Análise cética: o ateísmo é somente a ausência de crença?


Um dos pontos que mais debati internamente com meu amigo Paulo Junio (editor do Teismo.net) é a a definição do que é ateísmo.

Todos nós sabemos o que a palavra “ateísmo” significa no nosso dia-a-dia. Se alguém disser, por exemplo,  “Não sou ateu, sou agnóstico”, você entenderá perfeitamente o que essa pessoa quis expressar.

No entanto, no campo dos debates, e em especial da internet, a palavra “ateísmo” foi sofrendo modificações bizarras. Hoje, para muitos, o ateísmo é “apenas ausência de crença em Deus e deuses”. Segundo o Paulo Junio comenta, dizer que o ateísmo é apenas “ausência de crença” constitui uma estratégia para fugir das justificativas para posicionamentos proposicionais.

Para ninguém alegar que eu inventei essa forma de definir o ateísmo, cito expressamente Daniel Sottomaior, presidente da (já criticada no blog – veja AQUI) ATEA:

  • “Já o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses, e não tem qualquer doutrina.”

O importante está resumido aqui: “o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses”.

Essa é a posição. Vamos analisá-la.

Observe, antes de tudo, que ao dizer que o ateísmo é uma ausência de crença nos estamos dizendo que o ateísmo é uma propriedade aplicável a seres, e não um posicionamento proposicional.

Vamos diferenciar propriedades de proposições. Segundo as definições mais frequentes, uma propriedade é uma qualidade possuída por um ser. Eu, por exemplo, tenho a propriedade/característica/qualidade de ser racional. Já uma proposição é uma expressão sobre o mundo distinta da sentença que a expressa. Pelo exemplo clássico, as sentenças “Snow is white” e “Schnee is weeit” são diferentes, mas expressam a mesma proposição em seu conteúdo. Quando a mente contempla um conjunto de sinais como esses, na verdade o que ela está contemplando é uma proposição. É por isso que a comunicação é possível, mesmo em línguas diferentes.

Pela definição apresentada, verifica-se que, se o ‘objeto’ do ateísmo é uma propriedade e não algum tipo de proposição, então o ateísmo também é uma propriedade aplicável a pedaços de pedra e micróbios. Afinal, pedras também apresentam ausência de crença em Deus, assim como nossos amigos micróbios.

Apenas isso já seria suficiente para colocar algumas emendas na definição de Sottomaior.

Mas não acabou por aí. A definição de ateísmo como propriedade também é obviamente falsa.

Considere as seguintes posições filosóficas: realismo, conceitualismo, nominalismo, empirismo, racionalismo, idealismo, materialismo, hilomorfismo, etc. Assim como o teísmo e o ateísmo, essas são posições discutidas, debatidas e que podem ser verdadeiras e falsas, podem entrar em relações lógicas, possuem consequências diretas se forem reais ou não, etc. Por tudo isso, ninguém diria que o racionalismo é “somente” uma propriedade de alguém. Se o ateísmo e o teísmo estão no mesmo grupo, como parecem estar, então eles não são propriedades, mas tem caráter proposicional. Eles expressam algo e podemos analisar se esse algo corresponde a maneira como o mundo é ou não.

O pior de tudo é que Sottomaior diz que o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses. Para o presidente da ATEA, alguém que negar a existência de Deus (que não será mais uma “ausência de crença”, mas uma crença positiva de inexistência), que pelo uso comum e tradicional da palavra ‘ateu’ estaria dentro do grupo, já não é mais ateu.

Esse é mais um absurdo derivado por essa definição utilizada por Sottomaior e também por neo-ateus.

Até aqui, a definição está terrível. Mas vamos tentar reformulá-la.

Talvez algum parceiro de Sottomaior diga que o ateísmo não se refere a uma propriedade, mas à proposição expressa na sentença ‘existem pessoas que possuem ausência de crença em Deus e deuses’.

Se alguém definisse dessa maneira, bastaria perguntar: então o ateísmo é verdadeiro?

