Supostas contradições bíblicas – II


Antes de apontares uma contradição, convém saberes o que é uma contradição

Quando tratam do assunto das contradições bíblicas apontadas, Josh McDowell e Don Stewart, experientes apologistas cristãos, escrevem:

O que é uma contradição? O princípio da não-contradição, que é a base de todo pensamento lógico, afirma que uma coisa não pode ser ao mesmo tempo “a” e “não-a”. Em outras palavras, não pode estar chovendo e não-chovendo ao mesmo tempo…

Ao encontrar possíveis contradições, é de extrema importância lembrar que duas afirmações podem diferir entre si sem serem contraditórias. Algumas pessoas não sabem distinguir entre contradição e diferença. Por exemplo, o caso do cego em Jericó. Mateus relata como dois cegos encontraram Jesus, enquanto Marcos e Lucas citam somente um. Contudo, as duas afirmações não se negam, mas são complementares.

Suponha que você esteja falando com o prefeito e o chefe de polícia de sua cidade no prédio da prefeitura. Mais tarde você encontra um amigo e conta que falou com o prefeito. Depois encontra um outro amigo e lhe diz que falou com ambos, o prefeito e o chefe de polícia. Seus amigos ao compararem as informações, encontrarão uma aparente contradição. Mas não há nenhuma contradição. Se você tivesse contado ao primeiro amigo que você falou somente com o prefeito, você estaria contradizendo a afirmação que fez ao segundo. As afirmações que você realmente fez para o primeiro e segundo amigos são diferentes, mas não contraditórias.

Do mesmo modo, muitas afirmações bíblicas são deste tipo. Muitas pessoas pensam que encontram erros em passagens que não leram corretamente.” (McDowell, J. e Stewart, D. (1997), Respostas Àquelas Perguntas -O que os céticos perguntam sobre a fé cristã, Editora Candeia, primeira edição, pág. 228)

O Deus do Levítico

 

Crente que navegue pelos mais variados blogues anti-Deus tem de esperar encontrar, em todos eles, uma referência ao Levítico. Arrisco dizer que o Levítico é o livro preferido dos ateus para dizerem que Deus não é amor, mas sim homofóbico, psicótico, cruel, egoísta, repugnante, etc. Quando li o 1º capítulo do The God Delusion de Richard Dawkins, confesso que me doeu um pouco o coração, ao ler os adjectivos todos que ele atribui a Deus. Não estava habituado a formas tão desesperadas de mostrar que Deus não existe. Ele e outros acham-se com razão de fazer essas afirmações pois, afinal, um Deus que ordene, na sua lei, que os homossexuais devem morrer tem de ser repugnante mesmo.

No entanto, estas declarações são feitas por indivíduos que apenas lêem a Bíblia de modo superficial. Não reflectem nela! Apenas procuram “contradições” e “erros” que estejam ali à superfície, para depois poderem escrever um livro mostrando como o Deus da Bíblia não é um Deus de amor.

No post “Mais um contributo da Igreja Católica para um mundo melhor” do blogue O Número Primo (adoptei aquela política de não linkar sítios que não se relacionem com a minha lógica – interessados favor procurar no google), o Rui Passos Rocha deixa o seguinte comentário:
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“Não se deite com um homem como se deita com uma mulher. É repugnante” – cap. 18
Por “ser repugnante”, “terão de ser executados” – cap. 20
“Se um homem se deitar com a mulher e a mãe dela, comete perversidade. Tanto ele como elas [onde se inclui a mulher] serão queimados com fogo, para que não haja perversidade entre vocês” – cap. 20
“Se um homem se deitar com uma mulher durante a menstruação dela e com ela se envolver sexualmente, ambos serão eliminados do meio do seu povo, pois exposeram o sangramento dela” – cap. 20
“Os homens ou mulheres que, entre vocês, forem médiuns ou consultarem os espíritos, terão que ser executados. Serão apedrejados, pois merecem a morte” – cap. 20

In Levítico
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O Rui acha incompreensível Deus mandar matar os homossexuais, os adúlteros, os sexualmente depravados e os espíritas. E porque é que o Rui e todos os outros que pensam como ele estão errados? Porque é que eles falham completamente a questão? Leiam as restantes partes!

Utilizo o nome do Rui mas isto serve para todos os que pensam como ele. Portanto, podes substituir o nome do Rui pelo teu!
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Se o Rui acha que são leis completamente incompreensível e ridículas…

Com que base, em que contexto o Rui julga Deus? A hipótese da Evolução fez com que o Rui vivesse no século XXI… separado dos tempos do Levítico por 60 séculos (de acordo com a cronologia bíblica). O Rui está a julgar Deus com as suas ideias domesticadas pelo século XXI, tendo por base a concepção de lei vigente nos dias actuais. Como é que se pode opinar sobre algo que foi escrito num contexto histórico-social completamente diferente dos nossos dias?

