Uma crítica ao programa adaptacionista


O adaptacionismo surgiu como uma conseqüência direta dos postulados iniciais da teoria sintética: a seleção natural e o gradualismo. Uma das maiores críticas levantadas contra o adaptacionismo veio a público em 1979, quando Stephen Jay Gould e Richard Lewontin publicaram um polêmico artigo intitulado “The Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: A Critique of the Adaptationist Programme” (Os Tímpanos de São Marcos e o Paradigma Panglossiano: Uma Crítica ao Programa Adaptacionista). Nele, os autores aprofundam a critica ao papel exclusivo que a seleção natural ocupa no estudo da evolução conforme o argumento da teoria sintética.

Neste artigo, Gould e Lewontin traçam uma analogia entre arquitetura e biologia, tomando como exemplo o domo da Catedral de San Marco, em Veneza. A Catedral de San Marco é ornada com belos mosaicos nos espaços triangulares situados onde os arcos redondos de sustentação se encontram em um ângulo reto – uma característica das construções conhecidas como ‘tímpanos’ (spandrels). ‘Tímpanos’ são os espaços cônicos formados pela intersecção de dois arcos em ângulo reto, subprodutos arquitetônicos para a montagem de um domo em arcos circulares. Esses espaços ou tímpanos existem como um desfecho necessário da construção sobre arcos, uma conseqüência desse tipo de estrutura. Trezentos anos após a construção dessa catedral, vários mosaicos foram pintados nesses espaços, e a impressão dos observadores é de que os espaços foram cuidadosamente realizados para a ostentação desses belos mosaicos e painéis, quando na verdade eles desempenham um papel secundário na construção, ou seja, são subprodutos arquitetônicos criativamente utilizados – se a estrutura não exigisse os tímpanos, estes adornos provavelmente não existiriam.

O que os autores buscam é fazer uma analogia entre arquitetura e biologia, para investigar o que acontece na evolução dos seres vivos. Segundo a teoria sintética, a seleção natural age sobre a variação hereditária, preservando as características vantajosas aos organismos. Conseqüentemente, todas as características dos organismos são resultado de sua adaptação ao meio. A metáfora da arquitetura serve para ilustrar o ponto de vista de Gould e Lewontin de que algumas das características e designs corporais podem ter resultado de processos não-adaptativos.

Esses processos não-adaptativos podem se referir a fatores contingentes impostos pelo ambiente ou a relações ecológicas, bem como a restrições impostas pela história evolutiva pregressa da espécie. Os spandrels, argumentam os autores, são resultados forçados pela estrutura da construção, uma vez que se adotam soluções para determinado problema (a construção de um domo para a catedral, neste caso), mas eles mesmos não são parte da solução do problema, surgem como conseqüência ou subproduto das soluções arquitetônicas empreendidas:

Como os espaços não podem deixar de existir, são usados com freqüência para engenhosos efeitos ornamentais. De certa forma, estes desenhos representam uma ‘adaptação’, mas a restrição arquitetônica vem nitidamente em primeiro lugar. Os espaços surgem como um subproduto necessário do teto com abóbada em arcos; seu uso adequado é um efeito secundário. (…) Mas os biólogos evolutivos, com a sua tendência a enfocar exclusivamente a adaptação imediata às condições locais, tendem a ignorar restrições arquitetônicas… (e dão explicações inversas no melhor estilo Doutor Pangloss)” (Gould, 1993:147).

Ainda em tom de analogia, o texto critica o adaptacionismo por inventar estórias adaptativas similares aos contos para crianças como os de Ruyard Kipling, como por exemplo: “Como o leopardo conseguiu suas manchas” ou “Como o camelo ganhou sua corcova”, limitando a função do biólogo à tarefa de observar as características de um organismo e criar justificativas para que elas sejam adaptativas. Gould e Lewontin se referem ao programa adaptacionista como o ‘Paradigma Panglossiano’, em referência ao personagem Doutor Pangloss do romance Cândido de Voltaire. O programa adaptacionista é acusado de cometer essencialmente o mesmo erro do Doutor Pangloss, embora no contexto da biologia evolutiva – criar estórias adaptativas plausíveis, porém não fundamentadas:

… que as coisas não podem ser outras do que elas são, uma vez que as coisas foram feitas para um propósito. Note: nossos narizes foram feitos para colocarmos óculos, portanto, temos óculos. Pernas foram feitas claramente para as calças, e as usamos”(Apud Gould, 1979).


É isso!

Fonte:
Anderson Barbosa Felizardo: “Críticas Atuais ao Neodarwinismo: A Ampliação da Janela Explicativa da Teoria Evolutiva Contemporânea” (Dissertação apresentada ao curso de Pós-Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre). Orientador: Ernesto Perini Motta Santos. Co-orientação: Nelson Monteiro Vaz. BELO HORIZONTE, 2005.

Nota:
O título e a imagem não se incluem na referida tese.

 

fonte do artigo :http://www.ibamendes.com/2010/11/uma-critica-ao-programa-adaptacionista.html

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