. Hugh escreveu em The Genesis Question [A Questão de Gênesis]:

Quando consideramos que a segunda lei da termodinâmica é essencial para a existência da vida, essencial para a alimentação, mobilidade e outras atividades incontáveis que a maioria de nós concorda ser agradáveis e boas, não vemos razão para sugerir que a lei deve ser julgada como ruim. As leis da termodinâmica foram incluídas quando Deus declarou Sua criação como “muito boa” (Genesis 1:31).

Devemos ser cuidadosos, porém, para não confundir a criação muito boa de Deus com Sua melhor criação, ou mais especificamente, o objetivo final para Sua criação. Na nova criação não haverá leis da termodinâmica – nenhuma deterioração, nenhum frustração, nenhum gemido, nenhum sofrimento (veja Apocalipse 21:1-5). As leis da termodinâmica são boas, apesar do “sofrimento”, da “frustração” e “gemidos”, porque elas são parte da estratégia de Deus para preparar Sua criação a aproveitar as bênçãos e recompensas da nova criação.

Então, se Adão e Eva fizeram algum trabalho no Jardim, então uma perda de energia e uma certa quantidade de deterioração estava presente. Por quê? Porque o trabalho é essencial para a respiração, circulação do sangue, contração muscular e digestão do alimento. Esses são todos processos que virtualmente sustentam a vida. Adão estava trabalhando, supervisionando o Jardim do Éden (Gen. 2:15) antes de pecar. Então, Romanos 8:20-22 não poderia indicar que o pecado de Adão iniciou todo o processo de deterioração.

Quando Paulo se refere ao “gemido” da criação, a que outros efeitos da maldição ele se refere? Poderia ser que em Genesis 1:28 Deus ordenou ao homem que supervisionasse o ambiente, mas como o homem pecou, o ambiente foi arruinado. O efeito do homem no ambiente é aproximadamente análogo ao resultado de mandar uma criança de 2 anos de idade arrumar o armário. Deixado de lado, o armário se tornará menos arrumado devido à tendência natural à decadência e à desordem. Entretanto, tipicamente, a criança de 2 anos de idade irá apressar o processo de decadência e desordem. Isaias 24:5 descreve a destruição do planeta que resulta da insubordinação do ser humano a Deus. Da mesma forma como se deve esperar que uma criança de 2 anos cresça um pouco antes que ajude a arrumar o armário, a criação também espera que a raça humana experimente os resultados de Deus subjugar o problema do pecado.

Mesmo os pais da Igreja, como Orígenes, que viveram de 185 a 254 d.C., interpretaram Romanos 8:20-22 indicando que a decadência estava em vigor no mundo natural desde a criação do universo. Visto que Orígenes precedeu a descoberta científica das leis da termodinâmica e entropia (que inclui o princípio da decadência) por centenas de anos, está claro que ele não surgiu com sua interpretação como resultado de uma tentativa de adaptação às modernas teorias científicas de seu tempo.

Existem outras razões que nos dizem que a dor física e a decadência devem ter existido antes da Queda? Sim. Em Gênesis 3:16 Deus disse à Eva “Multiplicarei grandemente a dor da tua conceição; em dor darás à luz filhos.”. Ele não diz “introduzir”. Ele diz, “aumentar” ou “multiplicar”, implicando que deve ter havido alguma dor em qualquer caso.

Como Philip Yancey mostrou tão claramente em seu livro Onde está Deus quando chega a dor? (Editora Vida), alguma dor é boa. É bom que quando eu coloco minha mão no fogo, a dor me avise do perigo. Se a dor não estivesse ali, não saberia que meus dedos estariam queimando. A dor é a maneira de Deus evitar que destruíssemos nós mesmos. Adão e Eva certamente tinham que usar o tato e podiam sentir dor no Jardim antes da Queda. Eles deveriam ter um sistema nervoso que os protegessem que qualquer perigo em seu ambiente no Jardim. Eles deveriam ser capazes de sentir a picada de uma abelha, ou que estavam se envenenando ou de serem furados por um espinho. Quando Adão e Eva pecaram, As conseqüências e o risco da dor e sacrifício não começaram, eles simplesmente aumentaram.

Enquanto o pecado que nós seres humanos cometemos causa naturalmente em nós uma reação negativa à decadência, ao trabalho, à morte física, à dor e ao sofrimento, e enquanto tudo isso está ultimamente ligado de alguma forma aos planos de Deus para conquistar o pecado permanentemente, não há nada nas Escrituras que nos force a concluir que nenhuma dessas entidades existiram antes do primeiro ato de rebelião de Adão contra Deus. Por outro lado, a revelação de Deus através da natureza fornece evidências decisivas de que alguns desses fatores existiram por um longo período antes da criação de Adão.

A Morte dos Animais: Como isso se relaciona com a Expiação?

Outra questão que emerge é esta. Se os animais morriam antes da Queda, isso não afeta a doutrina bíblica de Expiação? Alguns citam Hebreus 9:22, que diz, “De fato, segundo a Lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não há perdão.” Eles interpretam esses versículos para dizer que “A base da mensagem do evangelho é que Deus trouxe morte e derramamento de sangue por causa do pecado. Se a morte e o derramamento de sangue de animais (ou do homem) existissem antes de Adão pecar, então toda a base da expiação – a base da redenção – é destruída.”

Mas essa é uma interpretação bíblica defeituosa. Embora seja verdade que não há remissão de pecado sem derramamento de sangue, o sangue de Cristo, não segue necessariamente que todo sangue derramado é para a remissão do pecado. Dizer que não houve derramamento de sangue antes do pecado é cometer os mesmo erros de interpretação bíblica feita por aqueles que reivindicam que não houve tempestade antes do Dilúvio de Gênesis.

Hebreus 10:1-4 explica que o sangue dos animais sacrificados não eliminará o pecado. O sacrifício pela morte de animais foi um retrato físico da morte espiritual causada pelo pecado, que necessitava da morte como um substituto para a expiação, bem como o prenúncio do último sacrifício eficaz que Deus, ele mesmo, um dia providenciaria. Desde que a pena para o pecado é a morte espiritual, nenhum sacrifício de animais poderia sequer reparar o pecado. O crime é espiritual, então a expiação tinha que ser feita por um ser espiritual.

O derramamento de sangue antes de Adão pecar não afeta ou prejudica, de nenhuma maneira, a doutrina da Expiação. Sustentar esta doutrina central não exige de forma alguma um cenário de criação em que nenhuma das criaturas de Deus recebeu um arranhão ou um sangramento de ferida antes do pecado de Adão e Eva. Mesmo em um ambiente natural ideal, os animais seriam constantemente arranhados, picados, machucados e mesmo mortos uns pelos outros e por eventos acidentais.


[1] Nota do Editor: Existem diversas interpretações para o significado de “dias” em Gênesis 1. O autor deste artigo critica a interpretação defendida pelos Criacionistas da Terra Nova, os quais afirmam que o mundo foi criado em seis dias literais de 24 horas.

O artigo original em inglês está no site do Ankerberg Theological Research Institute.

fonte do artigo : http://www.apologia.com.br/?p=513#more-513

Deus é bondoso,justo,amoroso?

Moralidade Ordenada por Deus e Voluntarismo

Tradução: Eliel Vieira

Caro Dr. Craig,

Eu sou ateu. Eu ouvi alguns de seus podcasts, mais especificamente aqueles dois discutindo as atrocidades do Antigo Testamento e o fundamento objetivo da moralidade e percebi uma contradição: Existe de fato uma diferença entre “moralidade ordenada por Deus” (uma teoria que você defendeu em um podcast) e “voluntarismo” (ao qual você se opôs em outro)?

No podcast de 3 de Março de 2008, “Did God Commit Atrocities?” [Deus cometeu atrocidades?], após lançar dúvida sobre a doutrina da inerrância bíblica em relação aos relatos do Antigo Testamento de massacres em massa como estes tendo sido ordenados por Deus (o que pareceria haver ramificações, dado sua forte defesa da confiabilidade de episódios bíblicos como a tumba vazia) você sai em defesa da opção alternativa, ao assumir a validade das histórias de atrocidades, colocando-as, obviamente, em “contexto”.

Você emprega o conceito de “moralidade ordenada por Deus”, descrita (grosso modo) como uma teoria ética na qual nossos valores morais são constituídos pelos comandos de Deus: São as ordens de Deus que nos dizem o que é certo e errado, são eles que determinam o que devemos ou não fazer. Se Deus dá a você uma ordem para fazer algo, isto se torna seu valor moral. Na verdade, seria errado a você não obedecer à ordem. Uma vez que Deus não dá ordens a si mesmo, ele não possui obrigações morais para cumprir, na verdade, ele simplesmente age de acordo com sua natureza, que é amor, bondade, compaixão, etc.

Você então lava suas mãos sobre os cananeus e suas crianças descartáveis: Deus não está sob nenhuma obrigação de prolongar a vida de ninguém. A vida é um presente de Deus, ele não possui obrigação moral de prolongá-la. Ele pode fazer de sua vida como lhe aprouver. Deus não está sob nenhuma obrigação moral de prolongar a vida destes cananeus, mesmo as crianças. Crianças morrem o tempo todo no mundo por doenças, acidentes e vários tipos de coisas.

 

UNICEF Photo of the Year 2011 / Photo: JM Lopez

 

Eu não estou tão animado assim em atribuir um rosário de belos adjetivos, repetidos em seus podcasts (“amoroso”, “justo”, “bondoso”, “compassivo”) a um ser superior que cometeria tais atos. Eu imagino que os cananeus tinham uma visão diferente sobre o deus hebreu Yahweh.

Mas deixando isto de lado, sua abordagem não torna a moralidade de Deus subjetiva?

Na visão que você defendeu em seu podcast, moralidade é na verdade simplesmente o que Deus diz que devemos fazer: Em alguns momentos é bom realizar matanças, algumas vezes não. Deus é um relativista moral?

 

01[1]

 

No entanto, quatro semanas mais tarde você defende a idéia de que a moralidade é objetivamente fundamentada, em aparente conflito com o conceito da “moralidade ordenada por Deus” (31 de Março de 2008, “How Are Morals Objectively Grounded in God?” [Como a Objetividade da Moral está Fundamentada em Deus?]). Você defende que os valores morais são definidos por Deus, que ele é o padrão da bondade, e indo mais além, você critica a visão alternativa. Você diz que se os valores morais fossem simplesmente fundamentados na vontade divina, se Deus apenas tivesse dito o que é certo e errado arbitrariamente, então isto seria de fato um ultimado para a subjetividade – “voluntarismo”, como você disse – a visão de que a vontade de Deus apenas decide o que é bom ou mal, certo ou errado.

No entanto, não decidiu Deus o que era bom ou mal quando ele ordenou o massacre dos cananeus? O que antes era proibido passou agora a ser obrigatório.
Como este “voluntarismo” é diferente da “moralidade ordenada por Deus”?