Em Deuteronómio 23:13 encontramos uma lei de higiene que faz rir qualquer um (a mim, pelo menos, fez-me rir quando a li pela primeira vez): “Entre os teus utensílios terás uma pá, e quando te assentares lá fora [fora do arraial], então com ela cavarás e, virando-te cobrirás o teu excremento“. Mas o que é isto? Deus a dizer a pessoas adultas que não se pode fazer bosta (literalmente) em qualquer lado e que é necessário cobri-la? Não é demasiado óbvio? Até o meu primo de 7 anos sabe que existem lugares próprios para fazer este tipo de coisas. Mas o meu primo de 7 anos vive num tempo completamente diferente, em condições diferentes daquelas pessoas do Levítico. Ele é ensinado, desde pequeno, que se faz chichi no pote em forma de carro do Noddy.

A numerosa população de judeus que saiu do Egipto sob o comando de Moisés estava ainda a aprender a viver em sociedade pois, ao contrário do que prega a Evolução, o Homem não existe há uns poucos milhões de anos! “Mas ó Sabino… os egípcios já viviam em sociedade e sabiam onde defecar!“. Mas os israelitas não estavam a viver em casas ou em grutas ou em cavernas. Eles estavam a viver no deserto! Nos tempos bíblicos, nunca uma população tão numerosa tinha vivido nestas condições. Não é de estranhar que a construção das pirâmides do Egipto ainda hoje continue a ser uma incógnita (há quem acredite que extra-terrestres as construíram – gente com formação académica). Como é possível construções tão majestosas surgirem em tempos tão remotos? Só muita gente mesmo poderia contribuir para a sua construção.

Se o nosso cérebro é um produto de milhões de anos, o resultado de processos impessoais e sem nenhum sentido, então porque é que “isto” que te parece errado e “aquilo” que te parece correcto na minha opinião é precisamente o oposto? Ei, não tenho culpa… eu vim do mesmo processo não direccionado que tu!

Um exemplo prático… há 80 anos a questão do aborto não se colocava. Pelo menos não tão incisivamente como nestes últimos anos. Tomando o exemplo de Portugal, hoje em dia já é legal abortar. Os nossos bisnetos certamente dirão: “A sério? No teu tempo havia quem não aceitasse o aborto? Foi preciso um (dois) referendo para ser legal praticá-lo? O pessoal da tua geração era mesmo quadrado!“. Apesar de haver sempre quem discorde, há assuntos que vão ficando banais ao longo dos tempos. Num enquadramento diferente, a questão da eutanásia é outro exemplo semelhante. O que para ti hoje é usual, para pessoas do século passado podia não ser. Da mesma forma, o que para ti hoje é afronta, para pessoas de gerações seguintes poderá ser normal.

O teu problema é não te imaginares na época em que o Levítico foi escrito. O teu problema é pensares que o contexto histórico-social do tempo de Moisés deve ser considerado igual ao teu.

 

Se o Rui acha que Deus é mau por fazer uma lei onde o homossexual deve ser morto…

Deus é mau e injusto? Não! Deus é verdadeiro e justo! Se alguém vir um pai ou uma mãe a dar 3 safanões ao filho de 9 anos não diz nada. Até dá vontade de rir. Já se for Deus, o Pai do Céu, não se pode tolerar pois ele diz ser bom e misericordioso. Eu sei que dá muito trabalho aos ateus pensarem nas palavras que lêem na Bíblia em vez de se limitarem a ler com a mente focada nas possíveis contradições, mas façam um esforço… vá lá.

Se não deres educação ao teu filho, desde pequeno, muito provavelmente vais ter um filho marginal ou rebelde. Os pais castigam os filhos para o seu bem, nunca deixando, contudo, de os amar. Assim é Deus, que é considerado o Pai da Sua criação, que também castiga os Seus filhos quando há necessidade (Nota: o povo tem tendência para dizer que todos são filhos de Deus, o que não é verdade. Criação de Deus é uma coisa, filho de Deus é outra coisa – consultar João 1:12 para tirar dúvidas).

Podemos pensar as leis apresentadas pelo Rui de outro ponto de vista. Não havia medicina naquele tempo sendo que a mínima infecção era irreversível (a não ser quando o próprio Deus operava – ver, por exemplo, Números 21:8). Desta forma, em meu entender, era necessário que o povo tivesse em mente os pesados castigos que lhes poderiam advir da sua desobediência. Nunca esquecer que estas leis tinham por trás o amor de Deus pelo seu povo. Estas leis de saúde e higiene (como aquela de enterrar a bosta fora do arraial) revelam o cuidado de um Deus minucioso, preocupado com o seu povo.

