Karl Popper e o Darwinismo como “Programa Metafísico de Pesquisa”


[…] “Quanto à própria teoria darwiniana, devo agora esclarecer que utilizo o termo “darwinismo” para indicar-lhe as versões modernas, que recebem denominações diversas, tais como “neodarwinismo” ou (dada por Julian Huxley) “Nova Síntese”. Ela envolve, em essência, os seguintes pressupostos ou conjecturas, a que adiante me referirei:

1. A grande variedade de formas de vida sobre a Terra origina-se de um número reduzido de formas, talvez de um único organismo: há uma árvore evolutiva, urna história da evolução.

2. Há uma teoria evolucionista que explica isso. Consiste sobretudo nas hipóteses abaixo:
(a) Hereditariedade: o descendente reproduz os organismos-pais, de maneira bastante fiel.
(b) Variação: há (entre outras, talvez) “pequenas” variações. As mais importantes dentre elas são as mutações “acidentais” e hereditárias.
(c) Seleção natural: há vários mecanismos através dos quais, não apenas as variações, mas todo o material hereditário é controlado por eliminação. Entre eles, estão os mecanismos que só permitem a disseminação das “pequenas” mutações; as “grandes” mutações (“monstros possíveis”) são, via de regra, letais e, por isso, eliminadas.
(d) Variabilidade: embora, em certo sentido — presença de diferentes competidores —, sejam as variações por motivos óbvios, anteriores à seleção, pode bem ocorrer que a variabilidade — o escopo da variação — seja controlada por seleção natural; com respeito, por exemplo, à frequência e extensão das variações. Uma teoria genética da hereditariedade e da variação pode chegar a admitir genes especiais a controlar a variabilidade dos demais genes. Podemos assim chegar a uma hierarquia ou, talvez, a estruturas de interação ainda mais complexas. (Não devemos recear as complexidades; sabemos que elas estão aí. Exemplificando: do ponto de vista de um adepto da teoria da seleção, somos compelidos a admitir que algo como o método do código genético de controle da hereditariedade é, por si mesmo, um produto inicial da seleção, e um produto altamente sofisticado.)

Os pressupostos (1) e (2) são, a meu ver, essenciais para o darwinismo (de par com alguns pressupostos acerca de um ambiente mutável, dotado de algumas regularidades). O ponto (3), a seguir, é uma reflexão que faço em torno do ponto (2).

(3) Ver-se-á que existe uma estreita analogia entre os princípios “conservadores” (a) e (d) e aquilo que denominei de pensamento dogmático; e, de modo semelhante, uma analogia entre os pontos (b) e (c) e aquilo que denominei pensamento crítico.

Quero agora apresentar algumas das razões que me levam a ver o darwinismo em termos de metafísica e de programa de pesquisa.

É metafísico por não ser suscetível de prova. Poder-se-ia pensar o contrário. Parece que ele assevera que, se algum dia encontrarmos nalgum planeta vida que satisfaça às condições (a) e (b), então (c) surgirá e trará, com o correr do tempo, uma rica variedade de formas distintas. O darwinismo, porém, não assevera tanto. Com efeito, admitamos que em Marte haja uma vida que consista em exatamente três espécies de bactérias com equipamento genético semelhante ao de três espécies terrestres. Estaria refutado o darwinismo? De modo algum. Diremos que essas três espécies, dentre as muitas formas de mutação, eram as únicas suficientemente bem ajustadas para sobreviver. E asseveraríamos o mesmo, se houvesse apenas uma espécie (ou nenhuma). Desse modo, ocorre que o darwinismo realmente não prevê a evolução da variedade. E, portanto, não pode explicá-la. Quando muito, pode prever a evolução da variedade “sob condições favoráveis”. Entretanto, dificilmente se poderá descrever, em termos gerais, o que sejam condições favoráveis — só se poderá dizer que, estando elas presentes, surgirão formas várias.

Entendo, todavia, que focalizei a teoria por seu melhor aspecto — quase pelo aspecto em que ela é mais suscetível de prova. Poder-se-ia dizer que ela “quase prevê” uma grande variedade de formas de vida. Em outros campos, seu poder preditivo ou explicativo é ainda mais desapontador. Concentremo-nos na “adaptação” À primeira vista, a seleção natural parece explicá-la e, em certo sentido, isso realmente ocorre; mas não de maneira que se possa considerar científica. Dizer que uma espécie hoje viva está adaptada a seu meio é, em verdade, quase tautológico. Com efeito, empregamos os termos “adaptação” é “seleção” de modo tal que se torna cabível afirmar que, se a espécie não se houvesse adaptado, ela teria sido eliminada por seleção natural. De outra parte, se uma espécie foi eliminada, isso deverá ter ocorrido pelo fato de ela se adaptar mal às condições. A adaptação (ou aptidão) é definida pêlos modernos evolucionistas como um valor de sobrevivência, e pode ser medida em termos de êxito efetivo quanto à sobrevivência: dificilmente haveria possibilidade de submeter a prova uma teoria tão frágil quanto essa” […]


Fonte:
Karl Popper: “Autobiografia Intelectual“. Tradução: Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Motta. Editora Culturix. São Paulo, 1977, p. 179-181

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