Clay

Resposta do Dr. William Lane Craig:

Estou feliz por ver que você se interessa pelo material do ReasonableFaith.org, Clay, e espero que os materiais daqui levem você a questionar seu ateísmo. Isto não seria alguma coisa, caso Deus de fato exista?

O voluntarismo é uma visão, defendida por alguns teólogos, de acordo com a qual os valores morais são baseados inteiramente na vontade soberana de Deus. Não existe explicação a não ser a escolha de Deus sobre os valores morais. Ele arbitrariamente escolhe o que é bom e o que é ruim.

A vasta maioria dos pensadores cristãos não tem sido voluntaristas. Eu acho que o voluntarismo se sente mais em casa no Islã do que no Cristianismo, porque na concepção islâmica de Deus, Seu poder triunfa sobre todas as coisas, até mesmo sobre Seu caráter. Em contraste, os teólogos cristãos acreditam que Deus tem algumas virtudes essenciais, como amor, imparcialidade, compaixão, justiça, etc. Estas virtudes são tão essenciais a Deus como são três ângulos a um triângulo.

 

 

Um dos insights positivos do voluntarismo, em minha opinião, é que os valores que temos surgem em resposta a uma ordem imperativa. Um comando vindo de uma autoridade legítima cria uma obrigação ou uma proibição a nós. Bem e mal sozinhos não são suficientes para o certo e o errado porque “bem” e “mal” não criam obrigações ou proibições. Muitas coisas seriam boas para fazermos, mas isto por si só não implica que nós somos obrigados a fazê-las, porque elas podem ser mutuamente exclusivas e então seriam impossíveis de se fazer. Então o voluntarismo localiza corretamente a fonte de nossos valores morais nos comandos de Deus.

O voluntarismo erra quando pensa que estes comandos são totalmente arbitrários. Eles não são arbitrários, mas fundamentados na natureza de um Deus justo e amoroso. Portanto, a maior parte dos teóricos sobre os comandos divinos não são voluntaristas.

O difícil para os teístas bíblicos é explicar sobre as ordens de Deus que parecem contradizer a Sua natureza, como a ordem ao exército de Israel para exterminar o povo de Canaã[1]. Os teístas bíblicos precisam mostrar como tais ordens podem ser consistentes com a natureza de Deus. Na Questão da Semana #16, eu tentei dar esta explicação. Como eu tentei mostrar lá, Deus não torna ninguém errado ao emitir tal ordem e Ele tinha bons motivos para tê-la dado.

Se tal defesa falhar, a alternativa será abandonar a historicidade destas histórias (ironicamente, exatamente a posição de muitos críticos do Antigo Testamento, que tomam estas históricas como lendas de Israel) ou então defender que os judeus equivocadamente pensaram que Deus os ordenou a exterminar os cananeus. Seria ingenuidade in excelsis pensar que ao adotar a primeira alternativa estaríamos minando de alguma forma a precisão histórica dos evangelhos do Novo Testamento. Da mesma forma seria minada a credibilidade histórica de Tucídides e Heródoto se alguém reconhecesse o caráter místico da Ilíada de Homero!

Você está correto quando diz que os cananeus tinham uma visão muito diferente de Deus do que Israel. Após ter escrito a Questão da Semana #16 eu tive a oportunidade de ler um ensaio emocionante de Clay Jones sobre a cultura, religião e modos dos cananeus em uma versão especial de Philosophia Christi dedicada ao problema que estamos tratando[2]. Eu sabia que as tribos cananéias eram corruptas, mas eu devo dizer que eu não tinha idéia da degradação e da imundice da qual eles descendiam. Como eles viam El, o Deus de Israel? Textos ugaríticos retratam-no como um fraco, usurpado por Baal, e imundo em seus próprios excrementos e urina. Em contraste, no pensamento de Israel sobre o Deus, Ele não traria julgamento sobre Sodoma se existissem pelo menos dez pessoas corretas em toda cidade. Ele esperou por 400 anos até que as tribos cananéias tão corruptas a pnto de não poderem escapar de julgamento.

Então eu acho que está claro que a visão de Deus que eu defendo não é de moral relativista, nem subjetivista. Deus tinha razões morais suficientes para justificar o que Ele ordenou os israelitas a fazerem, razões que não são contrárias à sua natureza. A ordem de Deus para que os israelitas limpassem a terra dos cananeus não foi arbitrária, como se Ele estivesse “decidindo o que era bom ou mal”. Esta ordem foi um ato de julgamento pela pecaminosidade do povo, que havia sido adiado por muito tempo.

Notas:
[1] Uma observação: após escrever minha resposta na “Questão da Semana #16”, eu percebi que a ordem de Deus ao povo de Israel não era para exterminar os cananeus, como muitos pensam. A ordem primeiramente era para retirá-los da terra. O julgamento sobre os reinos cananeus era despojá-los de suas terras e assim destruí-los como reinos. O povo cananeu fugiu antes do avanço do exército de Israel, e não houve ordens para que os israelitas os perseguissem e os matassem. Ninguém tinha que morrer, somente aqueles que ficaram para trás pelos motivos que descrevi. Nós na verdade não sabemos com certeza se entre os que ficaram haviam mulheres e crianças, ou apenas soldados. Mas estou pressupondo aqui o “pior cenário” para o bem do argumento.

[2] “We Don’t Hate Sin, So We Don’t Understand What Happened to the Canaanites: An Addendum to ‘Divine Genocide’ Arguments,” Philosophia Christi 11/1 (2009): 52-72.

 

 

O problema do inferno.

Poderia um Deus amoroso mandar pessoas para o inferno?

Tradução de Tatiana Teles Luques dos Santos

 

 

O filósofo cristão Dr. William Lane Craig e o filósofo ateu Dr. Ray Bradley debateram sobre a questão “poderia um Deus amoroso mandar pessoas para o inferno?” na Universidade Simon Fraser, Canadá, em 1994.

Este texto é a transcrição do discurso inicial do Dr. Craig.

Argumentos Introdutórios do Dr. Craig

Obrigado. “Se Deus realmente é amor, então como pode mandar alguém para o inferno?” A questão é quase um vexame para os cristãos hoje. Por um lado, a Bíblia ensina que Deus é amor, e ainda, por outro lado, adverte sobre aqueles que rejeitam a Deus perante a punição eterna, e contém avisos freqüentes sobre o perigo de ir para o inferno. Mas não são ambas de alguma forma inconsistentes uma com a outra? Bem, muitas pessoas parecem pensar que são inconsistentes, mas na verdade isto não é de todo óbvio. Afinal, não existe uma contradição explícita entre elas. A frase “Deus é amor” e “Algumas pessoas vão para o inferno” não são explicitamente contraditórias. Então se essas são ambas inconsistentes, devem existir algumas pressuposições implícitas que serviriam para extrair a contradição e torná-la explícita.

Mas quais são essas pressuposições? Parece a mim que o difamador do inferno está fazendo duas pressuposições cruciais. Primeiro, afirma que se Deus é Todo-Poderoso, então pode criar um mundo no qual todos escolhem livremente dar sua vida a Deus e serem salvos. Segundo, afirma que se Deus é amor, então prefere um mundo no qual todos escolhem livremente dar sua vida a Deus e serem salvos. Desde que Deus é desejoso e capaz de criar um mundo em que todos são salvos livremente, segue-se que ninguém vai para o inferno.

Agora perceba que ambas afirmações tem que ser necessariamente verdadeiras, para provar que Deus e o inferno são logicamente inconsistentes um com o outro. Então, sendo que existe até uma possibilidade de uma das afirmações ser falsa, é possível que Deus é amor e que ainda assim algumas pessoas vão para o inferno. Além disso, o oponente do inferno tem que sustentar um ônus pesado de provas, inclusive. Ele tem que provar que ambas afirmações são necessariamente verdadeiras.

Mas de fato, parece a mim que nenhuma dessas afirmações é necessariamente verdadeira. Para explicar isso, permita-me explanar para você o ensino cristão a respeito de Deus e do inferno. De acordo com a Bíblia, a natureza de Deus é tanto justiça perfeita quanto amor perfeito. Ambas são igualmente poderosas, e nenhuma delas pode ser comprometida. Vamos olhar primeiramente para a justiça de Deus. Estava conversando com um aluno, uma vez, a respeito de sua necessidade de salvação, e ele disse a mim “Confio na justiça de Deus. Não acho que poderia existir alguém que fosse mais reto ou justo que Deus. Tenho a plena certeza em sua decisão”. Agora isto é verdadeiro. Deus é reto. Totalmente justo. Ele não tem contas a acertar. Não está aí para pegar você. Ele é o mais competente, inteligente, imparcial e mais justo juiz que você terá. Ninguém terá uma decisão bombástica numa cadeira durante o julgamento de Deus. Todos os humanos podem ficar garantidos de uma justiça absoluta.

Mas isto é precisamente o problema! Porque a justiça de Deus expõe a inadequação humana. A Bíblia diz que todas as pessoas falharam em viver a lei moral divina e então se encontram culpados perante Deus. A palavra bíblica para esta falha moral é pecado. A Bíblia diz que “Todos estão debaixo do poder do pecado. Não há um justo; não, um justo sequer; todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:10, 12 e 23).

Então percebemos que estamos debaixo da lei da justiça divina. Você colhe o que planta. A Bíblia diz, “Não se enganem; Deus não se deixa escarnecer. Aquilo que o homem plantar, isso também colherá. O que planta na sua carne, da carne colherá a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna”, (Gal. 6:7-8). O profeta Ezequiel declarou, “a alma que pecar essa morrerá” (Ez. 18:4), e o apóstolo Paulo ecoa, “O salário do pecado é a morte” (Rom. 6:23). Você colhe o que planta. Você colhe o que planta. Está é a justiça em sua forma mais pura.

O único problema é que ninguém é perfeito! Então, se confiamos somente na justiça de Deus, nos afundaremos! Não há ninguém que mereça ir ao céu. Ninguém é bom o bastante! Então se dependemos da justiça de Deus, a temos. E está tudo certo.

Portanto, devemos colocarmo-nos na misericórdia de Deus. Mesmo quando somos culpados e merecemos morrer, Deus ainda nos ama. Algumas vezes as pessoas tem a idéia de que Deus é um tipo de tirano cósmico lá em cima, querendo pegar-nos. Mas esta não é a compreensão cristã de Deus. Escute o que a Bíblia diz, “’Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio?’Diz o Senhor Deus, ‘Não desejo antes que se converta dos seus caminhos e viva? Porque não tenho prazer na morte do que morre’, diz o Senhor Deus, ‘convertei-vos, pois, e vivei. Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? (Ez. 18.23,32; 33.11).

Aqui Deus invoca literalmente as pessoas para retornarem de seus caminhos destrutivos e serem salvos. E no Novo Testamento diz, “o Senhor não está querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9). “Quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tim. 2:4).