É obviamente – até trivialmente – verdadeiro. Todos nós sabemos que existem pessoas sem crença em Deus. Mas suponha que Deus exista. Então nesse caso tanto o ateísmo quanto o teísmo são verdadeiros ao mesmo tempo, sendo, supostamente, posições contrárias e conflitantes. Assim, essa definição também não é de serventia.

Em uma nova tentativa, o ateísmo poderia se referir à concordância com a proposição expressa na sentença ‘não há evidências suficientes para formar uma crença justificada na existência de Deus e/ou deuses’.

Mas como essa posição se diferenciaria do agnosticismo tradicional – seja o moderado (“não há no momento”) ou o absoluto (“é impossível, em princípio”)?

E observe que essa posição sequer é incompatível com o teísmo e com ser teísta! Vários teólogos liberais protestantes também diriam que não há evidências para a existência de Deus e ficariam felizes em dizer que, mesmo assim, acreditavam em Deus. Na verdade, eles seriam até mesmo CONTRA alguém tentar conseguir uma evidência para a existência de Deus. Seriam eles teístas ateus? (Dica: para uma discussão dessa posição, leiam o primeiro capítulo do livro ‘Faith and Rationality’, editado por Alvin Plantinga e Nicholas Wolterstorff, no subtítulo “The Reformed Objection to Natural Theology”).

Não é preciso dizer que a veracidade do ateísmo, como definido no momento, também não é incompatível com a existência de Deus. Então voltamos ao problema da definição anterior a essa. Novamente, ela não acrescenta nada.

Por fim, qual é a proposição expressa pelo ateísmo? Se neo-ateus e outras pessoas tivessem mais culhões, diriam logo que é ‘Nenhuma divindade existe’. Essa posição é absolutamente clara e não gera nenhuma confusão.

Pelo entendimento tradicional, o teísmo vai ser a posição branda de que ‘Existe uma divindade ou mais’. O monoteísmo que ‘Existe uma divindade’. O monoteísmo clássico que ‘Deus existe’.

Já o ateísmo seria, como dito, a posição de que ‘nenhuma divindade existe’.

Para os que estão neutros e não tem posição nem a favor nem contra, o termo agnóstico se aplica bem. Isso porque, mesmo que nem todo agnóstico seja neutro, todo neutro é agnóstico. Se ele não tem posição, é porque não tem conhecimento. É evidente que um agnóstico poderá adicionar as diferenças de ‘agnóstico teísta’ e ‘agnóstico ateu’. Mas o termo – utilizado de forma simples e sem maiores qualificações – vai remeter a essa neutralidade e limitação no conhecimento, deixando claro o que ele pensa.

Como dito, não só essa é a posição tradicional, como é fácil de entender. Nenhuma palavra é estragada ao ponto de ficar incompreensível.

Mas se eles querem continuar utilizando o termo ‘ateu’ e não querem defender a inexistência, é porque não tem capacidade de pagar a aposta e ir pro debate. Melhor para nós.

Alguém poderá argumentar que essas são definições e que se alguém escolher a palavra ‘ateu’ para expressar aquele que tem ‘ausência de crença’ ele estará em seus direitos. Concordo. Mas devemos lembrar que usamos sinais, nesse caso, para expressar diferenças reais, não meras convenções. E, objetivando passar as mensagens pelo uso dessas palavras, a maneira mais clara de classificar deve ser a escolhida. E a forma explicada aqui como também é a mais clara de todas, além da mais corrente fora do mundo neo-ateu.

Em resumo: para definir os termos “ateísmo” e “teísmo”, devemos nos basear em posicionamentos objetivos descrevendo o mundo e não em estados de pessoas. Você poderá usar o termo como quiser – afinal, esse é um país livre. Mas se o objetivo da fala é a comunicação, então termos simples e de definição clara são preferíveis a confusões terminológicas como essa gerada por Sottomaior.

 

fonte : http://teismo.net/quebrandoneoateismo/2011/12/20/anlise-ctica-o-atesmo-somente-a-ausncia-de-crena/

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