O macaco na retórica darwinista.


“A impressionante semelhança física entre os diferentes tipos de macacos e os seres humanos já saltava aos olhos dos pensadores muito antes de Darwin entrar no cenário da história natural. Os naturalistas do Iluminismo com frequencia reconheciam essas semelhanças entre homens, macacos e antropoides, como era o caso do anatomista inglês Edward Tyson, que em 1699 escreveu um tratado sobre o chimpanzé intitulado Orang-outang, sive homo sylvestris. Nesse estudo Tyson chamava o chimpanzé de orangotango, ou pigmeu, e o incluía na série humana, sob o nome latino de Homo Sylvestris, ou, como muitas vezes os ingleses os chamavam, o ‘homem selvagem das matas’. Essa escolha implicava que as categorias de ‘humano’ e ‘orangotango’ podiam não ser completamente distintas (Ritvo, 2000: 848).

Com a sistematização taxonômica proposta por Carolus Linnaeus (1707-1778) no século XVIII, a espécie humana foi classificada como pertencente ao reino animal e à classe dos mamíferos, e locada junto aos macacos, antropoides, prossímios e morcegos na ordem que Lineu batizou de ‘primatas’ (Ritvo, 2000: 849). Antes de Darwin e do darwinismo, portanto, já havia o reconhecimento das semelhanças entre os humanos e os macacos, que eram incluídos em uma mesma categoria taxonômica, o que implicava um parentesco mais próximo dos homens com esses animais do que com qualquer outra espécie viva. Contudo, em contraste com o modelo darwinista que emergiria na segunda metade do século XIX, na concepção lineana essa proximidade de parentesco era encarada principalmente de um ponto de vista taxonômico, apoiado fundamentalmente em uma visão de mundo criacionista e fixista, baseada na noção estática de uma Grande Cadeia do Ser nos moldes aristotélicos, e não em uma visão que levasse em conta a transformação de espécies umas em outras (Ritvo, 2000: 851). Ainda assim, teses como a de Tyson e a de Lineu – e, posteriormente, a de Darwin – não gozaram de aceitação universal. Muitos naturalistas envolvidos com uma linha de pensamento teológico mais conservador relutavam quanto a serem inseridos em uma conexão direta com o reino animal, e se as semelhanças físicas eram inegáveis, o recurso era apelar para as diferenças no campo das faculdades mentais. A despeito do sólido status de Lineu como um grande sistematizador, a ordem taxonômica dos primatas, por ele proposta, era com frequencia rejeitada. O naturalista Thomas Pennant, numa obra intitulada History of quadrupeds, publicada em 1793, declarou que “minha vaidade não permitirá que eu seja classificado juntos com símios, macacos e morcegos”; outro pensador, W. Wood, em Zoography, or the beauties of nature displayed, um texto de 1807, argumentou que “talvez possamos ser perdoados pela repugnância que sentimos em colocar o macaco no topo da criação bruta, e assim associá-lo… com o homem” (ambos citados em Ritvo, 2000: 851). Além disso, mesmo entre aqueles que admitiam e propunham a inclusão do homem no reino animal e na ordem dos primatas parecia haver a preocupação em ressaltar diferenças anatômicas afirmativas da singularidade humana. A própria escolha, por Lineu, do nome da espécie como Homo sapiens enfatizava a sapiência humana como característica taxonômica distintiva, que o diferenciava dos demais primatas. Além disso, no século XIX havia um par mutuamente exclusivo de termos taxonômicos – hoje considerado obsoleto – que separava humanos de macacos e antropoides: esses últimos, por sua capacidade de usar os dedos dos pés em movimentos preênseis que os permitiam subir em árvores e manejar objetos, eram chamados de Quadrumana – que significa ‘quatro mãos’. Os homens, por sua vez, eram denominados Bimana (duas mãos), sendo, assim, encarados como uma espécie de primata mais sofisticado, com uma maior diferenciação anatômica nas extremidades de seus membros, em coerência com um caminhar ereto e mais elegante, e uma manipulação mais hábil do mundo exterior. Embora Thomas Huxley tenha desafiado essa forma arbitrária de classificação, demonstrando que os membros traseiros dos gorilas terminavam em pés, e não em mãos (Huxley, 1863), ainda assim vemos com frequencia o emprego do termo Quadrumana até mesmo em textos evolucionistas, como os do próprio Darwin.