E acaso podes tu dizer que Deus foi injusto? Então pensa comigo: 1) se Ele criou estas leis porque via pessoas do Seu povo a praticar estes actos, então ele foi misericordioso porque não os castigou. Criou a lei e esqueceu a desobediência anterior à mesma; 2) Se Ele criou estas leis mas ninguém cometia estes actos então ele também não foi injusto porque não castigou ninguém. E mais… ele mostrou que sabia que alguém havia de colocar em mente estas práticas. Em nenhuma situação foi injusto. “Se existir algum espírita entre vós a pena é a morte, pois só eu sou Deus” era uma regra naquele tempo tal como hoje “se fizeres pirataria podes ficar até 3 anos na prisão“. A única diferença é mesmo a autoridade – num mundo com polícia podes escapar… com Deus não tens essa possibilidade.

É de salientar ainda o parêntese recto que o Rui faz nesta oração: “Se um homem tomar a mulher e a mãe dela, comete perversidade. Tanto ele como elas [onde se inclui a mulher] serão queimados com o fogo“. Ele dá a entender que é injusto a mulher do homem que também fornicou com a mãe ser morta. Sinceramente, não percebo qual a objecção aqui. Só se o Rui entende este versículo como se ele dissesse que o homem fornica com a mãe da sua mulher sem esta última saber. Não me parece que seja isso que o versículo diz. A mim parece-me, claramente, que se refere a quando o homem fornica com as duas, tendo estas pleno conhecimento do acto.

 

Mas Deus disse “Não matarás” e depois fez leis cujo castigo implicava a morte do transgressor…

A palavra hebraica usada neste mandamento é ratsach e aparece na Bíblia sempre que alguém: comete homicídio, mata de forma premeditada ou mata por ódio ou por reacção negativa (Foi o que Moisés fez quando matou o egípcio). Claro que estas questões linguísticas só fanáticos como eu sabem. Os ateus escrevem no Google Deus mandou matar?“, lêem os sites ateístas, abrem os blogues dos cristãos e atiram-lhes com isso à cara (no meu caso eu posso dizer -> como se isso afectasse a minha fé).

Deus é senhor da Sua criação. Ele tem o direito de castigar o Homem da maneira que quiser. Isto não quer dizer que Ele está a quebrar uma lei dada por Ele mesmo, uma vez que outra regra está em causa. O “Não matarás” é tão regra como o “Não se deite com um homem como se deita com uma mulher“, apesar de a primeira regra ter surgido nos 10 Mandamentos. Em nenhum lado da Bíblia Deus diz que as leis dos 10 Mandamentos são mais importantes ou são para serem mais cumpridas do que as restantes.

Para mostrar a estupidez e fanatismo ateísta, deixem-me colocar uma questão: nos Estados Unidos da América pratica-se, em alguns estados, a pena de morte. O homem ou homens que executam o infractor estão a matar uma pessoa, seja por que método for. Tu nunca vais dizer que eles também deveriam ser castigados por estarem a matar uma pessoa. Porquê? Porque é a autoridade que está a funcionar neste caso. Ele sabia o que lhe poderia acontecer por praticar o acto que o levou à condenação. O engraçado é que nas questões do Levítico os ateus já não acham a mesma coisa. “Então Deus diz para não matar e depois dá ordens para matar?”, dizem eles, irracionalmente.

Deus dá regras às pessoas para o seu próprio benefício. Isso é o que a maioria dos cépticos esquece. Pensam que Deus está apenas a ser caprichoso. Mas quando se dignam a analisar estas regras, pensando no devido contexto da época, vêem que elas têm uma razão de ser. Todos nós temos de respeitar certas regras, concordemos ou não com elas. Se as desrespeitarmos arriscamo-nos a sofrer as consequências. Era também isso que acontecia no tempo do Levítico.

Não cabe ao subordinado julgar se a autoridade está certa ou errada. Ele pode discordar, mas isso não invalida o facto de ele ter de se sujeitar a ela. Sejam pais, professores, polícias, governadores ou juízes. É ingenuidade pensares num mundo sem autoridades superiores, e é ingenuidade ainda maior pensares num Deus sem autoridade para julgar e condenar segundo os Seus (e não os teus) critérios de justiça.

Os filhos, quando pequenos, certamente não entendem muitas das ordens ou forma de proceder dos pais. E repara que eles estão apenas a poucos anos de serem adultos e de fazerem eles mesmos as coisas que não compreendiam quando putos. Visto isto, a que distância tu te consideras de Deus para achares que podes entender os Seus desígnios e julgá-los? Com que direito dizes tu que “esta parte da Bíblia é estúpida e ultrapassada”?

Mas se estas regras te fazem assim tanta confusão deixa-me dar-te uma boa notícia. Jesus Cristo disse que veio para cumprir a lei, pelo que se quiseres ter relações sexuais com a tua namorada enquanto ela está com o período, força. Já não tens de estar sujeito às leis de Moisés (notar que há certos princípios que continuam em vigor no Novo Testamento).
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“Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo?” (II Coríntios 2:16a)

“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir” (Mateus 5:17)

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