Assim, Deus encontra-se em um tipo de dilema. De um lado estão Sua justiça e santidade, os quais exigem punição ao pecado, justamente merecida. Por outro lado estão o amor e a misericórdia de Deus, os quais exigem reconciliação e perdão. Ambos são essenciais a natureza Dele; e estão relacionados um com o outro. O que Deus deve fazer com este dilema?

A resposta é Jesus Cristo. Ele é o fundamento da justiça e do amor de Deus. Eles se encontram na cruz: o amor e a ira de Deus. Na cruz, vemos o amor de Deus pelas pessoas e sua ira contra o pecado.

Por um lado vemos o amor de Deus. Jesus morreu em nosso lugar. Ele voluntariamente tomou a si mesmo a pena de morte do pecado que merecíamos. A Bíblia diz, “Nisto está o amor, não em que nos tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou seu filho para propiciação pelos nossos pecados”. (I Jo 4:10).

Mas na cruz também vemos a ira de Deus, assim como Seu primeiro julgamento é derramado sobre o pecado. Jesus foi nosso substituto. Ele experimentou a morte por todos os seres humanos e arrancou a punição por todo pecado. Nenhum de nós poderia imaginar o que Ele suportou. Como Olin Curtis escreveu, “Lá somente nosso Deus abre sua mente, seu coração, sua consciência pessoal para o fluir horrendo do pecado, esta história interminável, desde a primeira escolha de egoísmo até agora, da eternidade do inferno, o ilimitado oceano de desolação, Ele permite que lutas e lutas oprimam sua alma”1. Jesus suportou o inferno por nós, para que não tivéssemos que suportar. É por isto que Jesus é a chave, e a questão suprema da vida se torna, “O que você vai fazer com Cristo?”.

A fim de receber perdão, precisamos colocar nossa confiança e em Cristo como nosso salvador e Senhor de nossas vidas. Mas se rejeitarmos a Cristo, então rejeitamos a misericórdia de Deus e retrocedemos à Sua justiça. E você sabe onde você está. Se rejeitarmos a oferta de perdão de Jesus, então não existe simplesmente ninguém mais que pague a penalidade pelo seu pecado — exceto você mesmo.

Assim, em um sentido, Deus não manda ninguém para o inferno. Seu desejo é que todos sejam salvos, e Ele invoca as pessoas a virem até Ele. Mas se rejeitarmos o sacrifício de Cristo por nós, então Deus não tem escolha senão dar a nós o que merecemos. Deus não nos mandará para o inferno—mas nós mesmos nos mandaremos para lá. Nosso destino eterno, assim sendo, reside em nossas próprias mãos. É uma questão de nossa escolha livre onde iremos passar a eternidade.

Agora, se este cenário é até possível, segue que nenhuma inconsistência tem sido demonstrada entre Deus ser amoroso e algumas pessoas irem para o inferno. Dado que Deus nos criou com livre arbítrio, então Ele não pode garantir que todas as pessoas irão dar suas vidas livremente a Ele para serem salvas. A Bíblia deixa isso muito claro, que Deus deseja que todas as pessoas sejam salvas, e por Seu Espírito, pretende chamar a Si cada um. O único obstáculo para a salvação universal é, portanto, a livre escolha humana. É logicamente impossível fazer alguém fazer por livre vontade alguma coisa. O fato de Deus ser o Todo-Poderoso não significa que Ele possa fazer o logicamente impossível. Assim, mesmo que Ele seja Onipotente, não pode fazer com que todos sejam livremente salvos. Dado a liberdade e a obstinação humanas, algumas pessoas podem ir ao inferno apesar do desejo e esforço de Deus para salvá-los.

Além disso, está longe de ser óbvio que o fato de Deus ser amoroso O obriga a preferir um mundo no qual ninguém vai ao inferno a um mundo no qual algumas pessoas vão. Suponhamos que Deus pudesse criar um mundo em que cada um seria livremente salvo, mas existe somente um problema: tais mundos tem somente uma pessoa dentro deles! O fato de Deus ser todo-amoroso O obriga a preferir um desses mundos que não são populosos sobre um mundo no qual multidões são salvas, mesmo que algumas pessoas vão livremente para o inferno? Eu acredito que não. O fato de Deus ser todo-amoroso implica que em qualquer mundo que Ele crie, Ele deseja e se esforça pela salvação de todas as pessoas. Mas as pessoas que iriam, espontaneamente, rejeitar todos os esforços de Deus para salvá-los não deveriam ser permitidos a ter alguma sorte de poder de veto sobre o que o mundo de Deus é livre para criar. Por que a alegria e a benção daqueles que livremente aceitariam a salvação de Deus deveriam ser impedidas por causa de quem obstinada e livremente iria rejeitá-las? Parece-me que o fato de Deus ser amoroso requereria, no máximo, que Ele criasse um mundo que tivesse um equilíbrio ente os salvos e os perdidos, um mundo no qual tantos quanto possível livremente aceitam a salvação e o o mínimo quanto possível livremente a rejeita.

Assim, nenhuma das afirmações cruciais feitas pelo oponente da doutrina do inferno é necessariamente verdadeira. O fato de Deus ser Onipotente e amoroso não acarreta o fato de que todos irão abraçar a salvação de Deus ou que ninguém irá rejeitá-lo livremente. E assim, nenhuma inconsistência tem sido demonstrada ente Deus e inferno.

Agora, o oponente da doutrina do inferno deve admitir que dada a liberdade humana, Deus não pode garantir que todos serão salvos. Algumas pessoas podem condenar livremente a si mesmas ao rejeitar a oferta de salvação de Cristo. Mas, ele pode argumentar, seria injusto que Deus condenasse as pessoas para sempre. Pois até mesmo pecados graves como aqueles dos torturadores nazistas nos campos de concentração ainda merecem somente uma punição finita. Portanto, no máximo, o inferno poderia ser um tipo de purgatório, durando um período de tempo apropriado para cada pessoas antes que esta pessoa esteja liberada e seja levada ao céu. Finalmente, o inferno poderia estar vazio e o céu, cheio.

Agora, trata-se de uma objeção interessante, porque defende que o inferno é incompatível, não com o amor de Deus, mas com Sua justiça. A objeção é dizer que Deus é injusto porque a punição não se adequou ao crime. Trata-se também de uma objeção persuasiva, que poderia ser evitada por adotar a doutrina do aniquilacionismo. Alguns cristãos crêem que o inferno não é a separação eterna de Deus, mas sim a aniquilação do condenado. O inimigo condenado simplesmente deixa de existir, enquanto aos salvos é dada a vida eterna. Agora, enquanto não sou desta opinião particularmente, representa uma forma na qual você poderia ir contra o vigor desta objeção. Mas a objeção é persuasiva por si mesma? Acredito que não.

1) A objeção equivoca-se entre todo pecado o qual cometemos e todos os pecados que cometemos. Podemos concordar que todo pecado individual que uma pessoa comete merece comente uma punição finita. Mas não segue disto que todos os pecados de uma pessoa juntos como um todo merece somente uma punição finita. Se uma pessoa comete um número infinito de pecados, então a soma total de tais pecados merece uma punição infinita. Agora, claro, ninguém comete um número infinito de pecados na vida terrena. Mas que tal na vida após a morte? Na medida em que os habitantes do inferno continuam a odiar a Deus e rejeitá-Lo, continuam a pecar e por isso acumular a eles mesmos mais culpa e mais punições. Em um sentido real, então, o inferno é perpétuo por si mesmo. Neste caso, cada pecado tem um castigo finito, mas porque o pecado se prolonga, assim o faz a punição.

2) Por que pensar que todo pecado tem somente uma punição finita? Podemos concordar que pecados como roubo, mentira, adultério, e assim por diante, são somente consequências do finito e então, somente merecem uma punição finita. Mas, em outro sentido, esses pecados não são o que serve para separar alguém de Deus. Porque Cristo morreu por aqueles pecados. A penalidade por aqueles pecados foi paga Tem-se que aceitar a Cristo como Salvador para ser completamente livre e limpo daqueles pecados. Mas a recusa ao aceitar a Cristo e Seu sacrifício parece ser um pecado de uma ordem completamente diferente. Pois este pecado decididamente separa alguém de Deus e de Sua Salvação. Rejeitar a Cristo é rejeitar ao próprio Deus. E este é um pecado de gravidade e proporção infinitas e, portanto, merece uma punição infinita. Devemos, então, não pensar no inferno primeiramente como punição pela matriz dos pecados de consequências finitas os quais cometemos, mas sim, como o que é justo e devido a um pecado de consequência infinita, a saber, a rejeição do próprio Deus.

2) Por fim, é possível que Deus permitisse que o condenado deixasse o inferno e fosse ao céu, mas eles livremente recusam-se a isso. É possível que pessoas no inferno cresçam somente mais implacavelmente em sua ira por Deus assim que o tempo passa. Em vez de se arrependerem e de pedirem a Deus por perdão, eles continuam a amaldiçoá-Lo e rejeitá-Lo. Assim, Deus não tem escolha senão deixá-los onde estão. Neste caso, a porta do inferno está trancada, como John Paul Sartre disse, de dentro. O condenado assim escolhe a separação eterna de Deus. Então, novamente, assim como nenhum desses cenários é possível, invalida a objeção que a justiça perfeita de Deus é incompatível com a separação eterna de Deus.

Mas talvez a este ponto, o oponente a doutrina do inferno poderia tentar uma última objeção. Considerando que não é nem falta de amor nem de justiça de Deus para criar um mundo no qual algumas pessoas rejeitam a Ele de livre vontade, sempre, e como fica o destino daqueles que nunca ouviram sobre Cristo? Como Deus pode condenar as pessoas que, não por causa delas, nunca tiveram a oportunidade de receber Cristo como seu Salvador? A salvação ou a condenação de um pessoa assim, parece ser o resultado de um acidente histórico e geográfico, o qual é incompatível com um Deus amoroso.

A objeção é, no entanto, falaciosa, porque afirma que aqueles que nunca ouviram sobre Cristo são julgados na mesma base daquele que ouviram. Mas a Bíblia diz que o não-alcançado será julgado em uma base bem diferente da base daqueles que ouviram o evangelho. Deus julgará o não-alcançado na base da resposta deles a auto-revelação na natureza e na consciência. A Bíblia diz que a partir do fim, Deus nos criou sozinho, todas as pessoas podem saber que um Deus Criador existe e que Deus implantou sua lei moral nos corações das pessoas, para que eles ficassem inescusáveis a Deus. (Rom. 1.20; 2.14-15). A Bíblia promete salvação para todo aquele que responder afirmativamente à sua auto-revelação de Deus (Rom. 2.7).

Agora, isto não significa que eles podem ser salvos sem Cristo. Em vez disso, signica que os benefícios do sacrifício de Cristo pode ser aplicado a eles sem seu conhecimento consciente de Cristo. Eles seriam como o povo no Antigo Testamento, antes de Jesus vir, que não tinha o conhecimento consciente de Cristo, mas que estava salvo na base de seu sacrifício através de suas respostas à informação que Deus tinha revelado a eles. E assim, a salvação está verdadeiramente disponível a todas as pessoas em todos os tempos. Tudo depende de nossa escolha livre.

