O Darwin que muitos não querem ver.


“Ao contrário do que alguns ainda podem imaginar, as bases da história evolutiva moderna não se fizeram exclusivamente sobre o estudo dos animais e plantas in natura. Muitos dos fatores mais importantes utilizados nas discussões evolutivas são provenientes das observações relacionadas às sociedades humanas.

Freqüentemente, Charles Darwin em A Origem do Homem faz comparações entre humanos (civilizados e selvagens) e outros animais, sempre que possível correlacionando os grupos, populações e sociedades. Ridley (2004) afirma que Darwin foi pioneiro na idéia de procurar o caráter do homem no comportamento do macaco, além de ter tentado demonstrar que existem características universais presentes em todos os humanos, como sorrir ou sentir raiva. Ao mesmo tempo em que Darwin perseguia a ancestralidade comum dos homens, conseguiu deixar um rastro de preconceito onde quer que tenham chegado os seus escritos.

Há uma carta de Karl Marx para Engels em que o autor de o Capital ironiza as teorias darwinianas, taxando-as de mera cópia para os animais e plantas do modelo da sociedade inglesa da época (Freire-Maia, 1988). O próprio Friedrich Engels (1979) criticou contundentemente as idéias de Charles Darwin, alertando para os perigos da transposição de teorias reacionárias e questionáveis da esfera humana para a história natural, revertendo-as posteriormente em “história da sociedade”. As preocupações de alguns “sociólogos” em relação às teorias darwinistas estiveram presentes nas primeiras divulgações de A Origem das Espécies. O mote da polêmica foi provavelmente a consonância entre evolução biológica e capitalismo selvagem.

Além de se referir ao longo tempo que Charles Darwin levou para divulgar seu trabalho, os biólogos evolucionistas comumente ressaltam que após a leitura do ensaio de Malthus, Darwin finalmente conseguiu identificar um agente para a seleção natural.

É fato que a obra de Charles Darwin tem forte raiz na teoria econômica moderna e nas formas precursoras do capitalismo que hoje conhecemos. Negar estas correlações não é conveniente na análise dos próprios rumos tomados pelas teorias evolutivas “pós-darwinistas”.

Matt Ridley (2000) afirma que Thomas Hobbes foi o antepassado intelectual de Charles Darwin em linha direta e, ao apresentar sua “genealogia de influências”, revela que muitos conceitos econômico-ocidentais devem continuar a ocupar um nicho epistemológico na biologia moderna (porventura na pós-moderna…):

Hobbes (1651) gerou David Hume (1739), que gerou Adam Smith (1776), que gerou Thomas Robert Malthus (1798), que gerou Charles Darwin (1859). Foi depois de ler Malthus que Darwin deixou de pensar sobre competição entre grupos e passou a pensar sobre competição entre indivíduos… O diagnóstico hobbesiano – embora não a receita – ainda está no centro tanto da economia quanto da biologia evolutiva moderna (… Darwin gerou Dawkins) (Ridley, 2000, p. 284).

Darwin observava com maior facilidade (talvez todos nós) as relações entre populações distintas – raposas perseguindo faisões ou gatos devorando ratos. A evolução, contudo, não poderia ser explicada “apenas” sob este aspecto. A análise mais atenta do naturalista levou-o a conclusão que a evolução só poderia ocorrer através da variedade presente nos indivíduos da mesma espécie e a conseqüente competição intra-específica, que acarretaria no favorecimento (ou não) de algumas características sobre outras. O ensaio de Malthus “revelou” a Darwin que a competição entre os indivíduos seria inevitável, pelo fato destes necessariamente utilizarem os mesmos recursos. Como conseqüência, Darwin passou a “ter que ver” todas as diferenças possíveis que pudessem desencadear o processo evolutivo. Nesta perspectiva, uma das conclusões alcançadas pela A Origem do Homem é que a seleção natural teria eliminado os seres humanos considerados “fracos de mente”, daí a “baixa” freqüência destes nas populações em geral. Para as proposições darwinistas, todo “estranho” (albinos em uma população negra; baixos em uma população alta etc…) seria efêmero, e esperava-se que deixasse poucos descendentes.

A xenofobia é um tema recorrente em A Origem do Homem. Em muitos trechos Charles Darwin observa que, entre indivíduos de um mesmo povo, pode se esperar fidelidade, mas entre indivíduos de povos diferentes jamais, especialmente entre “selvagens” e “civilizados” (Darwin, 2002). As comparações feitas por Darwin (2002) podem ser interpretadas como uma referência ao maior grau de proximidade entre as “raças inferiores” e os animais em geral. Embora nunca diga isto de forma sistemática ou clara, em alguns trechos da obra, Charles Darwin demonstra seus preconceitos. Ele até considera as “raças bárbaras” próximas das civilizadas, mas não mais do que um símio ou um idiota o são.

A grande tendência, nos nossos afins mais próximos, os símios, nos microcéfalos idiotas e nas raças bárbaras melânicas do gênero humano, em imitar qualquer coisa que ouçam se torna digna de nota… (Darwin, 2002, p. 108- 109 – destaque meu).

