Desenganando várias pegadinhas do neo-ateísmo


Nos slogans do neo-ateísmo, há várias frases e slogans que são usados como arma de argumentação sem, no entanto, necessitarem de um post inteiro de análise como faço com várias outras técnicas. Uso esse post para desenganar algumas das pegadinhas propostas em debates, de forma rápida e concisa. São elas:

1. Deus te ama… mas vai te mandar para o Inferno!

Na verdade, Deus não vai “mandar” as pessoas para o Inferno.

Para responder essa questão, precisamos saber quais as características de Deus.

Na religião, ele é descrito como um ser todo-bom, com várias qualidades e valores morais que são o padrão objetivo de comparação na realidade. Dois desses atributos de Deus seriam, pois, a justiça e a misericórdia.

Isso gera uma aparente contradição. Ora, justiça requer punição para pecados. Uma pessoa não pode matar, roubar, mentir, etc e sair impune. Por outro lado, misericórdia exige perdão dessas mesmas falhas. Então, ao mesmo tempo, Deus teria que punir e perdoar os erros das pessoas.

A teologia ofereceu uma solução para esse problema (que simplifico um pouco aqui): todos estão aptos a receber a misericórdia e o perdão – e foi para isso que ocorreu a crucificação de Jesus. Basta aceitar o seu sacrifício para receber o perdão pelas suas falhas.

Mas se você recusa a misericórdia e a compaixão, você está de volta apenas para a justiça. Sua conduta será analisada por esse padrão. E, nesse caso… só temos que desejar boa sorte.

Como vemos, por essa resposta Ele não “manda”. A pessoa que escolhe livremente qual caminho prefere tomar, que pode resultar em algo ruim, de fato, pela necessidade de aplicação da justiça.

[A questão natural que surge depois dessa explicação é “E os que nunca ouviram falar?”. Nesse caso, ver meu artigo “Um poço de estupidez: Cristina Rad e seu show de ferocidade – Parte II”, pergunta °4]

2. Teístas são hipócritas, pois negam a existência de um infinito real e dizem que Deus é infinito

Para falar a verdade, acho que já até publiquei um vídeo do William Lane Craig falando sobre isso. Mas sempre é bom refutar novamente, pois essa acusação também é frequente.

A frase “Não existe um infinito real” refere-se a um valor matemático: um conjunto formado por pequenas partes finitas que, juntas, formam um grupo infinito de coisas. Segundo argumentos como o da Causa Primária ou Kalam, esse conjunto é apenas uma abstração da nossa mente para ajudar em operações e cálculos, não um dado experimental que se obtenha em ato.

Já a frase “Deus é infinito” é apenas um adjetivo para ilustrar as qualidades divinas – do tipo, ser onisciente, onissapiente, onibenevolente, etc. É como falar para um amigo do qual você goste muito: “Cara, você é maior sujeito que já conheci!”. Neste caso, é claro que não estamos nos referindo à altura da pessoa, mas a suas qualidades pessoais que ajudam a reforçar o companheirismo.

Logo, não há contradição entre a inexistência de um infinito real e a o Deus “infinito”.

[Também se usa a palavra “finito”, algumas vezes, para distinguir entre o transcendental e o contingente ao tempo e o espaço – nos somos limitados pela matéria e pelos efeitos do tempo (como nascimento-morte), assim como também eram descritos os deuses politeístas.]

3. “Assumir uma não-existência a partir da ausência de evidências não é achismo, é lógica” ou “Se não foi provado que existe, não existe.”

Vários neo-ateus acham que, na falta de evidências ou na rejeição pessoal delas, para a existência de Deus, segue logica e inescapavelmente a conclusão de que Deus não existe. Ou seja: ausência de evidência seria evidência de ausência.

Mas qual regra lógica permite fazer essa inferência? Nenhuma.  Só podemos dizer que ausência de evidência é ausência de evidência quando saberíamos especificar quais seriam as evidências esperadas no caso de existência. Por exemplo: eu não tenho R$10.000.000,00 na conta do banco. Se eu tivesse, quando expedisse um extrato bancário esse seria o número a aparecer nele, não um outro bem menor. Portanto, podemos dizer que não existe essa quantidade toda na minha conta corrente.

Todas as provas para a existência de Deus podem falhar, mas ainda poderia ser o caso de Deus existir. Mostrar que faltam evidências ou que elas são falhas não é o suficiente por si só. Na falta de evidências que o átomo existia há 6.000 anos, não implicaria a inexistência dos átomos. Mostraria apenas… que as evidências a favor não eram suficientes no momento.

Uma última pergunta: quantos defensores da idéia que ausência de evidências é igual a evidência de ausência diriam, com um fuzil apontado direto no meio de suas cabeças,  “Ah, pode atirar, eu não tenho nenhuma evidência de que ela não está carregada, então ela não está!”?

Concluído, mais três pegadinhas do neo-ateísmo não conseguiram passar no “teste de qualidade”. Não foi dessa vez.

 

fonte : http://teismo.net/quebrandoneoateismo/2010/11/05/desenganando-varias-pegadinhas-do-neo-ateismo/

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