Nenhum cristão aprecia a doutrina do inferno. Eu queria, de verdade, com todo o meu coração que a salvação universal fosse verdade. Mas fingir que as pessoas não são pecadoras e não têm necessidade de salvação seria cruel e enganoso como fingir que todo mundo fosse saudável mesmo quando soubessem que têm uma doença fatal da qual soubessem a cura. A questão perante nós hoje não é, portanto se gostamos da doutrina do inferno; a questão é se a doutrina é possivelmente verdadeira. Argumentei que nenhuma inconsistência existe entre os conceitos cristãos de Deus e inferno. Se Dr. Bradley quer manter que são inconsistentes, então o ônus da prova permanece em seus ombros.

Notas

1. O. A. Curtis, The Christian Faith, p. 325.

Analisando o problema do mal ateológico

1. Introdução:

O presente ensaio tem como objetivo fazer uma leitura crítica da problemática clássica da coexistência de Deus com o mal: sendo Deus um ser poderoso, sábio e bondoso o suficiente para aniquilar o mal, e mesmo assim não o faz, será que o podemos chamar de Deus? Ou: será que ele realmente comporta em si, simultaneamente, todos os atributos que normalmente são ditos dele (onipotencia, onisciencia e perfeição moral), mesmo com tais ocorrências que nos parecem tão absurdas, como uma criança que morre de fome na África ou o caso de um feto acéfalo?

Mulher segura seu filho com desnutrição no Hospital  Banadir, em Mogadíscio, capital da Somália. O país pediu novo esforço internacional para ajudar a combater a fome na região  Foto: Reuters

Trataremos destas questões abaixo. Veremos que, com o rigor apropriado, o problema do mal não é consistente e que só permanece sendo defendido por tanto tempo devido as características psicológicas inerentes de suas premissas, sendo estas completamente estranhas a juízos epistêmicos, e que, na verdade, o problema do mal não é próprio do ateu, mas é característico de profundas reflexões teísta-religiosas no decorrer da história da filosofia da religião.

 

Várias filósofos propuseram soluções (as chamadas teodicéias) para o problema, como Agostinho, Leibniz, Kant, etc. Atualmente talvez a melhor discussão sobre o tema seja a de Alvin Plantinga [1] (embora sua “Defesa do Livre Arbítrio” não seja mencionada neste artigo).

 

2. Exposição do problema do mal ateu:

 

Não nos cabe aqui abordar o problema do mal em suas tradicionais ramificações (probabilístico, lógico, emocional, etc.); nos basta apenas o que há de mais substancial nele, isto é: é dito que um problema é um problema do mal ateu quando este visa demonstrar a inexistência (ou a possível inexistência) de Deus a partir da existência do mal.
Mas ainda assim a versão aqui exposta terá seus paralelos com aquela usada por Austin Dacey em seu debate com William Lane Craig [2]; ou seja, os “males sem sentido” serão evocados.

 

Mas antes, cabe mencionar o problema em sua forma mais clássica:

 

        (1) Deus é onipotente;

 

        (2) Deus é onisciente;

 

        (3) Deus é perfeitamente moral;

 

      (4) Há mal.

 

É dito que este conjunto de proposições é inerentemente inconsistente (i.e., não há um modelo N pela qual o conjunto das proposições (1)-(4) sejam verdadeiras ao mesmo tempo).
Essa ideia é direta e não muito complexa. Contudo, não há razões a priori considerar este conjunto inconsistente, tendo em vista que os males podem ter uma razão específica de ser. Por isso alguns tem inserido, como dito, a noção de “males desnecessários” no problema.

 

A versão reformulada segue:

 

        (p1) Deus é onipotente, onisciente e perfeitamente moral;

 

        (p2) Necessariamente, se Deus é assim definido e existe, então não podem haver males sem sentido;

 

        (p3) Há males sem sentido;

 

(c) Logo o Deus definido não existe.

 

Onde um mal sem sentido é um mal que não tem absolutamente razão de ser alguma, tanto para o sujeito que o sofre quanto para a humanidade em geral. É, em suma, um sofrimento gratuito. Fora isso o argumento não carece de mais exposições; as premissas, se verdadeiras, servem para inferir a conclusão.
Claro que ainda podem haver aqueles que introduzam a noção de probabilidade no problema: ou seja, que ao invés do juízo expresso em (p2) – onde antecedente Deus existe é a condição suficiente do consequente –, teriamos: se o Deus definido existe, então provavelmente não haveria mal (sem distinguir entre males com ou sem sentido); e como há mal, então é provavel que esse Deus não exista – essa visão ainda é fortalecida quando o defensor do problema afirma que Deus, podendo fazer qualquer coisa que não envolva contradições lógicas, poderia muito bem ter criar um mundo onde não existisse mal; e se Deus é bom, essa deveria ser sua vontade.

 

Essa versão probabilística do problema do mal, no entando, nos parece muito frágil e não será considerada em si neste artigo (muito embora as objeções que iremos direcionar à versão exposta acima sirvam igualmente para a versão probabilística e para qualquer versão do problema, desde que nos propomos a ponderar o que há de substancial nele, como já foi dito).

 

3. Definição de mal:

 

É importante também gastar algumas linhas considerando o quê se entende por mal. Nesse ponto as coisas não são tão simples e redutíveis ao essencial como é com o problema.
O que seria, na verdade, o mal? Essa pergunta é ao mesmo tempo simples e inquietante. Se for dito que mal é aquilo que causa dor e sofrimento, então teriamos de assumir que um parto em uma mulher é uma ocorrência má. E qualquer pessoa em sã consciência não consideraria o nascimento de um ser humano (um filho, ou um irmão) algo mal em si mesmo. O mesmo poderia ser dito se o mal fosse definido como o causador de prejuízo. Existem prejuízos que não são maus. O jogador compulsivo precisa primeiro perder uma considerável quantia em dinheiro para perceber que precisa deixar seu vício. No final o seu prejuízo na verdade foi um ganho: o de mudar de vida. Logo esses critérios não servem para estabelecer uma definição ontológica do mal.

 

De fato, há uma imensa dificuldade conceitual no que concerne ao mal. No entando, não nos é difícil identificar o mal quando o vemos no dia a dia.
Quando algum desastre natural ocorre e varre a vida de milhares, ou quando algum parlamentar é deposto de seu cargo por corrupção, não é difícil que a coletividade veja nesses eventos um mal explícito: temos aqui um exemplo de mal natural e mal moral.
Portanto poderia nos ser útil dizer que um evento P é mal se, e somente se, (i) causar desordem na ordem estabelecida, não importando se essa ordem é subjetiva (particular) ou intersubjetiva (coletiva, a nível cultural) e (ii) não servir para beneficiar em nada aqueles que, porventura, teriam sido submetidos a este mal.
Mas ainda assim não chegamos a um definição ontológica do mal. O “ser” do mal ainda não foi desvelado, já que, na realidade propriamente dita, o subjetivo e o intersubjetivo só nos dizem acerca da compreenção dos indivíduos acerca de dada proposição que indique o mal, não acerca do que é o mal, independentemente de nossas concepções.

 

Quanto a isso, temos duas saídas: (i) ou postulamos que não existe nada mal em si mesmo ou (ii) recorremos a uma explicação religiosa para o mal.
No primeiro caso, o problema do mal ateu já sofre uma espinhosa objeção: se ele pretende, através da existência do mal, demonstrar que Deus não existe (ou que provavelmente não exista), a tarefa de justificar as proposições do problema se torna muito mais difícil a medida em que percebemos que o mal só existe como um para-mim ou um para-nós, sendo os juízos provenientes do problema meramente juízos singulares, sem um fundamento na realidade independente dos sujeitos (realísticamente falando). Mas reconhecemos que essa objeção não é suficiente.

 

Quanto ao segundo caso, uma explicação religiosa precisaria recorrer a alguma tradição religiosa para fundamentar o mal na realidade propriamente dita. Se nós recorrermos a tradição cristã, onde há um Deus todo bondoso, o mal seria, nos servindo da definição de Karl Barth [3], das Nichitige – aquilo que se opõe a existência e a vontade original de Deus para as coisas: nisso, se Deus desejou P, o mal será ~P e vice verso.
Nesse ponto seria necessário conhecer a vontade original de Deus para poder saber o que é mal; como estamos falando de uma tradição religiosa, então parte da vontade original de Deus (e não sua totalidade) nos é conhecida: os valores morais e existenciais contidos no seio do cristianismo seriam o que há de bom; suas negações seriam, portanto, o mal: eis aí o mal objetivo (que constituiria a realidade independente das noções culturais e pessoais).

 

Assumindo que Deus exista podemos definir o mal de uma forma objetiva. E é justamente nesse cenário que o problema do mal entra em cena: por isso desde já é necessário dizer que, para que qualquer versão do problema do mal seja ao menos válida, é necessário assumir por premissa que exista um Deus com esses e aqueles atributos (premissa condicional), e a partir disso apontar uma contradição. Assumir que Deus não exista e que, portanto, os males existentes não tem um sentido, seria apenas uma grosseira petição de princípio.

 

Nos ocuparemos agora da crítica ao problema do mal ateu.

 

4. O problema do mal ateu: falso ou verdadeiro?

 

Já vimos que, por mais que hajam diversas ramificações do problema do mal ateu, ele pode ser reduzido ao que há de essencial nele: aquele problema que pretende exprimir juízos de existência, em relação a Deus, recorrendo ao mal; vimos também que não se pode reduzir o mal à sofrimento, dor ou prejuízo e que ele não pode ser definido objetivamente sem recorrer a existência de Deus, já que todos os males existentes sempre são males subjetivos ou intersubjetivos; portanto, o problema do mal, para ser válido, precisa primeiro assumir a existência de Deus como premissa condicional.

 

Feitas essas considerações, podemos agora verificar a factibilidade do problema (especialmente do modelo apresentado acima, muito embora as considerações feitas a seguir sirvam para qualquer um deles).
Iniciemos como um silogismo demonstrativo. Depois de exposto em sua forma lógica, concluiremos com considerações sobre as premissas do argumento para verificar se o problema do mal ateu é falso ou verdadeiro.

 

O argumento segue:

 

        (p1) O mal existente ou tem ou não tem um sentido;

 

        (p2) Se tem um sentido, então o problema do mal ateu é falso;

 

        (p3) Se não tem um sentido, então o problema do mal ateu é verdadeiro;

 

        (p4) Se o problema do mal ateu é verdadeiro, então não existe um ser que seja onipotente, onisciente e perfeitamente moral;

 

        (p5) Existe um ser que é onipotente, onisciente e perfeitamente moral;

 

(c1) Logo o mal existente tem um sentido.
(c2) Consequentemente o problema do mal ateu é falso.