Quando é impelido pelo contexto a comparar animais e homens, Darwin (2002) parece preferir fazê-lo entre animais domésticos com homens civilizados e criaturas selvagens com os povos bárbaros e primitivos (ou designados de forma generalizante como “raças melânicas”). Uma das conclusões alcançadas com base nestes tipos de comparações é a de que os domésticos (animais e homens) são mais fecundos e resistentes às doenças e variações do que os selvagens (… também, animais e homens), menos profílicos e frágeis, especialmente quando retirados de seus ambientes naturais.

A sombra perversa do preconceito passeava pela Europa desde o colonialismo ajudando, a criar um cenário ideal para que entrassem em cena o racismo científico e a adoção de classificações que excluíam seres humanos desta condição. A impressão que tenho é a de que Darwin não enxergava tantas diferenças ou, pelo menos, não as enxergava em maior número do que as semelhanças. Talvez pelo fato de estar envolto em uma cultura tradicionalmente racista, Darwin devesse a satisfação social de apontar alguma superioridade européia. É possível que algumas posturas textuais de Darwin se dessem em função dos convencionalismos dos acadêmicos ingleses ou até para tornar o livro mais acessível aos seus elitizados leitores. Todavia, muitos desdobramentos de sua teoria evolutiva serviram como fomento de práticas tão perversas que terminaram por levar o darwinismo ao patamar de um dos grandes algozes da humanidade em todos os tempos (Rose, 2000).

Os fatos observados no final do século XIX até a primeira metade do século XX foram o estopim de uma cultura de guerra há muito instaurada. Nesta perspectiva, responsabilizar unicamente Charles Darwin pela fundamentação científica da intolerância e do extermínio não me parece justo; em outra, minimizar suas influências para algumas das mais terríveis formulações teóricas e práticas dos períodos subseqüentes à divulgação de seus trabalhos é improcedente. Desde sua concepção, o darwinismo foi uma das poucas propostas que obtiveram o demérito de ofender a praticamente todos – a esquerda política, por levantar a possibilidade de determinismo genético; a direita, por solapar os valores tradicionais da sociedade e dos intelectuais em geral, por simplificar e reduzir as ações humanas a atitudes individuas, instintivas e egoístas (Foley, 2003). O desagrado, entretanto, parece ter sido substituído pelo fatalismo de uma verdade que somente foi questionada depois de causar grandes estragos.

A leitura de A Origem do Homem e a Seleção Sexual deixa claro que as portas do racismo científico, eugenia e dominação estavam mais abertas e largas. As discussões sobre as diferenças entre as “raças” estavam na atmosfera científica da época e muitos trabalhos corriam nos meios intelectuais revelando as mais variadas concepções antropológicas. Darwin (2002) refere muitos artigos e ensaios, mas dedica atenção especial aquele que hoje é considerado como um dos maiores aliados para a desigualdade entre as populações – o texto de Galton.

Francis Galton publicou em 1869 Hereditary Genius: and Inquiry into its Laws and Consequences, considerado o texto fundador da eugenia (Schwarcz, 2002) e mencionado por Darwin em A Origem do Homem em 1871. Neste livro, Galton, que era primo de Darwin, busca demonstrar a partir de um método estatístico e de análise genealógica, que a capacidade humana era função da hereditariedade e não da educação. O estudo da hereditariedade iria tornar-se a obsessão de Galton durante sua vida inteira, uma vez que ele não conseguia imaginar nenhum meio melhor de aprimorar o destino, o caráter ou as habilidades dos seres humanos (Rose, 2000).

A associação entre a lei natural proposta por Darwin e as conclusões construídas por Galton eram “compatíveis epistemologicamente”, pois partiam dos mesmos princípios de luta pela vida, sobrevivência dos mais aptos e hereditariedade. Darwin “determina” em A Origem do Homem que

No que tange o intelecto, os indivíduos da mesma espécie são graduados da absoluta imbecilidade à excelência (Darwin, 2002, p. 99).

De onde se abstrai que as características intelectivas eram inatas. Seguindo o curso natural, deve-se esperar que em todos os indivíduos de uma espécie, no caso a humana, existam “variações intelectivas”. Assim sendo, não se podem traçar grupos mais inteligentes ou mais imbecis, já que se espera que os grupos apresentem uma freqüência regular entre “gênios” e “idiotas”. O problema é que Darwin abre um precedente. Ele considera as raças como subespécies e, desta forma, as freqüências de imbecis ou gênios podem variar entre as populações de forma diferenciada. Ele prevê que,

No futuro, não muito longínquo, se medido em termos de séculos, num determinado ponto as raças humanas civilizadas terão exterminado e substituído quase por completo as raças selvagens em todo mundo (Darwin, 2002, p. 88).”


É isso!

Fonte:
EDUARDO PAIVA DE PONTES VIEIRA: “BIOLOGIA, DIREITOS HUMANOS E EDUCAÇÃO: DIÁLOGOS NECESSÁRIOS. (Dissertação apresentada à comissão Julgadora do Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico da Universidade Federal do Pará, sob a orientação da Professora Doutora Silvia Nogueira Chaves, como exigência parcial para Obtenção do título de MESTRE EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS, na área de concentração: Educação em Ciências). Universidade Federal do Pará. Belém, 2006.

Nota:
O título inserido no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

 

fonte :http://www.ibamendes.com/2011/01/o-darwin-que-muitos-nao-querem-ver.html

 

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