A Falácia do “Ateísmo é só a descrença”


Uma das maiores falácias praticada hoje pelos novos ateus, e muito cometida aqui nos comentários do site, é a defesa intransigente da idéia de que “o ateísmo é só descrença (em Deus)”. Segundo o novo ateu, jamais uma crítica reflexo pode atingir o ateu, pois o ateísmo é “a mera descrença em Deus”.

Antes de tudo, deixe-me esclarecer algo: é óbvio que, dentro de um certo sentido, eu concordo que o ateísmo só necessita a descrença em Deus. “O quê? Você está dizendo que algo é uma falácia e diz que ela é verdadeira?”. O objetivo do meu texto, que eu devo tentar explicar daqui para diante, é demonstrar o outro sentido dessa frase. Dizer que o ateísmo é a “mera descrença em Deus” é criar apenas uma figura abstrata, de valor apenas conceitual. Chame isso de “ateísmo platônico”. Mas é isso que devemos procurar entender para desvendar o ateísmo como um fenômeno real?

Não, meus caros, não! O “ateísmo platônico” (ou a “mera descrença” dos novos ateus) está necessariamente exemplificado em um sujeito racional e pensante. Ele existe como um reflexo de outras condições e decisões desse ser ao longo do tempo. E só se apreende a essência real do que é o ateísmo, hoje, pela avanço da apreensão do sujeito ateu. “Mas então seu trabalho é uma reconstrução histórica ou antropológica?” Na verdade, essa não é a questão eu proponho no momento. A verdadeira questão que eu proponho é esta: para o teísta, e cristão, ou mesmo um estudioso de filosofia da religião, o importante é a compreensão de:

  • (a) o ateísmo como um fenômeno real, ligado à construção subjetiva e histórica do homem, com suas justificativas e premissas contextualizadas e entendidas dento desse aspecto;
  • (b) o ateísmo como um enunciado acadêmico puramente abstrato, sendo o mero estudo da definição de “se ateu, sem crença em Deus” e “se sem crença em Deus, então ateu”?

É claro que as questões abstratas tem o seu valor (e não nego isso de maneira alguma). Mas se o trabalho do filósofo é interpretar e compreender o mundo, para entender o fenômeno ateu e, principalmente, o fenômeno neo-ateu, então não devemos nos trancafiar no mero jogo de definições e sim na compreensão de quem é o ateu real, qual suas idéias, qual sua ontologia, qual sua epistemologia, qual sua condição cultural (misturando, assim, psicanálise, filosofia e também antropologia). A idéia do “ateísmo platônico”, que não tem conexões com a realidade, assim, se esmorece como algo incapaz de nos guiar para grandes distâncias.

II

Explicado e, principalmente, entendido o ponto acima, podemos passar ao cerne da questão. Se aceitarmos que o ateísmo deve ser estudado por um prisma real, e não como o “ateísmo platônico” (no sentido acima) dos novos-ateus, precisamos entender as etapas que dão origem ou o encadeamento mental para o ateísmo atual. Logicamente, ele deve vir a partir do discurso humano, sendo formado a partir de algumas idéias pressupostas. Sendo assim, podemos iniciar dizendo, basicamente, que o discurso humano é uma única potência, que se atualiza de quatro formas diferentes, que são:

  • (a) o discurso poético, que busca deixar uma impressão, ou que valoriza o lado “psicológico-existencial” do ser humano;
  • (b) o discurso retórico, que busca a produção de uma crença firme ou a persuasão (tanto da razão quanto da vontade);
  • (c) o discurso dialético, que busca o conhecimento através de objeções, do erro e da tentativa;
  • (d) o discurso analítico (ou lógico), que reduz os conhecimentos adquiridos a uma demonstração certa;

Quero deixar claro que meu objetivo, aqui, não é de uma construção de uma teoria epistemológica rígida, mas apenas trabalhar com conceitos, mais ou menos gerais, e, portanto, passíveis de correção, para ampliação do conhecimento. Se for possível para o leitor compreender o que quero dizer ao citar cada um desses discursos, ele já poderá entender o meu próximo argumento daqui para diante.