 

Em linguagem lógica:

 

        1. P v Q (disjunção)

 

        2. P –> ~A

 

        3. Q –> A

 

        4. A –> ~B

 

        5. B (premissa condicional)

 

6. ~Q (SH, 3, 4)
7. P (Disj., 1, 6)
8. ~A (MP, 2, 7).

 

(p1) é incontroversa. Não há outra opção: ou o mal existente no mundo tem ou não tem um sentido (definido no segundo tópico). (p2) e (p3) consistem na noção de males gratuitos e males significativos.
Como já foi definido, mas retomando uma vez mais, é dito que um mal é gratuito se, e somente se, for um evento, ou ocorrência, que, via de regra, cause prejuízo, dano, sofrimento, e derivados, a um ser P sem que tal carga produza algo de bom a curto ou a longo prazo para a ordem designada das coisas. Por exemplo, pode-se alegar que o sofrimento de um dinossauro em uma idade longínqua não serviu de nada para ninguém e para propósito algum.
Já um mal não gratuito (significativo) é o oposto disso. Ponderar essas duas definições nos ajudará a resolver o problema: e é nesse ponto o argumento contra o problema dependerá de sua premissa implícita.

 

Ora, se um ser é onipotente, onisciente e perfeitamente moral, então os males existentes precisam, necessariamente, atender a um propósito previamente orquestrado pelo mesmo, tendo em vista sua onisciencia e seu caráter moral.
Disso podemos inferir que: (p) Necessariamente, se existe um ser onipotente, onisciente e perfeitamente moral, então todos os males existentes precisam atender a um propósito significativo (isto é, os males não podem ser gratuitos). Se há ao menos um mal não significativo, então temos uma contradição e o ser em questão não existe da forma como é descrito (onipotente, onisciente…).
Contudo, se existe um ser tal que exemplifique estas propriedades, então, necessariamente, é logicamente impossível haver um mal não significativo (gratuito) na realidade. Mesmo que não possamos saber precisamente qual é o signifcado de certos males (p.e., uma criança nascer morta, ou alguém ser preso injustamente por 10 anos, ficar cego e adiquirir câncer [4]). Afinal, nosso conhecimento é limitado: isso significa que nossas condições cognitivas de seres que conhecem não são absolutas e que nosso conhecimento é corrigível.

 

William Lane Craig comenta algo similar [5]:

 

          “Não estamos em condições de avaliar com confiança a probabilidade de que Deus não possua razões moralmente suficientes para permitir a ocorrência dos males (…) O que dificulta a avaliação da probabilidade aqui é que não estamos numa boa posição epistêmica para fazer esses tipos de juízos de probabilidade com confiança. Como pessoas finitas, somos limitados no espaço e no tempo, na inteligência e no juízo. Mas o Deus transcendente e soberano vê o final da história (…) Com o objetivo de alcançar seus fins, Deus pode muito bem ter colocado alguns males no meio do caminho. Males que aparentemente parecem sem sentido ou desnecessários para nós, dentro de nosso limitado arcabouço, podem ser vistos como tendo sido justamente permitidos a partir do escopo divino mais amplo”.

Analogias que ilustram nossa limitação cognitiva dentro do mundo natural também são possíveis [6]. Diante da proposição Marta furou o estômago de Joana, a qual conclusão podemos chegar? Alguém poderia dizer que Marta cometeu tal ato por vingança; outro poderia dizer que Marta o fez por ser uma cirurgiã e que nesse momento estava a salvar a vida de Joana.
Mas como obter esse conhecimento? Informações adicionais seriam necessárias: qual instrumento Marta utilizou? Onde elas estavam durante o ocorrido? Etc.

Se nossa razão não pode apreender a totalidade destes casos, que são meras exemplificações quotidianas, muito maior ignorância nos seria própria tratando de um ser que é, por definição, muito além de nós, humanos. Sendo assim, fica impossível afirmar alguma coisa a posteriori sobre Marta e Joana (o que seria diferente se dispusersemos de informações a priori sobre Marta e Joana, do mesmo mode que dispomos sobre Deus). Se não posso exprimir tal juízo, exatamente por desconhecer a amplitude do caso, seria tolice afirmar categoricamente que Marta fez isso, isso ou aquilo; ou que Joana tenha feito isto ou aquilo. A limitação epistêmica delimita a qualidade do juízo. O mesmo se aplica ao problema do mal.

 

A diferença é que Craig geralmente utiliza um juízo referente a possibilidades, “Deus pode ter razões moralmente justificaveis”. Aqui está sendo colocado um juízo categórico: “Deus tem razões moralmente justificaveis”; ou melhor, necessariamente Deus tem estas razões ocultas em si, caso contrário, o problema do mal ateu é verdadeiro e Deus, ou não pode (não é onipotente), ou não sabe (não é onisciente), ou não quer (perfeitamente moral) acabar com o mal: essa é a implicação mais geral do problema, conforme construido no clássico paradoxo de Epicuro.

 

(É válido frisar que tal ideia vale para qualquer tipo de mal: natural, moral ou qualquer outro; Deus necessariamente, se é descrito como onipotente, onisciente e perfeitamente moral, tem fins justificáveis para permitir, desde um terremoto destruidor, até que uma mulher persuadida use de sua liberdade para morder uma maçã – e por que não a decadência material de um homem justo [7]?).

 

Nos resta então nossa premissa condicional (p5): existe um ser tal que exemplifique as propriedades de ser onipotente, onisciente e perfeitamente moral – como já foi mostrado, o problema só pode ser válido se esta premissa condicional for assumida como verdadeira. O que segue disso são simples deduções de nossas premissas anteriores: como esse ser existe, então os males existentes são signifativos; e como os males são significativos, o problema do mal ateu deve ser falso, já que ele só seria verdadeiro se houvesse ao menos um mal existente que não fosse significativo (gratuito). Mas tal proposição não pode ser factível diante da existência de um ser onipotente, onisciente e perfeitamente moral. Consequentemente segue que a conclusão é inevitável e, portanto, o problema do mal ateu (suas premissas) é falso; e como o corpo das proposições dispostas no cojunto do problema não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo (i.e. “Deus existe” e “Existem males gratuitos”), concluimos que o problema é inconsistente (ou seja, não é consistente).

 

5. Conclusão:

 

Foi visto que o problema do mal ateológico assume diversas formas, mas que carrega uma essência; essa essência foi tratada aqui, acompanhada da concepção de males gratuitos, mais ou menos como Austin Dacey defendeu contra Craig; depois foi definido o significado da palavra mal, sendo que este irredutível ao sofrimento humano e dependente do subjetivo. Assumindo, porém, a existência do Deus de tradição cristã, tem-se uma definição objetiva do mal, independente da compreenção de cada um: essa definição se alcança através da negação de tudo aquilo que emana propriamente de Deus.
Vimos que é particular, e imprescindível, ao problema assumir esta definição e a existência de Deus para que ele fassa sentido – particularidade esta que, na verdade, é sua própria sepultura: se essa premissa for verdadeira, segue que não existe mal gratuito algum e que, portanto, tanto o problema usual, quanto o problema probabilístico do mal, exprimem juízos que não podem ter o menor alcance epistêmico; portanto, o problema do mal ateu não serve para demonstrar a inexistência de Deus e nem dispõe de substrato racional para chegar a conclusões que geralmente os defensores do problema desejam chegar.

 

6. Últimas considerações:

 

Está o teísta, neste ponto, apelando ao mistério? Sim e não. Sim porque, de fato, as razões de Deus para permitir o mal nos são misteriosas, não acessíveis, até o momento, à nós, de forma que só podemos refletir sobre elas, sem nunca chegar a uma resposta definitiva; e não porque tal acusação, provavelmente da parte de algum defensor do problema, é prejorativa, como se acusasse o teísta de algum tipo de argumento da ignorância: mas o exame de nossas condições epistêmicas e das analogias apropriadas, funcionam como verdadeiros invalidadores desta objeção.

 

Deus poderia ter feito tudo de forma a não permitir o mal? Sim. Não parece existir uma contradição lógica em um mundo onde não há males (embora isso possa conflitar com a existência da liberdade humana), embora não saibamos se esta realidade, para os propósitos de Deus, são necessárias ou contingentes. Mas o caso é que, por alguma razão que não parece ser acessível à nós, Ele não fez.

 

Deus é imoral por permitir males significativos? Não. Como já foi dito, se dispomos de uma definição a priori de Deus (definição que é inquestionável quando falamos do problema do mal), então é possível inferir que, seja lá qual for o motivo implícito na “cognição” divina, ele é um motivo moral.

 

Como fica o problema do mal, então?

 

Para a intenção atéia de demonstrar a inexistência (ou provável inexistência) de Deus, fica uma enorme interrogação, acompanhada de um nada que lhe é característico. Contudo, para o teísta, sobretudo o cristão, fica um manancial de reflexão existencial.
Embora saibamos que o mal não pode se reduzido ao sofrimento e derivados, não há de se negar que entre ambos existe uma íntima relação. O problema do mal muitas vezes se confunde com o problema do sofrimento – e não poderia ser diferente, pois se o mal não afetasse o seio da humanidade de forma a causar desequilíbrio de alguma ordem, não veriamos nisto um problema: mas o identificamos a medida que somos afetados por ela, direta ou indiretamente.

 

Portanto, observamos que o mal, em certas escalas, supõe o sofrimento: nessa altura surgem as mais belas e profundas reflexões sobre o tema; como vemos nos escritos bíblicos – tanto nos clamores por justiça de Habacuc e Jó, quanto nos sofrimentos apostólicos aludidos no novo testameno –, nas diversas tradições filosóficas, de autores que se debruçaram sobre o tema integralmente, com ênfase em Kierkegaard (grande parte de sua reflexão, se não tona, comporta o problema do sofrimento), que considera o desespero uma condição universal do ser humano [8]:

 

          “Da mesma forma como provavelmente não haja, segundo os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que não há um só que esteja isendo do desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si mesmo.”

Para o leitor atento dos escritos religiosos, sobretudo os escritos cristãos, fica evidente a imanência do sofrimento, desespero, angústia, perda – palavras tipicamente cristãs – na existência humana. O apóstolo Paulo dizia completar em si “os sofrimentos que faltavam à Cristo”, pela própria Igreja, através dos sofrimentos que ele nos relata [9]. Isso sem contar que a própria fé cristã está fundamentada no sofrimentoe ressurreição de Jesus Cristo.

O ateu que pensa estar afetando o teísmo, ou o cristianismo mais especificamente, citando o problema do mal, provavelmente não conhece as passagens bíblicas onde Jeremias questiona claramente a justiça de Deus, mesmo reconhecendo que não poderia entrar com ele num debate [10]; ou quando o mesmo reclama de seu sofrimento e o atribui a Deus [11]; ou ainda mais os diálogos entre Deus e Jó, quando a ignorância de Jó, até mesmo sobre seu próprio mundo, é pareada com os desígnios de YHWH que são, por definição, muito mais profundos que o conhecimento natural: [Disse Deus] Quem é este que obscurece meus desígnios com palavras sem sentido? Cinge-te os rins, como herói, interrogar-te-ei e tu me responderás: Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra? Dize-mo, se é que sabes tanto” [12].