De qualquer modo, desde antes do século XIX os macacos e antropoides já eram encarados como nossos possíveis ou prováveis parentes mais próximos, sendo objetos da atenção tanto de homens de ciência quanto do público leigo, e no período vitoriano os cidadãos europeus teriam pela primeira vez a oportunidade de ver com seus próprios olhos os grandes antropoides. Chegavam aos zoológicos londrinos os primeiros chimpanzés e orangotangos selvagens capturados em seus habitats naturais e trazidos de navio à Inglaterra, onde faziam grande sucesso como atrações públicas por alguns meses, antes de sucumbirem aos rigores do inverno europeu (Ritvo, 1987a: 31). Esses animais eram invariavelmente apresentados de maneiras que enfatizavam sua semelhança com os humanos: o público podia ver chimpanzés e orangotangos em suas jaulas sentados a uma mesa manejando garfos, bebendo xícaras de chá, dormindo sob cobertores. Esses animais recebiam nomes semelhantes aos dos humanos. No zoológico do Regent’s Park uma chimpanzé chamada Jenny era vista regularmente trajando uma camisola de dormir ou um roupão. Tommy, um chimpanzé que viveu nesse mesmo zôo em 1835 e 1836, era elogiado por sua ‘astúcia e sagacidade’, que muitos consideravam superior à do bebê humano e mesmo à de certos adultos. De outro chimpanzé, adquirido pelo Conde Fitzwilliam em 1849, se dizia que era capaz de caminhar de forma perfeitamente ereta e manipular objetos com a mesma habilidade que um ser humano, além de manifestar predileção por alimentar-se de bife e beber vinho (Ritvo, 1987a: 31).

Outra fonte de interesse do homem vitoriano eram os relatos de exploradores sobre a vida dos grandes antropoides nas selvas de onde eram nativos. Em 1861 o explorador franco-americano Paul Belloni du Chaillu publicava Explorations and Adventures in Equatorial Africa8, obra típica do século XIX, repleta de narrativas das aventuras e descobertas de um desbravador das selvas africanas. Nela du Chaillu relatava de forma tipicamente exagerada seus notáveis encontros com o gorila, animal praticamente desconhecido então do grande público. Esse livro tornar-se-ia um best seller comentado em toda imprensa, e a aparência e comportamento desse grande primata – então considerado o parente vivo mais próximo do homem – seriam objeto de grande curiosidade pública (Ellegard, 1990: 43). Embora relatos como os de du Chaillu apresentassem animais como o gorila na pele de uma fera perigosa, em descrições que valorizavam a bravura do explorador que os enfrentava em plena selva africana, também era comum nas narrativas sobre a vida selvagem desses animais a ênfase nas semelhanças comportamentais entre antropoides e humanos. Dizia-se que esses brutos eram capazes de manejar ferramentas primitivas, em relatos que chegavam ao ponto de descrever o uso de bordões de madeira por orangotangos, que usariam essas armas rústicas para atacar elefantes. Também se narrava que os orangotangos eram atraídos por mulheres, por vezes carregando-as à força. Um menino africano teria sido raptado por chimpanzés, e ao conseguir retornar teria relatado que fora muito bem tratado, especialmente pelas fêmeas (Ritvo, 1987a: 33).

Com o avanço do darwinismo, os primatas não-humanos adquiririam uma importância crescente na retórica evolucionista, em decorrência de sua posição na árvore filogenética na condição de parentes mais próximos não-extintos da espécie humana. Tanto suas estruturas anatômicas quanto suas faculdades mentais seriam arroladas na construção de um corpo de argumentos que visavam à corroboração da teoria darwinista da origem comum. O famigerado ‘debate do hipocampo’, no qual Thomas Huxley teria sido vitorioso ao demonstrar que o cérebro humano é muito mais semelhante ao dos grandes primatas do que estavam dispostos a admitir seus adversários criacionistas, é um bom exemplo de como os antropoides – no caso, o gorila – foram utilizados para reforçar as teses darwinistas. Além disso, também no campo das faculdades mentais os estudos evolucionistas recorreram fartamente ao comportamento dos primatas não-humanos. Nas páginas do Descent, Darwin (1874) apresenta inúmeros registros de evidências de inteligência, assim como de emoções similares às humanas em antropoides e macacos de várias espécies: a realização de um ato heroico por um pequeno macaco que arriscara a vida para proteger seu dono; o luto experimentado por uma mãe macaca com a perda de seu filhote; indivíduos criados em cativeiro que defendem seus donos de qualquer um que os ataque, defendendo também cães aos quais se afeiçoaram do ataque de outros cães; o enfurecimento ao perceberem que alguém ri deles; a excitação ou tédio; a aprendizagem da evitação de experiências dolorosas; o uso instrumental de pedras ou gravetos na função de martelos ou alavancas; a “ideia de propriedade”; a vingança de um babuíno contra um humano e posterior atitude de zombaria sempre que reencontrava essa pessoa; a capacidade de entenderem a maioria das coisas que lhes são ditas; o ciúme que alguns macacos sentem de seus donos, e assim por diante.