III

Se o ateísmo surge como um processo a partir do discurso humano, que se atualiza dentro de uma das quatro formas sugeridas anteriormente, qual é o principal ponto hoje que observamos nos novos ateus?

É verdade que qualquer tentativa pode cair na generalização e, portanto, no erro. Mas o observador lança sua tese inicial justamente para a crítica e para melhora, sem buscar necessariamente a perfeição. Assim, a tentativa está justificada.

Vamos fazer o caminho inverso. Encontramos um discurso analítico por parte dos novos ateus e ateus? Ora, não me parece que seja o caso. No máximo, argumentos como o “Paradoxo da Onipotência” e o “Problema do Mal”. Mas, na verdade, esses problemas não são justificáveis do ponto de vista lógico, mas apenas trabalham com alguns erros na intuição humana sobre a metafísica. O discurso dialético também se encontra mais ou menos na mesma linha.

O que temos então? O discurso poético, de valor existencial, e o discurso retórico. Muitos ateus e, em especial, os novos ateus, enfatizam sem parar apenas slogans, sem dar premissas e critérios justificados. Outro dia um novo ateu mandou uma mensagem assim: “Qual a razão de existirem ateus? A própria RAZÃO!”.

Pergunto: houve justificativa para essa frase? Que eu saiba, a “razão” é capaz de dar demonstrações. Onde está a demonstração que os ateus os são pela “razão”? Ou isso é apenas mais uma frase para se sentir bem, para se sentir superior, para criar algum auto-valor, uma afirmação de auto-suficiência humana depois de ter matado, subjetivamente, a fonte de todos os valores (como diria Nietzsche)?

O que noto, hoje, é a ênfase na figura de “representar a razão”, “o pensamento racional”, “o pensamento científico”. O pensamento religioso e a figura do Absoluto, não é enfrentada, mas ridicularizada, como se “Ah, eu simplesmente não posso acreditar nisso” (quando não comparada, de forma idiota, o absoluto com o contingente, o finito, o empírico, como se não houvesse aí um erro de categoria). Quais os motivos para tudo isso? Provavelmente, a segurança psicológica de achar que está do lado do legado do Iluminismo, Materialismo, Cientificismo, Revolução Cultural… Aí isso se transforma em uma descrença. Basta lembrarmos, novamente, de Nietzsche: “O que decide contra o Cristianismo agora é a nossa vontade”.

IV

Quero deixar claro, também, que não estou dizendo, nesse texto, que o ateísmo é verdadeiro ou falso por isso ou aquilo. Nem que nenhum ateu tem apresentado discurso analítico ou dialético. O que quero dizer é que pelo minha experiência com os novos ateus, e outros ateus, o que está sobrando, apesar de toda propaganda de racionalidade, são preconceitos emocionais contra a idéia de Deus e a idéia de religião. Na verdade, o que temos mais é um desespero ateísta subjetiva perante ao problema da existência. Rejeita-se o Absoluto por uma esperança de redenção, encontrada em algum “instrumento” do homem (seja no “humanismo secular”, seja no cientificismo, seja na luta do “movimento social”) ou por alguma idéia de “como eu devo viver minha vida” que é contrária ao costume religioso. E se alguém quiser enfrentar o ateísmo real, e não a mera idéia acadêmica, deve começar entendendo melhor esse problema levantado pelo texto. O ateísmo pode ter virado uma expressão de preferências subjetivas, da eleição de alguns valores ou, enfim, a expressão de uma daquelas formas de discurso por mim citadas e não uma “mera descrença”. “A mera descrença” tem uma causa. E a causa pode ser entendida pelo discurso que produziu a convicção mental do sujeito ateu.

Se eu estou certo, já não posso dizer. Mas é algo que pode ser pesquisado, discutido e, acima de tudo, criticado.

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