 

O problema do sofrimento nunca foi negligenciado pela religião. Ele aparece, sempre com seu tom misterioso e com sua seta apontando para a única realidade que pode, efetivamente, por um fim (resolver) o problema: ou seja, a Realidade Última; pois, se ela não existe, logo todo sofrimento é puro acaso, fruto do devir cego, é niilismo (isto é, se Deus for apenas uma ideia e não existir na realidade).

 

Mas caso contrário, a resolução está nele. E ao ser humano resta lidar com o mal, que ele identifica por vezes como puro sofrimento.
Nas palavras de João Paulo II: [O sofrimento] É algo tão profundo como o homem, precisamente porque manifesta a seu modo aquela profundidade que é própria do homem e, a seu modo, a supera. O sofrimento parece pertencer à transcendência do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, « destinado » a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo.” [13].

 

Deixemos o problema, então, nas mãos de quem ele pertence.

 

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Notas e referências:

 

1 – PLANTINGA, Alvin. God, Freedom And Evil. London: Allen e Unwin, 1975;
2 – William Lane Craig vs. Austin Dacey: “Debate: Does God Exist?”. Purdue University, 2005. Dividido em 14 partes e disponível aqui (tradução de Eliel Vieira). Acesso em: 13 de janeiro de 2012;
3 – MCGRATH, Alister E. Teologia: sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Sheed Publicações, 2005 (pg. 347);
4 – Foi o caso de Marcos Mariano da Silva;
5 – MORELAND, J. Porter; CRAIG, W. Lane. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005 (pg. 659);
6 – Para um exame mais amplo do problema do mal, ver a série de três artigos contidas no blog Quebrando o Encanto do Neo-ateísmo, disponível aqui. Acesso em: 14 de janeiro de 2012;
7 – Alusão à história bíblica de Adão e Eva e de Jó;
8 – KIERKEGAARD, Soren A. O Desespero Humano: coleção a obra-prima de cada autor, texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2001. Livro II: A universalidade do desespero (pg. 27);
9 – Colossenses 1, 24; 2 Corintios 11, 23-28;
10 – Jeremias, 12, 1;
11 – Ibid., 15, 18;
12 – 38, 2-4. BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém: Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002;
13 – PAULO II, João. Salvifici Doloris: sobre o sentido cristão do sofrimento humano, Vaticano, 1984. Disponível aqui. Acesso em: 14 de janeiro de 2012.

 

A Matança dos cananitas conflitam com a bondade de Deus?

Por William Lane Craig

Traduzido e adaptado por Leandro Teixeira.

Questão 1:

Nos fóruns, tem havido muitas boas questões levantadas acerca do assunto da ordem de Deus para os judeus cometerem “genocídio” às pessoas da terra prometida. Como você tem colocado em alguns de seus trabalhos escritos que estes atos não se ajustam com o conceito ocidental de Deus sendo um doce papai no céu. Agora nós certamente podemos encontrar justificativas para aquelas pessoas ficarem debaixo do julgamento de Deus por causa dos seus pecados, idolatria, sacrifício de suas crianças, etc. Mas uma difícil questão é a matança de crianças e bebês. Se as crianças são jovens o suficiente juntamente com os bebês são inocentes dos pecados que a sua comunidade tinha cometido. Como nós reconciliaremos esta ordem de Deus para matar as crianças com o conceito de Sua Santidade? – Obrigado, Steven Shea.

Questão 2:

Eu tenho ouvido você justificar a violência do AT com a base de que Deus usou o exército Israelita para julgar os cananitas e a eliminação deles pelos israelitas é moralmente correta por que eles estavam obedecendo a uma ordem de Deus (devia ser errado se eles não tivessem obedecido a Deus na ordem de eliminar os cananitas). Isto se assemelha um pouco em como os Muçulmanos definem moralidade e justificam a violência de Maomé e outras questões morais questionáveis (os muçulmanos definem moralidade como o cumprimento da vontade de Deus). Você pode ver alguma diferença entre a sua justificativa da violência no AT e a justificação islâmica de Maomé e os versículos violentos do Alcorão? São a violência e as ações questionáveis de moralidade e os versículos do Alcorão bons argumentos ao falar com os muçulmanos? – Anônimo

Dr. William Lane Craig responde:

De acordo com o Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento), quando Deus tirou seu povo da escravidão do Egito e os fez voltar para a terra dos seus antepassados, Ele os direcionou para matar todo o povo cananita que estavam vivendo na terra (Dt. 7:1-2; 20:16-18). A destruição seria completa: cada homem, mulher e criança seriam mortos. O livro de Josué conta a história dos israelitas levando a cabo a ordem de Deus cidade após cidade do começo ao fim de Canaã.

Esta história ofende nossa sensibilidade moral. Ironicamente, contudo, nossa sensibilidade moral no Ocidente foi basicamente, e para muitas pessoas inconscientemente, formada por nossa herança judaico-cristã, a qual nos ensinou os valores intrínsecos dos seres humanos, a importância da conduta justa mais que caprichosamente, e a necessidade da adequada punição para o crime. A Bíblia mesma inculca os valores os quais estas histórias parecem violar.

A ordem para matar as pessoas cananitas está discordante precisamente porque ela parece tão em desacordo com o retrato de Javé, o Deus de Israel, como Ele é pintado nas Escrituras Hebraicas. Contrariamente à retórica vituperante de alguns como Richard Dawkins, o Deus das Escrituras hebraicas é um Deus de justiça, que sofre e de compaixão.

Você não pode ler os profetas do Antigo Testamento sem um senso de profundo cuidado de Deus pelos pobres, oprimidos, humilhados, órfãos e outros. Deus demanda justas leis e justas regras. Ele literalmente suplica às pessoas que se arrependam de seus caminhos errados que Ele poderia não julgá-los. “Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva” (Ez. 33:11).

Ele enviou um profeta até mesmo para a cidade pagã de Nínive por causa da Sua compaixão pelos habitantes, “homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda” (Jn 4:11). O próprio Pentateuco contém os 10 mandamentos, um dos maiores códigos morais da antiguidade, os quais moldaram a sociedade ocidental. Até mesmo o severo “olho por olho, dente por dente” não foi uma descrição de vingança, mas uma verificação na punição excessiva para cada crime, servindo para moderar a violência.

O julgamento de Deus é qualquer coisa, menos caprichoso. Quando o Senhor anunciou de julgar Sodoma e Gomorra pelos seus pecados, Abraão corajosamente perguntou,

E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio? Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? (Gn 18:25).

Tal como o negociante do Oriente Médio pechincha em uma barganha, Abraão continuadamente diminuiu o preço, e a cada vez Deus se comprometeu, sem nenhuma hesitação, garantindo a Abraão que se houvesse até mesmo 10 pessoas corretas na cidade, Ele não a destruiria por causa deles.

Então o que é que Javé está fazendo comandando o exército judeu para exterminar o povo cananita? É precisamente porque nós esperamos que Javé agisse justamente e com compaixão que nós achamos estas histórias tão difíceis de compreender. Como pode Ele comandar soldados para matar crianças?

Agora, antes de tentar dizer algo em forma de responda para esta difícil questão, nós devemos por bem primeiramente parar e perguntar a nós mesmos o que está em jogo aqui. Suponha que nós concordemos que se Deus (que é perfeitamente bom) existe, Ele não poderia ter emitido semelhante ordem. O que se segue? Que Jesus não ressuscitou dos mortos? Que Deus não existe? Dificilmente! Então qual é o suposto problema?

Eu tenho freqüentemente ouvido populares levantarem esta ordem como uma refutação do argumento moral para a existência de Deus. Mas eles estão obviamente enganados. A afirmação de que Deus não pode ter emitido tal ordem não falsifica ou diminui qualquer das duas premissas no argumento moral que eu defendo:

  1. Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem;
  2. Valores morais objetivos existem;
  3. Então, Deus existe.

De fato, à medida que os ateus pensam que Deus fez algo moralmente errado na ordenação do extermínio dos cananitas, eles afirmam a premissa (2). Então, qual é o suposto problema?

O problema, parece-me, é que se Deus não emitiu tal ordem, então a história bíblica deve ser falsa. Qualquer um dos incidentes nunca realmente aconteceu, mas é apenas folclore israelita; ou senão, se elas aconteceram então Israel, cheio de um completo fervor nacionalista, pensando que Deus estivesse do lado dele, afirmou que Deus os comandou para cometer estas atrocidades, quando de fato Ele não os comandou. Em outras palavras, este problema realmente é uma objeção à inerrância bíblica.

De fato, ironicamente, muitos críticos do Antigo Testamento são céticos que os eventos da conquista de Canaã ocorreram. Eles tomam estas histórias como parte da lenda da fundação de Israel, de forma semelhante ao mito de Rômulo e Remo e a fundação de Roma. Para tais críticos o problema das ordenações de Deus desaparece.

Agora vamos colocar esta ordem em uma perspectiva totalmente diferente! A questão da inerrância bíblica é importante, mas não é como a existência de Deus ou a deidade de Cristo! Se os cristãos não podem encontrar uma boa resposta para a questão antes de nós e estão, além disso, convencidos que tal comando é inconsistente com a natureza de Deus, então nós teremos que desistir da inerrância bíblica. Mas nós não devemos deixar um descrente levantar esta questão enganando-se pensando que ele implica mais do que ele realmente faz.

Eu penso que um bom começo para este problema é enunciar nossa teoria ética que fundamenta nossos julgamentos morais. De acordo com a versão do mandamento divino ético que eu defendo, nossas obrigações morais são constituídas pelos mandamentos de um santo e amoroso Deus. Uma vez que Deus não emite ordens a si mesmo, Ele não tem obrigações morais para cumprir. Ele certamente não esta sujeito às mesmas obrigações e proibições a que nós estamos. Por exemplo, eu não tenho nenhum direito de tirar a vida de um inocente. Para mim, fazer isto me tornaria um assassino. Mas Deus não tem tal proibição. Ele pode dar e tirar a vida como Ele decidir. Nós todos reconhecemos isto quando censuramos alguma autoridade que presume tirar vidas como “brincar de Deus”. Autoridades humanas arrogam a si mesmas direitos os quais cabem somente a Deus. Deus não está sob qualquer obrigação para estender minha vida por mais um segundo. Se Ele quiser me desferir a morte agora, esta é Sua prerrogativa.

O que isto implica é que Deus tem o direito de tomar as vidas dos cananitas quando Ele achar melhor. Quanto tempo eles vivem e quando eles morrem é decisão Dele.

Então o problema não é que Deus terminou com a vida dos cananitas. O problema é que Deus mandou os exércitos israelenses acabarem com elas. Não é como mandar alguém cometer assassinato? Não, não é. Antes, uma vez que nossas obrigações morais são determinadas pelos mandamentos de Deus, Ele está mandando fazer algo que, na ausência da ordem divina, poderia ser assassinato. O ato era moralmente obrigatório para os soldados israelitas em virtude do mandamento divino, ainda que, tivessem eles o tratado em sua própria iniciativa, eles estivessem errados.