George Romanes, um darwinista particularmente dedicado ao estudo da mente animal, publicou mais de um livro específico sobre esse tema. Em Animal Intelligence, Romanes (1882 [1881]) dedica um capítulo especialmente aos primatas não-humanos. Nesse capítulo, Romanes afirma que, dentre as emoções, a simpatia é tão marcada nesses animais, que nenhum outro – nem mesmo o cão – os iguala nesse aspecto (Romanes, 1882 [1881]: 471), o mesmo valendo, no campo das faculdades do intelecto, para a racionalidade (p. 478). Outros atributos mentais que Romanes relaciona aos macacos e antropoides incluem: ‘solicitude e cuidados para com um companheiro morto” (p. 472); adoção de filhotes órfãos (p. 472); o prazer de brincar (p. 476); vingança e retaliação (p. 478); uso de ferramentas improvisadas (p. 480); hábito de castigar os filhotes (p. 482); uma intensa curiosidade (p. 495); a capacidade de descobrir e compreender certos princípios mecânicos básicos, tais como o do funcionamento de um parafuso (p. 497), e assim por diante.

No entendimento de Romanes, os primatas não-humanos eram de grande importância para o estudo da evolução das faculdades mentais. É por isso que, embora se refira a esses animais como “inúteis para todos os propósitos de trabalho ou arte, travessos como animais de estimação domésticos e em todos os casos, complicados de se manter”, Romanes encontra um propósito vital para o estudo dos macacos em geral. Afirmando que os primatas são “os mais próximos dos protótipos existentes da raça humana”, sustenta que esses animais são “de um ponto de vista evolutivo, os mais interessantes”, já que “em sua psicologia, assim como em sua anatomia, esses animais são os que mais se aproximam do Homo sapiens” (Romanes, 1882 [1881]: 471). Por esse motivo, Romanes conta que “considerando desejável para os propósitos desse trabalho”, pediu emprestado ao Sr. Sclater, um espécime vivo da coleção da Zoological Society. Seu pedido foi acolhido, e Romanes pôde levar um macaco da espécie Cebus fatuellus, que ele deixou sob a responsabilidade de sua irmã Charlotte, em cujo poder de observação o homem de ciência confiava plenamente. Levando a sério a missão a ela atribuída, Charlotte manteve um registro diário de anotações meticulosas do comportamento dessa mascote temporária com quem dividiu por algum tempo o lar, e que muito se afeiçoou à sua mãe inválida (Romanes, 1882 [1881]: 483). Na verdade, a ideia de tomar emprestado um macaco para observação não partira originalmente de Romanes. Sabendo da ovação recebida por seu discípulo e amigo em uma palestra por este proferida sobre a evolução humana por ocasião de um encontro da British Association em 1878, Darwin havia aconselhado Romanes a observar diariamente um macaco jovem, o conselho este que fora prontamente aceito (White, 2005: 72).

Podemos observar, assim, que com o advento do darwinismo os macacos e antropoides, que já eram objeto de interesse científico e do público leigo por suas contundentes similaridades com os seres humanos, experimentaram uma ascensão de seu status. De criaturas exóticas que pareciam representar caricaturas naturais do ser humano ou de parentes do Homo sapiens de um ponto de vista meramente taxonômico baseado em uma perspectiva fixista, esses animais se tornavam, nos discursos de Darwin e seus seguidores e aliados, em nossos parentes na carne e no espírito; na verdade, em nossos precursores mais imediatos, nossos antepassados na história da vida sobre a Terra. Essa formulação científica de um parentesco evolutivo entre macacos e homens não apenas desencadearia fortes reações emocionais entre leigos e especialistas, como também teria importantes implicações na valorização desse animal tanto em estudos evolutivos, como vimos acima, como também em estudos fisiológicos, conforme veremos adiante. Antes disso, porém, é preciso que nos debrucemos, ainda, na observação de dois outros animais grandemente valorizados na segunda metade do século XIX: o gato e o cão. Para uma melhor compreensão da inserção desses animais na cultura vitoriana faz-se necessário que se conheça um pouco do histórico do hábito, adquirido pelos britânicos, de criação de animais domésticos.”


É isso!

Fonte:
ANDRÉ LUIS DE LIMA CARVALHO: “ALÉM DOS CONFINS DO HOMEM: FRANCES POWER COBBE CONTRA O DARWINISMO NA CONTROVÉRSIA SOBRE A VIVISSECÇÃO NO REINO UNIDO – 1863-1904”. (Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz-Fiocruz, como requisito parcial para obtenção do Grau de Doutor. Área de Concentração: História das Ciências. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Waizbort). Casa de Oswaldo Cruz – FIOCRUZ. Rio de Janeiro, 2010.

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