Na teoria do mandamento divino, então, Deus tem o direito de ordenar uma ação, a qual, ausente de um mandamento divino, seria pecado, mas a qual é moralmente obrigatória em virtude deste mandamento.

Muito bem; mas tal ordem não é contrária à natureza de Deus? Vamos olhar este caso mais de perto. É talvez significativo que a história da destruição de Sodoma por Javé – juntamente com Suas sérias garantias a Abraão que se houvessem tantas quanto até mesmo 10 pessoas retas em Sodoma, a cidade não seria destruída – dá forma a parte do fundo para a conquista de Canaã e ao mandamento de Javé de destruir as cidades lá. A implicação é que os cananitas não são pessoas retas, mas estão sob o julgamento de Deus.

De fato, antes da escravidão no Egito, Deus falou a Abraão,

Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos… e a quarta geração tornará para cá; porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia.” (Gn. 15:13,16)

Pense nisto! Deus suspende seu julgamento aos cananitas por 400 anos porque sua perversidade ainda não tinha atingido o ponto de intolerabilidade! Este é o Deus que suporta a dor que nós conhecemos das Escrituras hebraicas. Ele até mesmo permite que Seu povo escolhido definhe na escravidão por 4 séculos antes de determinar que o povo cananita esteja pronto para o julgamento e tirar o Seu povo do Egito.

No tempo de sua destruição, a cultura cananita era, de fato, devassa e cruel, abraçando práticas tais como prostituição cultual e até mesmo sacrifício de crianças. Os cananitas estão para ser destruídos “Para que não vos ensinem a fazer conforme a todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, e pequeis contra o SENHOR vosso Deus.” (Dt 20:18). Deus tinha razões moralmente suficientes para Seu julgamento sobre Canaã, e Israel era meramente o instrumento da Sua justiça, da mesma fora que centenas de anos depois Deus usaria as nações pagãs da Assíria e Babilônia para julgar Israel.

Mas tirar a vida de crianças inocentes? A terrível totalidade da destruição foi incontestavelmente à proibição da assimilação de nações pagãs. No ordenamento da destruição completa dos cananitas, o Senhor falou: “Nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; Pois fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós, e depressa vos consumiria.” (Dt 7:3-4). Este mandamento é parte e parcela de toda a estrutura da complexa e característica lei judia de práticas puras e impuras. Para a contemporânea mente ocidental muitas das regras da lei do Antigo Testamento parecem absolutamente bizarras e sem sentido: não misturar linho com lã, não usar os mesmos recipientes para carnes e laticínios, etc. O impulso que sobrepujava estas regras é a proibição de vários tipos de mistura. Linhas claras de distinção são esboçadas: isto e não aquilo. Isto serviu como um tangível e diário lembrete que Israel é um conjunto especial de pessoas separado para Deus.

Eu falei uma vez com um missionário indiano que me contou que a mente oriental tem uma tendência inveterada com respeito à amalgamação (fusão). Ele falou que os Hindus ouvem o evangelho sorrindo e dizem “Sub ehki eh, sahib, sub ehki eh!” (Tudo é Um, sahib, Tudo é Um!). Faz quase o impossível para alcançá-los por causa até mesmo das contradições lógicas incluídas no todo. Ele disse que ele pensa que a razão de que Deus deu a Israel tantas ordens arbitrárias sobre pureza e impureza era para ensiná-los a Lei da Contradição!

Por definição em tal grau forte, severa dicotomia Deus ensinou Israel que qualquer assimilação com a idolatria pagã era intolerável. Era Sua forma de preservar a saúde e posteridade espiritual de Israel. A matança das crianças cananitas não apenas serviu para prevenir uma assimilação da identidade cananita, mas também serviu como uma ilustração tangível e detalhada da separação de Israel como um povo exclusivo de Deus.

Além do mais, se nós acreditarmos, como eu acredito, que a graça de Deus é estendida para aqueles que morreram na infância ou como pequenas crianças, a morte destas crianças era verdadeiramente sua salvação. Nós somos tão apegados à perspectiva naturalista terrena, que nós esquecemos que aqueles que morrem estão felizes por deixar esta terra pela alegria incomparável do paraíso. Então, Deus não faz nada errado ao tomar suas vidas.

Então o que Deus faz de errado ao comandar a destruição dos cananitas? Não os cananitas adultos, porque eles eram corruptos e mereciam o julgamento. Não as crianças, porque eles herdaram a vida eterna. Então quem é o transgressor? Ironicamente, eu penso que a maior dificuldade de todo este debate é o aparente erro que os soldados israelenses fizeram a si mesmos. Você pode imaginar que seria como ter que invadir uma casa e matar uma mulher aterrorizada e seus filhos? O efeito brutal nestes soldados israelenses são perturbadores.

Mas então, novamente, nós estamos pensando de um ponto de vista ocidental cristianizado. Para as pessoas do mundo antigo, a vida já era brutal. Violência e guerra eram fatos da vida na vivência das pessoas no oriente antigo. Evidências deste fato é que as pessoas que contam estas histórias aparentemente não pensam nada do que os soldados israelenses estavam ordenados a fazer (especialmente se estas são lendas da fundação de uma nação). Ninguém estava com peso na consciência pelos soldados terem matado os cananitas; aqueles que o fizeram se tornaram heróis nacionais.

Além do mais, meu ponto acima retorna. Nada podia ilustrar para os israelitas a seriedade de sua chamada como povo escolhido de Deus somente. Javé não estava brincando com eles. Ele estava falando sério, e se Israel apostatasse, a mesma coisa aconteceria com eles. Como C. S. Lewis colocou, “Aslan não é um leão manso”.

Agora, como relacionar tudo isto a Jihad Islâmica? O islamismo vê a violência como um meio para propagar a fé muçulmana. O Islamismo divide o mundo em duas partes: a dar al-Islam (Casa da Submissão) e a dar al-harb (Casa da Guerra). A primeira são aquelas terras as quais têm sido adquiridas em submissão ao Islamismo; a última são aquelas nações que ainda não se submeteram. Assim é como o Islamismo verdadeiramente vê o mundo!

Em contraste, a conquista de Canaã representa o justo julgamento de Deus sobre aquelas pessoas. O propósito não era fazê-los se converterem ao judaísmo! A guerra não foi usado como um instrumento de propagação da fé judaica. Além do mais, o extermínio dos cananitas representou uma circunstância histórica incomum, não uma habitual forma de comportamento.

O problema com o Islamismo, então, não é que ele tem a teoria moral errada; é que ele tem o Deus errado. Se os muçulmanos pensam que nossas obrigações morais são constituídas de mandamentos de Deus, então eu concordo com eles. Mas os muçulmanos e os cristãos diferem radicalmente sobre a natureza de Deus. Os cristãos crêem que Deus é um Deus amoroso, enquanto os muçulmanos acreditam que Deus ama somente os muçulmanos. Alá não tem amor pelos incrédulos e pecadores. Então, eles podem ser mortos indiscriminadamente. Além do mais, no Islamismo, a onipotência de Deus supera tudo, inclusive sua própria natureza. Ele é então absolutamente arbitrário na sua conduta com a humanidade. Em contraste, os cristãos sustentam que a natureza santa e amorosa de Deus determina seus mandamentos.

A questão não é, então, de qual a teoria moral está correta, mas qual é o verdadeiro Deus?

 

fonte : http://www.apologia.com.br/?p=582#more-582

Supostas contradições bíblicas – II

Antes de apontares uma contradição, convém saberes o que é uma contradição

Quando tratam do assunto das contradições bíblicas apontadas, Josh McDowell e Don Stewart, experientes apologistas cristãos, escrevem:

O que é uma contradição? O princípio da não-contradição, que é a base de todo pensamento lógico, afirma que uma coisa não pode ser ao mesmo tempo “a” e “não-a”. Em outras palavras, não pode estar chovendo e não-chovendo ao mesmo tempo…

Ao encontrar possíveis contradições, é de extrema importância lembrar que duas afirmações podem diferir entre si sem serem contraditórias. Algumas pessoas não sabem distinguir entre contradição e diferença. Por exemplo, o caso do cego em Jericó. Mateus relata como dois cegos encontraram Jesus, enquanto Marcos e Lucas citam somente um. Contudo, as duas afirmações não se negam, mas são complementares.

Suponha que você esteja falando com o prefeito e o chefe de polícia de sua cidade no prédio da prefeitura. Mais tarde você encontra um amigo e conta que falou com o prefeito. Depois encontra um outro amigo e lhe diz que falou com ambos, o prefeito e o chefe de polícia. Seus amigos ao compararem as informações, encontrarão uma aparente contradição. Mas não há nenhuma contradição. Se você tivesse contado ao primeiro amigo que você falou somente com o prefeito, você estaria contradizendo a afirmação que fez ao segundo. As afirmações que você realmente fez para o primeiro e segundo amigos são diferentes, mas não contraditórias.

Do mesmo modo, muitas afirmações bíblicas são deste tipo. Muitas pessoas pensam que encontram erros em passagens que não leram corretamente.” (McDowell, J. e Stewart, D. (1997), Respostas Àquelas Perguntas -O que os céticos perguntam sobre a fé cristã, Editora Candeia, primeira edição, pág. 228)

O Deus do Levítico

 

Crente que navegue pelos mais variados blogues anti-Deus tem de esperar encontrar, em todos eles, uma referência ao Levítico. Arrisco dizer que o Levítico é o livro preferido dos ateus para dizerem que Deus não é amor, mas sim homofóbico, psicótico, cruel, egoísta, repugnante, etc. Quando li o 1º capítulo do The God Delusion de Richard Dawkins, confesso que me doeu um pouco o coração, ao ler os adjectivos todos que ele atribui a Deus. Não estava habituado a formas tão desesperadas de mostrar que Deus não existe. Ele e outros acham-se com razão de fazer essas afirmações pois, afinal, um Deus que ordene, na sua lei, que os homossexuais devem morrer tem de ser repugnante mesmo.

No entanto, estas declarações são feitas por indivíduos que apenas lêem a Bíblia de modo superficial. Não reflectem nela! Apenas procuram “contradições” e “erros” que estejam ali à superfície, para depois poderem escrever um livro mostrando como o Deus da Bíblia não é um Deus de amor.

No post “Mais um contributo da Igreja Católica para um mundo melhor” do blogue O Número Primo (adoptei aquela política de não linkar sítios que não se relacionem com a minha lógica – interessados favor procurar no google), o Rui Passos Rocha deixa o seguinte comentário:
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“Não se deite com um homem como se deita com uma mulher. É repugnante” – cap. 18
Por “ser repugnante”, “terão de ser executados” – cap. 20
“Se um homem se deitar com a mulher e a mãe dela, comete perversidade. Tanto ele como elas [onde se inclui a mulher] serão queimados com fogo, para que não haja perversidade entre vocês” – cap. 20
“Se um homem se deitar com uma mulher durante a menstruação dela e com ela se envolver sexualmente, ambos serão eliminados do meio do seu povo, pois exposeram o sangramento dela” – cap. 20
“Os homens ou mulheres que, entre vocês, forem médiuns ou consultarem os espíritos, terão que ser executados. Serão apedrejados, pois merecem a morte” – cap. 20

In Levítico
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O Rui acha incompreensível Deus mandar matar os homossexuais, os adúlteros, os sexualmente depravados e os espíritas. E porque é que o Rui e todos os outros que pensam como ele estão errados? Porque é que eles falham completamente a questão? Leiam as restantes partes!

Utilizo o nome do Rui mas isto serve para todos os que pensam como ele. Portanto, podes substituir o nome do Rui pelo teu!
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Se o Rui acha que são leis completamente incompreensível e ridículas…

Com que base, em que contexto o Rui julga Deus? A hipótese da Evolução fez com que o Rui vivesse no século XXI… separado dos tempos do Levítico por 60 séculos (de acordo com a cronologia bíblica). O Rui está a julgar Deus com as suas ideias domesticadas pelo século XXI, tendo por base a concepção de lei vigente nos dias actuais. Como é que se pode opinar sobre algo que foi escrito num contexto histórico-social completamente diferente dos nossos dias?

Em Deuteronómio 23:13 encontramos uma lei de higiene que faz rir qualquer um (a mim, pelo menos, fez-me rir quando a li pela primeira vez): “Entre os teus utensílios terás uma pá, e quando te assentares lá fora [fora do arraial], então com ela cavarás e, virando-te cobrirás o teu excremento“. Mas o que é isto? Deus a dizer a pessoas adultas que não se pode fazer bosta (literalmente) em qualquer lado e que é necessário cobri-la? Não é demasiado óbvio? Até o meu primo de 7 anos sabe que existem lugares próprios para fazer este tipo de coisas. Mas o meu primo de 7 anos vive num tempo completamente diferente, em condições diferentes daquelas pessoas do Levítico. Ele é ensinado, desde pequeno, que se faz chichi no pote em forma de carro do Noddy.

A numerosa população de judeus que saiu do Egipto sob o comando de Moisés estava ainda a aprender a viver em sociedade pois, ao contrário do que prega a Evolução, o Homem não existe há uns poucos milhões de anos! “Mas ó Sabino… os egípcios já viviam em sociedade e sabiam onde defecar!“. Mas os israelitas não estavam a viver em casas ou em grutas ou em cavernas. Eles estavam a viver no deserto! Nos tempos bíblicos, nunca uma população tão numerosa tinha vivido nestas condições. Não é de estranhar que a construção das pirâmides do Egipto ainda hoje continue a ser uma incógnita (há quem acredite que extra-terrestres as construíram – gente com formação académica). Como é possível construções tão majestosas surgirem em tempos tão remotos? Só muita gente mesmo poderia contribuir para a sua construção.

Se o nosso cérebro é um produto de milhões de anos, o resultado de processos impessoais e sem nenhum sentido, então porque é que “isto” que te parece errado e “aquilo” que te parece correcto na minha opinião é precisamente o oposto? Ei, não tenho culpa… eu vim do mesmo processo não direccionado que tu!

Um exemplo prático… há 80 anos a questão do aborto não se colocava. Pelo menos não tão incisivamente como nestes últimos anos. Tomando o exemplo de Portugal, hoje em dia já é legal abortar. Os nossos bisnetos certamente dirão: “A sério? No teu tempo havia quem não aceitasse o aborto? Foi preciso um (dois) referendo para ser legal praticá-lo? O pessoal da tua geração era mesmo quadrado!“. Apesar de haver sempre quem discorde, há assuntos que vão ficando banais ao longo dos tempos. Num enquadramento diferente, a questão da eutanásia é outro exemplo semelhante. O que para ti hoje é usual, para pessoas do século passado podia não ser. Da mesma forma, o que para ti hoje é afronta, para pessoas de gerações seguintes poderá ser normal.

O teu problema é não te imaginares na época em que o Levítico foi escrito. O teu problema é pensares que o contexto histórico-social do tempo de Moisés deve ser considerado igual ao teu.

 

Se o Rui acha que Deus é mau por fazer uma lei onde o homossexual deve ser morto…

Deus é mau e injusto? Não! Deus é verdadeiro e justo! Se alguém vir um pai ou uma mãe a dar 3 safanões ao filho de 9 anos não diz nada. Até dá vontade de rir. Já se for Deus, o Pai do Céu, não se pode tolerar pois ele diz ser bom e misericordioso. Eu sei que dá muito trabalho aos ateus pensarem nas palavras que lêem na Bíblia em vez de se limitarem a ler com a mente focada nas possíveis contradições, mas façam um esforço… vá lá.

Se não deres educação ao teu filho, desde pequeno, muito provavelmente vais ter um filho marginal ou rebelde. Os pais castigam os filhos para o seu bem, nunca deixando, contudo, de os amar. Assim é Deus, que é considerado o Pai da Sua criação, que também castiga os Seus filhos quando há necessidade (Nota: o povo tem tendência para dizer que todos são filhos de Deus, o que não é verdade. Criação de Deus é uma coisa, filho de Deus é outra coisa – consultar João 1:12 para tirar dúvidas).

Podemos pensar as leis apresentadas pelo Rui de outro ponto de vista. Não havia medicina naquele tempo sendo que a mínima infecção era irreversível (a não ser quando o próprio Deus operava – ver, por exemplo, Números 21:8). Desta forma, em meu entender, era necessário que o povo tivesse em mente os pesados castigos que lhes poderiam advir da sua desobediência. Nunca esquecer que estas leis tinham por trás o amor de Deus pelo seu povo. Estas leis de saúde e higiene (como aquela de enterrar a bosta fora do arraial) revelam o cuidado de um Deus minucioso, preocupado com o seu povo.

E acaso podes tu dizer que Deus foi injusto? Então pensa comigo: 1) se Ele criou estas leis porque via pessoas do Seu povo a praticar estes actos, então ele foi misericordioso porque não os castigou. Criou a lei e esqueceu a desobediência anterior à mesma; 2) Se Ele criou estas leis mas ninguém cometia estes actos então ele também não foi injusto porque não castigou ninguém. E mais… ele mostrou que sabia que alguém havia de colocar em mente estas práticas. Em nenhuma situação foi injusto. “Se existir algum espírita entre vós a pena é a morte, pois só eu sou Deus” era uma regra naquele tempo tal como hoje “se fizeres pirataria podes ficar até 3 anos na prisão“. A única diferença é mesmo a autoridade – num mundo com polícia podes escapar… com Deus não tens essa possibilidade.

É de salientar ainda o parêntese recto que o Rui faz nesta oração: “Se um homem tomar a mulher e a mãe dela, comete perversidade. Tanto ele como elas [onde se inclui a mulher] serão queimados com o fogo“. Ele dá a entender que é injusto a mulher do homem que também fornicou com a mãe ser morta. Sinceramente, não percebo qual a objecção aqui. Só se o Rui entende este versículo como se ele dissesse que o homem fornica com a mãe da sua mulher sem esta última saber. Não me parece que seja isso que o versículo diz. A mim parece-me, claramente, que se refere a quando o homem fornica com as duas, tendo estas pleno conhecimento do acto.

 

Mas Deus disse “Não matarás” e depois fez leis cujo castigo implicava a morte do transgressor…

A palavra hebraica usada neste mandamento é ratsach e aparece na Bíblia sempre que alguém: comete homicídio, mata de forma premeditada ou mata por ódio ou por reacção negativa (Foi o que Moisés fez quando matou o egípcio). Claro que estas questões linguísticas só fanáticos como eu sabem. Os ateus escrevem no Google Deus mandou matar?“, lêem os sites ateístas, abrem os blogues dos cristãos e atiram-lhes com isso à cara (no meu caso eu posso dizer -> como se isso afectasse a minha fé).

Deus é senhor da Sua criação. Ele tem o direito de castigar o Homem da maneira que quiser. Isto não quer dizer que Ele está a quebrar uma lei dada por Ele mesmo, uma vez que outra regra está em causa. O “Não matarás” é tão regra como o “Não se deite com um homem como se deita com uma mulher“, apesar de a primeira regra ter surgido nos 10 Mandamentos. Em nenhum lado da Bíblia Deus diz que as leis dos 10 Mandamentos são mais importantes ou são para serem mais cumpridas do que as restantes.

Para mostrar a estupidez e fanatismo ateísta, deixem-me colocar uma questão: nos Estados Unidos da América pratica-se, em alguns estados, a pena de morte. O homem ou homens que executam o infractor estão a matar uma pessoa, seja por que método for. Tu nunca vais dizer que eles também deveriam ser castigados por estarem a matar uma pessoa. Porquê? Porque é a autoridade que está a funcionar neste caso. Ele sabia o que lhe poderia acontecer por praticar o acto que o levou à condenação. O engraçado é que nas questões do Levítico os ateus já não acham a mesma coisa. “Então Deus diz para não matar e depois dá ordens para matar?”, dizem eles, irracionalmente.

Deus dá regras às pessoas para o seu próprio benefício. Isso é o que a maioria dos cépticos esquece. Pensam que Deus está apenas a ser caprichoso. Mas quando se dignam a analisar estas regras, pensando no devido contexto da época, vêem que elas têm uma razão de ser. Todos nós temos de respeitar certas regras, concordemos ou não com elas. Se as desrespeitarmos arriscamo-nos a sofrer as consequências. Era também isso que acontecia no tempo do Levítico.

Não cabe ao subordinado julgar se a autoridade está certa ou errada. Ele pode discordar, mas isso não invalida o facto de ele ter de se sujeitar a ela. Sejam pais, professores, polícias, governadores ou juízes. É ingenuidade pensares num mundo sem autoridades superiores, e é ingenuidade ainda maior pensares num Deus sem autoridade para julgar e condenar segundo os Seus (e não os teus) critérios de justiça.

Os filhos, quando pequenos, certamente não entendem muitas das ordens ou forma de proceder dos pais. E repara que eles estão apenas a poucos anos de serem adultos e de fazerem eles mesmos as coisas que não compreendiam quando putos. Visto isto, a que distância tu te consideras de Deus para achares que podes entender os Seus desígnios e julgá-los? Com que direito dizes tu que “esta parte da Bíblia é estúpida e ultrapassada”?

Mas se estas regras te fazem assim tanta confusão deixa-me dar-te uma boa notícia. Jesus Cristo disse que veio para cumprir a lei, pelo que se quiseres ter relações sexuais com a tua namorada enquanto ela está com o período, força. Já não tens de estar sujeito às leis de Moisés (notar que há certos princípios que continuam em vigor no Novo Testamento).
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“Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo?” (II Coríntios 2:16a)

“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir” (Mateus 5:17)